Grécia Mártir, Heróica, Humanizada – Atenas revisitada-2


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Com excepção da ex-URSS e ex-Jugoslávia não há movimento de Resistência comparável pela dimensão ao grego, liderado pelo Partido Comunista, fundado em 1918. Mais de 400 000 gregos pereceram durante a II Guerra Mundial. No final da guerra, o imperialismo britânico aliou-se à reacção grega para esmagar o exército popular. O povo e as forças revolucionárias gregas sofreram a repressão e o exílio. Sofreram a ofensiva imperialista sob todas as formas, da ditadura dos coronéis à desastrosa integração na UE e à profunda crise actual. Mas não perderam o seu núcleo revolucionário fundamental.

Por Miguel Urbano Rodrigues

Publicado em 5 de Junho de 2015

Voltei a Atenas depois de por ali ter passado numa breve visita, há 62 anos.

É outro o mundo e não me reconheço no homem que então vivia no meu corpo.

Atenas tinha então menos de um milhão de habitantes; cidade pobre, nela eram ainda identificáveis as feridas da brutal ocupação nazi. A memória da guerra civil permanecia também viva.

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A cidade cresceu prodigiosamente. Hoje é uma gigantesca megalópolis – quarta maior da Europa – com quase 4 milhões de habitantes.

Pouquíssimos edifícios têm mais de dez andares. Muitos bairros da periferia têm vida autónoma, com comércio, hotéis, restaurantes, etc. Alguns desses bairros foram construídos apos a guerra de 1929/22 com a Turquia, quando ocorreu a troca de populações (400 000 turcos saíram e chegou quase um milhão e meio de gregos vindos da Ásia Menor e Istambul), onde os seus antepassados se haviam fixado há vinte seculos. Essa gigantesca massa de «retornados» alterou a vida no país. A integração dos «asiáticos» não foi fácil. A maioria tinha um nível cultural superior ao das populações de uma Grécia então predominantemente rural que contava na época apenas 4 750 000 habitantes.

A REVOLUÇAO APUNHALADA

Com exceção da ex-URSS e ex-Jugoslávia não há movimento de Resistência comparável pela dimensão ao grego, liderado pelo Partido Comunista, fundado em 1918. Mais de 400 000 gregos pereceram durante a Guerra Mundial. A invasão do país em 1940 pela Itália fascista foi derrotada, mas Hitler acudiu ao aliado e ocupou a Grécia em Abril do ano seguinte.

A luta contra o exército alemão nas cidades e nas montanhas foi uma epopeia, com papel decisivo dos comunistas.

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Em 31 de Maio de 1941 o Comité Central do KKE lançou um apelo para a formação de uma frente popular contra os fascistas alemães, italianos e búlgaros. Os grandes partidos burgueses rejeitaram imediatamente esse apelo. Em 16 de Julho de 1941, funda-se a Frente Nacional de Libertação dos Trabalhadores (EEAM), e a 28 de Setembro de 1941 o KKE e vários pequenos partidos criam a Frente Nacional de Libertação (EAM). Em janeiro de 1942 o Comité Central do KKE e o Comité Central do EAM tomam a decisão de criar o Exército Popular Grego de Libertação (ELAS) que foi o braço militar da EAM. Em 1943 criam-se a Organização Nacional da Juventude grega (EPON), e a Marinha da Guerra Popular de Libertação Nacional (ELAN). Paralelamente a estas organizações funcionavam também a Solidariedade Nacional e a Organização de Protecção de Luta Popular (OPLA).

O EAM utilizou todas as formas de luta: propaganda, publicações, greves, manifestações, demonstrações, luta armada. Até 1944 libertou muitas áreas montanhosas do país onde estabeleceu o Governo das Montanhas, órgãos administrativos, comissões e tribunais populares. No final de Agosto 1944 ELAS desencadeou a ofensiva geral contra as forças nazistas e após muitas batalhas libertou totalmente os pais.

