O machado de guerra, o anzol da paz e os crápulas transparentes

Excerto do artigo de Jorge Beinstein

Venezuela e Colômbia, dois processos relacionados na estratégia regional do Império.

algunos_asesinados_union_patriotica_g

(…) O anzol da paz

Uma peça chave na conquista da Venezuela é o exército colombiano, a força armada regular com maior experiência de combate da região, 460 mil pessoas (incluindo as três armas mais a polícia nacional). De longe é o maior aliado militar dos Estados Unidos na América Latina, útil tanto para a realização de incursões rápidas como para uma invasão em grande escala e como aparato de apoio a uma guerra prolongada na Venezuela. É necessário acrescentar a estas forças profissionais várias dezenas de milhares de paramilitares imediatamente operativos ou de fácil recrutamento.

Porém, essa força agressiva potencial está imóvel no território colombiano por uma insurgência que não pode ser dobrada após meio século de repressão e que no caso de guerra civil ou de invasão à Venezuela poderia converter-se no núcleo principal de uma estendida guerra popular abarcando ambos os países ou pelo menos em um aliado estratégico decisivo dos combatentes venezuelanos. Para os estrategistas do Império, tirar da cena regional essa insurgência é um objetivo prioritário. Como não puderam fazê-lo pela via militar tentam agora conseguir através de um complexo operativo envolvente de pressões diretas e indiretas e de ofertas tentadoras combinadas com a ameaça (e a prática) permanente do porrete bélico. Tentando converter a crescente debilidade (e decrescente legitimidade) do regime colombiano em uma sorte de armadilha letal colocada aos pés da insurgência, sua extensão (tendendo para o excesso de extensão) política mais ou menos legal com a finalidade de criar ataduras sistêmicas de todo tipo (institucionais, políticas, ideológicas, sociais, etc.) que a impeçam sair da rota do apaziguamento. À trama local soma-se um não menos confuso jogo de pressões regionais e extrarregionais mais ou menos “amistosas” completando o cerco psicológico. Apaziguar, deslocar, dormir, penetrar esse fator perturbador extremamente perigoso é a obsessão desses manipuladores de alto voo. A estratégia tem algo de ciência e algo de pôquer porque se baseia principalmente na capacidade (difícil de medir) de absorção (de degradação politiqueira) do regime colombiano, cuja evolução se articula cada vez mais em torno de duas dinâmicas inter-relacionadas que podem ser maquiadas, adornadas com garantias democráticas ilusórias, porém não eliminadas já que constituem o núcleo duro, sobredeterminante da reprodução do sistema, de sua inserção no capitalismo global.

Em primeiro lugar, o aparato militar cujo sobredimensionamento com relação à sociedade colombiana corresponde à longa guerra interna da qual foi protagonista, mas também à vinculação-dependência do aparato militar norte-americano e suas estratégias coloniais. Atravessado por negócios mafiosos próprios e laços diretos com o império, dispõe de significativas margens de autonomia das camarilhas burguesas locais, com as quais compartilha interesses. Não é segredo para ninguém que os Estados Unidos contam com as forças armadas da Colômbia para suas futuras operações militares regionais e extrarregionais. Somente um progressista iludido pode acreditar que o Império e seus lacaios locais podem aceitar pacificamente a democratização e redução significativa dessa estrutura criminosa.

Em segundo lugar, a crescente hegemonia econômica na Colômbia do complexo agrário-minerador exportador (agricultura quase sem camponeses e mineração ultraextrativista), que expulsa a população e destrói o meio ambiente, o modelo se impõe à lógica global do capitalismo, de seus polos imperialistas (decadentes, porém poderosos) decididos a saquear os recursos naturais da periferia.

A eliminação ou subordinação democrática desse núcleo duro equivaleria em termos concretos à quebra da espinha dorsal do capitalismo colombiano. Custa acreditar que os donos do sistema se resignem a perdê-lo enquanto o Império exacerba sua guerra planetária. (…)

Fonte: Partido Comunista Brasileiro (PCB)

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s