Combater o fascismo: lições do Brasil

A onda conservadora, que saiu às ruas no Brasil em Março e Abril deste ano, foi derrotada pela sua inexperiência e pelas deficiências do seu programa político. Estão enganados, entretanto, os que acreditam que essa onda foi derrotada. A nova toupeira irá trabalhar por debaixo de terra disposta a ser mobilizada, como foi, pelas campanhas eleitorais que se seguem em 2016 e 2018. E muito dificilmente, sobretudo depois das medidas neoliberais tomadas pelo governo, será possível ao PT «criar» uma guerra entre «ricos» e «pobres» para ganhar eleições com os votos dos segundos.

Como cresceu a onda conservadora no Brasil?

O fascismo não vem das classes dominantes. Ou melhor, é consequência imprevista de todas as medidas conscientes do governo, seja ele conservador ou social-democrata, para evitar a crítica organizada. Sem a capacidade de organizar-se para esclarecer e introduzir na arena política os seus interesses, as classes subordinadas limitam-se a pedir políticos mais honestos. Sem a capacidade de compreender o contexto geral em que a política opera e, consequentemente, sem poder avaliar realmente a honestidade de um candidato, limitam-se a exigir um candidato «forte», quer dizer, branco, rico, heterossexual, etc., isto é, com todas aquelas características que o senso comum ou, o que vai dar no mesmo, o preconceito associa a força. De fracasso em fracasso, o preconceito vai-se fortalecendo e sendo mobilizado pela direita conservadora para os seus fins.

Mas isto, evidentemente, é inteira responsabilidade dos partidos burgueses, ainda que não tenho duvidas que seja consequência não intencional dos seus actos. Lembremos a campanha eleitoral de 2010, quando Dilma Russef, José Serra e Marina Silva se enfrentaram. O que ocorreu quando, nas últimas semanas do primeiro turno, as pesquisas indicaram que o maior número de indecisos eram evangélicos ou neopentacostais? Os líderes destas igrejas lançaram em discussão o tema do aborto para obrigar os candidatos a se comprometer com a sua não legalização. Serra aproveitou para acusar Dilma de ser favorável à legalização. Dilma tratou de distinguir a sua posição pessoal do programa da sua candidatura, que se comprometia em não alterar a lei. E os marketeiros do PSDB trataram de encontrar um vídeo da esposa de José Serra onde esta defendia, frente aos seus alunos, a legalização do aborto. Marina, evangélica assumida, que, portanto, já se havia posicionado contra mexidas na lei, foi a beneficiaria do debate.

Moral da história: a burguesia não quer discutir política; apenas vender seus candidatos. Então, como esperar que os eleitores decidam senão com base em seus preconceitos? Os eleitores, entretanto, fazem da necessidade virtude e todo o debate político se transforma no debate sobre corrupção. A política é reduzida à política fetiche! Os caminhos para o futuro de um país são resumidos à escolha de pessoas capazes de tomar essa decisão aparentemente sozinhos; mas, na prática, sob a influência dos lobbies que deambulam nos corredores do poder. A política resume-se à escolha de um candidato «forte» (no sentido preconceituoso da palavra), aparentemente capaz de resistir às tentações do dinheiro dos grandes burgueses, mas, na verdade, feito já com eles.

Lembremos também que, em 2013, quando às classes dominadas brasileiras saíram às ruas em protesto contra os negócios obscuros entre prefeituras e empresas de onibus; exigindo a estatização dos transportes públicos; contra o dinheiro mal gasto em estádios para a Copa e exigindo mais saúde e educação, a liderança foi assumida por pequenos grupos de estudantes. A CUT e o MST tiveram uma participação escandalosamente secundária no processo. Por isso, quando as manifestações passaram de mil para um milhão de participantes, não admira que o seu discurso originário tenha sido diluído no senso comum. Que, então, o discurso proto-fascista, resultado de uma experiência política empobrecida, disputou o sentido das manifestações com o discurso originário: a exigência de uma reforma urbana pela esquerda; a demanda do passe livre!

Lembremos, por fim, que na noite de 21 de Junho de 2013, em seu pronunciamento acerca das manifestações, Dilma Russef anuncia um plesbicito constituinte. Isto é, respondeu às críticas proto-fascistas ampliando-as – de tal forma que até o PSOL começou a bater-se pelo plesbicito –, ignorando completamente as críticas pela esquerda. Ou seja, a social-democracia não tem dúvidas. Para ela é preferível tirar algum partido do discurso fascista e, por consequência, fortalecê-lo que enfrentar o capital.

Ainda assim Dilma Russef venceu as eleições. Como?

Somente forjando uma guerra entre «ricos» e «pobres» a coligação liderada pelo PT pode, no final de 2014, vencer as eleições. Entretanto, é necessário sublinhar que não se trata de uma verdadeira guerra entre ricos e pobres, mas entre a chamada «classe média» (os estratos mais bem pagos do proletariado e a pequena burguesia) e as classes baixas do proletariado, que aquela contrata como empregada doméstica ou empregados dos seus pequenos negócios. Uma cisão entre dominados bastante intensa e muito marcada pelo racismo. Ao lançar essa guerra entre «ricos» e «pobres», os marketeiros de Dilma lograram que uma boa parte dos «pobres» se afastassem da tendência geral em direcção ao fascismo das classes subordinadas… Que, para além do mais, tem a «vanguarda» da pequena burguesia.