No momento da libertação o exército regular da ELAS tinha em suas fileiras 78 mil oficiais e soldados, 50 mil reservistas e uma milícia popular de 6 mil pessoas. O EAM contava com mais de 1,5 milhões de membros organizados e cerca de 600 mil membros da sua organização juvenil EPON.

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O imperialismo britânico e a burguesia grega consideraram «ameaçados aos seus interesses».

A intervenção britânica culminou em Dezembro de 1944 na batalha de Atenas, um acontecimento sem precedentes na segunda guerra mundial. O imperialismo britânico retirou 60.000 soldados que lutavam contra os alemães em Itália e transferiu-os para a Grécia. Essas tropas, com o apoio de 200 tanques e de aviões de combate, lutaram ao lado de forças da direita grega que tinham colaborado com os nazistas na sua confrontação com o EAM. Após 44 dias de combates, as unidades de ELAS retiram-se de Atenas. Em 12 de fevereiro de 1945, o EAM – em nome da unidade nacional – assinou o acordo inaceitável de Varkiza, que previa entre outras coisas o desarmamento do ELAS.

Não obstante esse acordo, a burguesia não foi capaz de restabelecer plenamente a sua dominação. Então, para consolidar o seu poder, recorreu à violência criminal e ao terrorismo. Entre o acordo da Varkiza e 31 de Março de 1946 foram assassinados 1.289 membros do EAM, feridos 6.671, torturados 31.632, presos 84.931.

Sublinho que as tropas de ocupação britânicas desencadearam uma feroz repressão; armaram o exército da burguesia e lançaram-no contra o movimento popular. Este foi confrontado com uma alternativa. Ou ceder ou lutar. Embora tardiamente, optou pela luta. O novo movimento de guerrilha, o Exército Democrático da Grécia (DSE) nasceu nas montanhas. Foi uma luta justa, anti-imperialista e internacionalista.

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Durante três anos, o Exercito Democrático resistiu. Chegou a contar com 30 mil guerrilheiros. Travou combates vitoriosos sobretudo nas áreas próximas das fronteiras da Albânia e da Jugoslávia. A participação do KKE, então dirigido pelo secretário-geral, Nikos Zachariadis, foi decisiva. Mas a desproporção de forças (o exército, equipado com armas pesadas, tinha 200 000 homens), impediu o DSE de atingir o objetivo: derrotar a burguesia e o imperialismo.

Pouca gente sabe que as bombas de napalm foram utilizadas pela primeira vez numa batalha no monte Grammos quando o exército burguês lançou 338 sobre as posições do DSE.

Devido à desigualdade das forças em combate, a guerra terminou com a derrota do exército do povo. Nesse período da guerra civil, morreram 150 000 pessoas.

Mais de 65.000 combatentes do DSE foram obrigados a deixar o país com as famílias e exilar-se em países socialistas.

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É útil recordar que em 1947 as tropas britânicas se retiraram e Londres transferiu para os EUA a direcção da luta anticomunista na Grécia. Truman, e depois Eisenhower, Kennedy, Johnson, Nixon, Carter, Reagan, Clinton, Bush pai e filho, e Obama mantiveram bases militares no país. Alguns montaram conspirações, fabricaram e depuseram governos e estimularam relações conflituosas entre a Grécia e a Turquia. Sequelas dessa política imperial são ainda identificáveis em sentimentos antiamericanos muito vivos.

Washington apoiou a ditadura dos coronéis (de 67 a 74), um regime de pesadelo que agravou as relações com o Turquia, contribuindo com a sua irresponsabilidade para a intervenção militar desta em Chipre.

A CRISE E O QUOTIDIANO

Na fisionomia de Atenas o estrangeiro recém-chegado tem alguma dificuldade em identificar a profundidade da crise que atinge o país.

