O euro-comunismo está vivo e bem vivo (no PdCI)

berlinguer_comunista_italiano

“9-l’attribuzione di un ruolo attivo alla Banca Centrale Europea anche nella lotta alla disoccupazione e non soltanto in quella all’inflazione (al pari di quanto già fanno tutte le banche centrali del mondo).” (em “I comunisti italiani per le elezioni europee: il nostro idee, il programma”)

“9-A atribuição de um papel activo no Banco Central Europeu em matéria de luta contra o desemprego e não apenas para a inflação (como já fazem todos os bancos centrais do mundo).” (em “Os comunistas italianos para as eleições europeias” *programa eleitoral do PdCI) [8]

Domenico Losurdo, intelectual italiano, conhecido pelo livro “Stalin: história e crítica de uma lenda negra” que o tornou famoso como suposto apologista de Stalin convive com a contradição de ser membro de um partido euro-comunista o que naturalmente implica que dito partido seja visceralmente anti-estalinista e anti-leninista. Falo do Partido dos Comunistas Italianos (PdCI).

O problema de Losurdo é que ele rejeita categoricamente a parte fundamental da passagem do socialismo ao comunismo que é o desmantelamento gradual do Estado (mesmo sendo o Estado operário) na medida que a dominação de uma classe sobre outra (a ditadura do proletariado) deixe de ser necessária ao se extinguirem as classes. Rejeitar este tese fundamental é rejeitar Marx, Lenine, Stalin e todos os marxistas-leninistas depois deles. No limite Losurdo leva-nos a deixar cair a definição marxista-leninista do Estado e certamente com isso cairá também a Ditadura do Proletariado. Esta é mais uma das mil e uma formas que os revisionistas e reformistas inventam para alimentar a falsa dicotomia Estado democrático versus Estado ditatorial. O Estado é sempre democrático para a classe dominante e sempre ditatorial para a classe dominada. A negação da tese que é preciso desfazer gradualmente o Estado operário para abolir as classes é um pretexto para impor nos ingénuos a visão burguesa do Estado “neutral”. Losurdo pode elogiar Stalin, mas ataca ideias fundamentais de Stalin.

A última obra que Stalin escreveu dedicava-se claramente à questão económica da passagem do socialismo ao comunismo [1]. E estava lá definido um caminho para o desmantelamento gradual do Estado. Atenção que defender a tese fundamental da abolição do Estado não pode ser confundido com a tese anarquista de abolir o Estado do dia para a noite. O objectivo existe mas a sua concretização e o ritmo do seu cumprimento depende de muitos factores. O notável progresso económico e a sensação de vitória política que a URSS viveu após a vitória militar sobre o nazismo certamente animou Stalin a dar novos passos e esboçar um caminho para o comunismo.

Dizer que (Losurdo) é revisionista não é negar a inteligência, mas sim dizer que usa a inteligência ao serviço do inimigo de classe. Losurdo usa uma linguagem certamente ambígua sobre essa questão do desmantelamento do Estado. O objectivo dele é apoiar de forma subtil e difarçada a tese do “socialismo de mercado” que é um dos muitos caminhos para a social-democracia e para as alianças com as burguesias “patrióticas”.

Para os camaradas simpatizantes de Mao, vejam como Losurdo elogia o traidor do “socialismo de mercado” Deng Xiaoping [2]. É por isso e por Losurdo ser membro de um partido categoricamente “euro-comunista” (o Partito dei Comunisti Italiani que mudou de nome este ano para Partito Comunista d’ Itália) que vamos acumulando indícios que a ambiguidade dele sobre o Estado operário é efectivamente uma porta aberta contra a análise marxista e contra a Ditadura do Proletariado.

