A Questão do Poder

Quando estava marcado um Congresso do Syriza para Setembro, Tsipras esvazia subitamente essa decisão do Comité Central, tomada há escassas semanas, e força eleições para o dia 20 desse mês. O contexto dessa decisão não podia ser mais esclarecedor, não apenas pela iminência do citado Congresso – Tsipras aproveita, com este gesto, para criar condições em que pode apontar a dedo os deputados que farão a sua base parlamentar, livrando-se do número crescente de eleitos do Syriza, oriundos sobretudo da Plataforma de Esquerda, que se vêm rebelando contra as suas posições e decisões, desautorizando o Governo e forçando-o a uma aliança cada vez mais sólida com os partidos burgueses tradicionais (Nova Democracia, PASOK, e Potami).

Tirando uma minoria absolutamente fanatizada, que recupera e actualiza a velha frase de Bernstein para dizer que «estar no Governo é tudo, a governação é nada», que está disposta a desculpar todas as cedências, a procurar a «táctica» por trás de todas as concessões e de todos os disparates, a esmagadora maioria da esquerda, mesmo a que começou por achar que havia alguma virtualidade progressista no Governo do Syriza, tem como ponto pacífico que Tsipras traiu o mandato popular e está a fazer precisamente o mesmo que qualquer Governo de direita faria, chamando a troika, deixando-a monitorar presencialmente a aplicação do memorando, cortando pensões, subindo impostos, vendendo património público, soltando a repressão policial sobre o povo (nem sequer poupando a Juventude do Syriza, numa manifestação recente). Esta traição deve ser tratada assim, nestes termos e com esta crueza, porque de outra coisa não se trata. A ilusão que Tsipras tentou vender ao povo grego, de que com uma vitória eleitoral conseguiria persuadir a direcção da União Europeia com boas palavras a conceder margem de manobra à Grécia para restituir dignidade aos trabalhadores, é das patranhas mais vezes desmentidas pela história. Do Irão de Mossadeqh ao Brasil de Goulart, do Chile de Allende às Honduras de Manuel Zelaya, sem ser exaustivo, toda a gente tem a obrigação de saber que nenhuma vitória dos trabalhadores sairá de um triunfo eleitoral numa eleição burguesa. É ponto assente, evidente, historicamente indesmentível. Quem quer que não insista repetidamente nesta demonstração e alimente a dúvida mais elementar acerca da evidência deste adquirido de décadas de experiência de luta popular na Terra inteira quer, deliberadamente, objectivamente, insofismavelmente, que os trabalhadores dêem com os burros na água.

Portanto, só a organização popular e a tomada do poder pela força garantirão a vitória definitiva aos trabalhadores. Este facto foi percebido num artigo recente por um dirigente da Plataforma de Esquerda, Stathis Kouvelakis: «devemos falar, agora, em termos de um novo projecto político. Um projecto político que terá uma base de classe, democrático e antieuropeísta, e que numa primeira fase assumirá a forma de uma frente, aberta à experimentação e a novas práticas organizativas. Uma frente que juntará movimentações pelo topo e iniciativas pela base – similar àquelas que floresceram em torno do referendo com a criação dos «Comités Pelo Não» (…) Não significa, portanto, qualquer concepção frentista popular de unidade transclassista com uma «burguesia nacional» fantasmagórica, ou com algum dos seus sectores. Refere-se à dimensão hegemónica e qualquer projecto de classe que vise vencer a luta pela supremacia política» (1). Esta posição da Plataforma de Esquerda, em termos tácticos, encaixa sem qualquer dificuldade nas teses do PC Grego sobre a constituição de uma Aliança Popular: «a Aliança Popular concentra as suas forças em cada cidade, focando-se nos grupos monopolistas, nas fábricas, nos centros comerciais, nos hospitais, nos centros de saúde, nas centrais eléctricas, nas comunicações, nos transportes públicos. Garante a actividade comum destas forças na base de cada sector, e em geral, em luta comum com os desempregados, os auto-empregados, os camponeses pobres, e os elementos pobres dos estratos populares» (2). Organização pela base, nas fábricas, nos locais de trabalho, nos bairros populares, por toda a parte. Organização da classe pela base. Organização para defrontar e derrotar a burguesia. Eis uma táctica comum que encontra também objectivos políticos comuns – da nacionalização da banca à ruptura com a UE, passando pelo abandono do euro e a saída da NATO, são vários os pontos de encontro programáticos entre a Plataforma de Esquerda e o PC Grego. Se essa unidade for constituída não na base do acordo cupulista de direcções partidárias, mas numa aliança pela base que mobilize as massas e as organize para a tomada do poder, ela cumprirá, em meu entender, as tarefas da luta de libertação anti-imperialista que se colocam neste momento aos trabalhadores gregos como passo imprescindível para desmantelar o capitalismo.

Um aspecto deve ser tido em conta pelas forças da esquerda do Syriza, perante a recente decisão de Tsipras: qualquer veleidade de empenhar o fundamental das forças na luta eleitoral vai ser um erro de proporções históricas. O esgotamento absoluto da luta no plano institucional para fazer avançar o processo revolucionário na Grécia ficou demonstrado sem margem para dúvidas com o flop do Syriza desde Janeiro deste ano. Se nunca é nesse âmbito que a luta de classes trava as suas batalhas decisivas, na actual conjuntura grega muito menos. A participação no parlamento burguês, que de qualquer modo será assegurada pelo PC Grego, é um aspecto absolutamente irrelevante da luta que se impõe travar. O momento é de organização de base, de massas, decidida e empenhada, para a tomada do poder. Bairro a bairro, local de trabalho a local de trabalho, unindo todo o povo, classe contra classe, eis no que deve consistir a luta quotidiana das forças da esquerda nos próximos tempos. Isolando a actual direcção do Syriza, que se entregou nos braços do imperialismo, consciencializando o povo, elevando as suas formas de luta, preparando-o para o combate final pela sua liberdade. A velha sociedade agoniza e morre, puxando para baixo, com o seu peso morto, o povo grego inteiro, acorrentado pelo pescoço. Esse povo só tem a perder as correntes que o prendem. Se se mover, vai senti-las. Se os revolucionários e os progressistas o souberem liderar, vai quebrá-las.

(1) https://www.jacobinmag.com/2015/08/tsipras-debt-germany-greece-euro/?utm_campaign=shareaholic&utm_medium=facebook&utm_source=socialnetwork

(2) http://inter.kke.gr/en/articles/Political-Resolution-of-the-19th-Congress-of-the-KKE/

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