É preciso notar que esta guerra não é determinada por motivos puramente económicos. A marca racista que a recobre assegura, por um lado, uma classe média multiculturalista entre os «pobres», quer dizer, entre os votantes à esquerda. E, por outro lado, existem pobre que, sobretudo quando organizados por igrejas onde se professa a teologia da prosperidade, seguem na onda proto-fascista que assola o país. Nunca é demais recordar aqui Silas Malafaia. Por isso, esperança do PT em avançar com um novo PAC em 2017 para assegurar a eleição de Lula em 2018 sairá certamente gorada. Ainda que haja dinheiro para realizar algo assim, o que é duvidoso, isso não afectará nem mobilizará a esquerda multiculturalista que vota no PT e que contribuiu para sobrestimar o peso do voto dos «pobres».

Quando em Janeiro de 2015, Dilma escolhe os seus ministros compondo um governo marcadamente neoliberal, esse dique colocado à onda fascista, essa clivagem nas classes subordinadas criada pelo discurso de «ricos» contra «pobres», ruiu. E, ainda que as manifestações de Março e Abril contassem com a participação quase exclusiva da chamada «classe média», quer dizer, foram realizadas sem os «pobres», facto é que certamente os «pobres» se sentiram representados por elas. Pois, somente isso explica que a popularidade de Dilma Russef, cem dias depois da sua vitória eleitoral, tenha caído para 13%. Somente explica o fracasso das contra-manifestações convocadas em apoio ao governo, pese a mobilização da CUT, do MST e do próprio PT.

Em Abril de 2015, as manifestações conservadoras foram derrotadas pela sua própria inexperiência. Primeiro, a sua única demanda era impossível de ser realizada de forma democrática: o Impeachment de Dilma Russef. Segundo, não souberam lidar com o natural decrescimento do número de manifestantes de Março para Abril. Depois de uma grande manifestação em Março que, ainda que apenas bem sucedida em São Paulo, ultrapassou, neste Estado, o número de manifestantes daquela de Junho de 2013, o decréscimo era inevitável. Esse tipo de mobilização é raro. Consequentemente, os grupos desentenderam-se entre si e dispersaram os manifestantes.

Contudo, não podemos assumir que a onda conservadora estagnou. Pelo contrário, submergida e dispensada de lidar com as contradições que o condenam a fracassos, o sentimento protofascista se difunde pela multidão subalterna. Assim, estará com certeza disponível para ser mobilizado, pelo PSDB e outros partidos ainda mais conservadores, nas próximas campanhas eleitorais.

O que resta para a esquerda?

A esquerda brasileira vai pagar o preço da política de conciliação de classes do PT. As organizações de classe que essa politica condenou ou enfraqueceu, como são exemplo a CUT e o MST, levarão anos a sanear e reconstruir. Isto se a CUT puder ser salva. Agora trata-se de enfrentar a onda fascista que cresce na ausência de organizações de classe, quer dizer, as consequências mais nefastas da política de conciliação de classes do PT. Entretanto, não contra o movimento fascista e, por consequência, a favor do governo. Isso seria, em grande medida, colocar-se contra os trabalhadores do lado da burguesia.

O fascismo foi tradicionalmente interpretado pelos liberais como o resultado do empobrecimento do debate político, fruto da expansão do voto e da ausência de organizações intermediárias entre o governo e os cidadãos (associações, sindicatos, etc.). Já os marxistas tendem a ver no fascismo a solução de recurso da burguesia contra o crescimento da luta dos trabalhadores. Quando, em crise, a burguesia não tem dinheiro para aumentar salários contentado os trabalhadores, destrói os sindicatos. A questão é, no entanto, mais complexa. O fascismo é uma combinação de dois movimentos que correspondem respectivamente às descrições liberal e marxista. Primeiro, a reentrada das classes subalternas na política de forma desorganizada, como demonstra exemplarmente o surgimento do fascismo no Brasil. Segundo, a apropriação de um discurso empobrecido e facilmente manipulável pelos burgueses em apuros com a crise. O discurso fascista é já violento em si: trata-se, como disse acima, da busca do político forte, capaz de limpar o Estado da corrupção. Basta à burguesia virar está raiva cega contra aquilo que lhe interessa destruir.

Assim, o fascismo tem também duas fases. Aquela em que o descontentamento “de baixo” é mais forte que a sua manipulação “por cima” e aquela em que ocorre o segundo. Na década de 1920, os partidos fascistas passaram da primeira à segunda fase em vésperas de chegar ao poder. Daí que os liberais adorem estudar os primeiros passos do movimento fascista italiano enquanto os marxistas prestam mais atenção ao partido nazi no poder. De qualquer modo, não se combate o fascismo na sua primeira fase do mesmo modo que se combate na segunda. Quando a burguesia se apropria da violência fascista contra as organizações operárias, isto é, na segunda fase do movimento, todos os aliados são poucos. Por isso, a frente única é a táctica inevitável! Mas encarar de frente o movimento fascista, na sua primeira fase, é colocar-se contra os trabalhadores e a favor da burguesia.

Na primeira fase do movimento fascista, que hoje vivemos um pouco por todo mundo, o papel dos comunistas é lutar contra as condições que impelem os trabalhadores para o fascismo:

  1. a redução da política à mera escolha dos governantes;
  2. a desorganização dos trabalhadores e de outras classes subalternas; e
  3. a apropriação do discurso fascista (isto é, da crítica moralista da corrupção) para conquistar de votos.

Estas três condições são fruto da acção dos partidos burgueses e social-democratas. Por certo, são as vítimas imediatas do fascismo, os partidos social-democratas como o PT, que criam, ao desorganizar os trabalhadores, as condições para a emergência do movimento fascista. Por isso, não raramente, o combate ao fascismo começa pela luta contra a social-democracia.

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