O partido de Losurdo (dantes PdCI e agora PCdI) glorifica, dá o nome às casas do partido, faz diversas homenagens ao maior expoente do euro-comunismo na Europa: Enrico Berlinger [3]. Um anti-comunista tal era Berlinger que apoiava o ingresso da Itália na NATO para proteger a Itália do “perigo” soviético. O euro-comunismo no Brasil está visivelmente pouco estudado pelos camaradas (embora tenha sido uma influência chave na destruição anti-comunista do partido que criou o PPS) mas na Europa o fenómeno está mais conhecido, mais vivo (continua a ser uma força hegemónica embora usando também outros disfarces) e mais fresco. As simpatias com o “socialismo de mercado” chinês são uma das pernas do revisionismo que visivelmente se articula com o euro-comunismo para criar uma poderosa força hegemónica do revisionismo no movimento comunista da Europa.

E respondendo a alguém que me diz que o PCdI é hoje frontalmente contra a OTAN. Eu pergunto será por serem frontalmente contra a OTAN que imploram miseravelmente por serem moleta do Partido Democrático? Ou será por serem frontalmente contra a OTAN que participam nas primárias do Partido Democrático [4]? O Partido Democrático para quem conhece um pouco de Itália é ainda pior que o PT. É como se fosse o PT, o PMDB, o PR e toda a merda burguesa da base governista fundida num só.

Depois de múltiplas vezes participarem em primárias do PD (isto é eleições internas do PD) foram rejeitados múltiplas vezes e não tendo qualquer espécie de princípios, escrúpulos e estratégia de classe do proletariado depois de se venderem sem sucesso aos burgueses do PD foram se vender mais uma vez ao novo reformismo da moda chamado Lista Tsipras (nas eleições europeias) [5].

De facto fazem as duas coisas ao mesmo tempo, ora servem de moleta ao Partido Democrático ora servem de moleta aos aspirantes a Syriza italianos (os tais não arranjam melhor nome para uma aliança eleitoral que “uma outra Europa com Tsipras”). Os camaradas brasileiros já conhecem muito bem esta lógica eleitoreira. É o chamado vale tudo por um lugar nos parlamentos da burguesia. Só uma pequena nota aparte: eu lembro-me perfeitamente da forma humilhante como o PCdI entrou na Lista Tsipras, num primeiro momento são excluídos dos lugares cimeiros das listas e fizeram uma choradeira monumental com acusações aos parceiros reformistas de estarem a discriminá-los por serem “comunistas” (!!!!), tanto choraram que lhes deram uns lugarzitos para se calarem [6].

A proposta alternativa do PCdI supostamente contra a NATO não é bem sair da NATO mas reformular a aliança militar numa espécie de bloco UE-Rússia paz e amor. Delírios ridículos dos revisionistas que agora até já gostam da Rússia, pois claro, desde que se tornou plenamente capitalista. Outra questão chave que se encontra na aliança euro-comunista chamada Partido da Esquerda Europeia é mudar o carácter do Banco Central Europeu para colocá-lo ao serviço dos povos (estes génios kautskistas do PCdI propõem que o BCE ajude a criar emprego!!!). Imaginem o que é mudar o carácter do FMI para torná-lo uma entidade progressista, fazer isso ao BCE é exactamente o mesmo delírio. Esta ideia genial do BCE é uma peça chave que até vem numa declaração conjunta do revisionismo europeu [7].

Eduardo

Fontes e notas: [1] “Problemas Económicos do Socialismo na URSS” de J. Stalin, 1952

[2] “Uma viagem instrutiva à China” de Losurdo 2010

[3] Uma das muitas celebrações que o PdCI faz de Berlinger

[4] Primárias no Partido Democrático (PD) em que participou o PdCI, uma de várias

[5] O PdCI com a Lista Tsipras

[6] A choradeira inicial dos revisionistas do PdCI por disputas de lugares na Lista Tsipras

[7] Declaração conjunta do Partido da Esquerda Europeia e afins, incluindo os traidores do partido pseudo-comunista cipriota AKEL

[8] “Os comunistas italianos para as eleições europeias” *programa eleitoral do PdCI

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