Atenas é uma cidade clara, predominantemente branca, com poucos parques mas muitas ruas arborizadas, (a oliveira e a laranjeira são frequentes na paisagem urbana), iluminada pelo sol mediterrânico, infestada por automóveis e motos como outras capitais europeias. Com a agravante de que não há quase estacionamentos subterrâneos.

Nas lojas não se nota escassez de roupas e comida. Os preços são levemente inferiores aos de Portugal. O povo é amável, na aparência alegre, cordial, extrovertido.

À noite, em Atenas, multidões de jovens invadem lugares centrais, sobretudo a Praça Monasterakis, emoldurada por restaurantes populares, a maioria com música. No centro, os cafés, apesar da crise, estão cheios. A cozinha grega, marcada pelo Oriente (quatro séculos de ocupação turca) é refinada, ótima.

A alegria de viver da juventude impressiona por inesperada, mas, ao conversar com velhos amigos apercebi-me, após alguns dias, da profundidade da dramática crise grega.

Percorri numa manhã durante horas áreas dos subúrbios e zonas da cintura industrial. Os bairros de barracas desapareceriam há anos, mas a pobreza das casas e dos moradores é identificável em muitos bairros. No Pireu, nomeadamente no município de Parama, essa pobreza transparece no casario que sobe pelas colinas que abraçam o porto. No metro de Atenas e em ruas centrais, a presença de mendigos aumentou muito desde o início da crise, segundo apurei.

A HERANÇA NEGATIVA DA UNIÃO EUROPEIA

O ingresso na União Europeia foi desastroso. Grande parte da indústria foi destruída e a agricultura rudemente golpeada.

O país, durante décadas exportou açúcar, e era quase autossuficiente em carne e leite. Hoje importa esses produtos assim como trigo e milho. A Grécia importa atualmente agora grande parte dos alimentos que consome.

A cultura do algodão, antes florescente, base de uma poderosa indústria têxtil, entrou em decadência.

RECORDANDO FLORAKIS

Nota de Editor: Todas as imagens publicadas são de guerrilheiros do DSE. E esta última é um monumento ao DSE.

Dos meus dias na Atenas revisitada conservo memória de acontecimentos que desencadearam em mim um turbilhão de emoções inesperadas.

Um deles foi o ato público realizado em frente da casa de Charilaos Florakis que foi secretário-geral do KKE durante quinze anos. Património do KKE, funciona hoje nela um centro de estudos com 30 000 documentos digitalizados, muitos sobre a história do Partido, e conta com uma biblioteca riquíssima.

A iniciativa integrou-se nas comemorações do centenário do nascimento de Florakis e coincidiu com o décimo aniversário da sua morte.

O evento, a que compareceram muitas centenas de militantes, realizou-se ao ar livre, em frente do edifício. No discurso que pronunciou, Dmitri Koutsoumpas, secretário-geral do Partido, evocou o significado da intervenção na Historia do grande revolucionário, denunciando a hipocrisia da burguesia grega que o combateu e injuriou com ferocidade enquanto viveu para lhe reconhecer a grandeza somente apos a sua morte.

Ao ouvir as palavras de Koutsoumpas recordei que a atitude da direita portuguesa e dos socialistas perante Álvaro Cunhal foi exatamente a mesma.

Acompanhei com emoção aquela homenagem à memória do herói comunista. Findou quando a noite havia já descido sobre Atenas. Entre os presentes havia muitos jovens. Senti que eles são já a ponte entre o passado e o futuro de um grande partido revolucionário sobre o qual chovem críticas e até calúnias das burguesias da Europa e da América – um partido que é incompreendido por organizações reformistas do Movimento Comunista Internacional.

Porquê? Precisamente porque o KKE mantém uma fidelidade intransigente aos valores e princípios do marxismo-leninismo e uma confiança inquebrantável na derrota final do capitalismo num mundo em crise civilizacional.

Atenas, Junho de 2015

Fonte: Odiario.info

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