«Façamos nós, por nossas mãos, tudo o que a nós diz respeito»

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Por João Vilela

Decorrerá no próximo dia 12 de Novembro uma Greve Geral na Grécia. Neste momento, um poderoso movimento popular de luta, de que fazem parte estudantes, marinheiros mercantes, os trabalhadores do comércio, os camponeses pobres, e todas as camadas que o PC Grego procura agregar em torno de uma Aliança Popular que tome o poder e construa o socialismo, sacode a Grécia com acções de luta nas ruas e locais de trabalho. Ainda no passado dia 15 de Outubro a Frente Militantes de Todos os Trabalhadores (PAME), liderada pelos comunistas gregos, ocupou um ministério, e mais acções de ocupação, desta feita de câmaras municipais, ocorreram em finais de Outubro/inícios de Novembro por um movimento popular fortíssimo, que transformava tais ocupações em momentos de elaboração de cadernos reivindicativos das populações, a serem exigidos junto das autoridades.

São variadíssimos os méritos que podemos e devemos atribuir ao PC Grego e ao seu contributo para a correcção de sérios desvios programáticos e estratégicos no seio do movimento comunista internacional, a começar pelo mais nocivo de todos eles, o reformismo.Mas permito-me salientar o mérito inestimável de, mais do que uma denúncia puramente doutrinária desse desvio e das suas inconformidades com o marxismo-leninismo, o PC Grego ter proposto – e aplicado – ao movimento comunista internacional uma linha de acção política que corrige de forma prática esse desvio reformista: se a raiz do reformismo está no «cretinismo parlamentar», para citarmos Engels, de tudo encarrilar para as instituições burguesas na esperança (ingénua…) de nelas conseguir ganhos de causa duradouros para o proletariado, como se os ganhos obtidos e plasmados na lei burguesa não fossem efémeros e apenas existentes na estrita medida em que uma força material de trabalhadores organizados os pode impor – contra esse reformismo o PC Grego desenvolve e aplica uma linha a que poderíamos chamar de «desinstitucionalização» do combate do proletariado. Não que se abandonem as organizações do Estado burguês, as quais, por ora, oferecem ainda uma frente de trabalho merecedora da atenção das forças da revolução na Grécia. Mas progressivamente se tem corrigido a fé excessiva nessa frente de trabalho que as décadas de hegemonia reformista instalaram nas fileiras do comunismo, substituindo-a pela única coisa que pode, solidamente, garantir o progresso das forças populares e o recuo, e enfim a derrota, da classe dominante: a organização popular, nos locais de trabalho, nos bairros populares, nas escolas, nas zonas rurais, dotando os trabalhadores e os estratos pobres de capacidade de combate social, de luta política, com força ascendente. Nada que não seja isto alguma vez significará qualquer passo adiante, digno desse nome para os trabalhadores.

O PC Grego foi, neste processo, muitas vezes incompreendido. Sobretudo com a chegada ao poder do Syriza, força reputadamente de esquerda, foi recebida com estranheza a sua recusa em integrar o Governo. É hoje visível quão acertada foi a decisão de não compactuar com a euro-esquerda para participar num Governo de estrita gestão do capitalismo sem qualquer garantia sequer da possibilidade de enfrentar os constrangimentos imperialistas (UE e NATO) que são a grilheta que prende os trabalhadores gregos à dominação e à opressão. A continuação do esforço de organização popular e de pressão de rua não só forçou o Syriza a novas eleições, não só causou fricções e até fracturas nesta força pequeno-burguesa, como gerou um movimento popular temperado no combate e, hoje, mais forte para assumir as tarefas que a sua libertação lhe imporá. Tarefas que, por um tempo, serão ainda eleitorais, também: mas que, no que há de determinante, nada terão de eleitoral, antes sendo um confronto, violento e quiçá prolongado, com as forças repressivas da burguesia e do imperialismo. Confronto para o qual os trabalhadores gregos se vão paulatinamente preparando.

Num gesto de elementar justiça, em 2011 o PC Grego reabilitou o seu secretário-geral histórico, Nikos Zachariadis, afastado coercivamente da direcção do Partido por se opor aos descaminhos que o XX Congresso do PCUS ditava ao movimento comunista internacional, através da espúria tese da coexistência pacífica. Este gesto não é apenas um sinal de honestidade histórica, mas ele revela a existência, dentro do PC Grego, daquele que é o princípio que impede a redução da luta de massas ao tarefismo e ao praticismo mesquinho: o trabalho colectivo de reflexão, avaliação, crítica, e aperfeiçoamento da acção colectiva. Absolutamente nada é possível no campo da luta política sem esta disposição, que deve ser radical, para examinar o que se faz em todos os seus aspectos e ser capaz de corrigir os erros, por muito tempo que eles tenham durado. Não haverá qualquer caminho para a revolução que seja rectilíneo, sem escolhos, sem dificuldades, sem grandes recuos e necessidades profundas de rectificação. Nessas inevitáveis circunstâncias poderá haver a lucidez para assumir e concretizar até ao fim essas tarefas, ou ela poderá faltar. E ai residirá a diferença entre a vitória e a derrota. Que nunca os comunistas gregos – e os comunistas e revolucionários de todo o mundo – ignorem este ensinamento.

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3 thoughts on “«Façamos nós, por nossas mãos, tudo o que a nós diz respeito»

  1. LP1917

    VIVA O KKE, A PAME, E A FÉRREA LUTA DO PROLETARIADO GREGO!
    Que nos sirva de exemplo, assim como de exemplo nos servirá todo e qualquer processo de combate classista (nacional e/ou internacional). Para o bem e para o mal.

    Máxima solidariedade à Greve Geral do 12N!

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