Reflexões sobre a «via pacífica para o socialismo» – Parte 1

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Por Georges Gastaud*
(7 de Novembro de 2006, aniversário da revolução proletária de Outubro de 1917*)

Aviso: este não é um texto acabado. Trata-se de um primeiro esboço que procura apenas iniciar uma discussão: o ano de 2007 foi sem dúvida um ano quente em França, infelizmente não no bom sentido: em Dezembro de 95, em Maio de 2003, em Abril de 2003, as massas populares foram reprimidas com força e namoraram a violência revolucionária; é portanto necessário reflectir muito seriamente sobre o problema da violência: o facto das relações das forças actuais colocar provisoriamente o proletariado na defensiva, não deve ser uma objecção para relançar uma reflexão sobre a revolução: pois não se pode sequer defender se não se abrir uma perspectiva. Lenine dizia que não se pode dar um passo se tivermos medo de ir para o socialismo. Acrescento que não podemos defender-nos, nem sequer recuar em boa ordem se recearmos reflectir sobre as condições da marcha para o socialismo.

Via pacífica e via armada na marcha para a revolução socialista

«…todas estas coisas eram igualmente ilegais, tão ilegais como a Revolução, como a queda do trono
e da Bastilha, tão ilegais como a própria liberdade»
Maximilian Robespierre, discurso de Novembro 5 de 1792

«é pela violência que se deve estabelecer a liberdade, e chegou a hora de organizar momentaneamente o despotismo da liberdade para esmagar o despotismo dos reis».
Jean-Paul Marat

Desestalinização, desalinização e teoria krutchoviana da via pacífica.

O 20º congresso do PCUS não se contentou em oficializar a «destalinização» sem nuances de Estaline e os seus métodos. Impulsionado por Nikita Krutschov, a «desestalinização» fez-se pela direita, iniciando uma verdadeira «desalinização» conseguindo adoçar as concepções marxistas-leninistas (não é à toa que os actuais liquidadores do Movimento comunista internacional, de Gorby a Hue passando por D’Alema, se reclamam do «degelo» iniciado por Krutchov.

No que diz respeito à construção do socialismo, a nova direcção soviética acentua a rentabilidade contabilística das empresas socialistas (reformas Liberman) em risco de viciar a lei principal do desenvolvimento socialista, que é a satisfação crescente das necessidades do povo pelo desenvolvimento harmonioso de uma economia científica e democraticamente planificada. A passagem da URSS socialista para o modo de produção comunista (então anunciada para os anos 80) era então essencialmente concebida como um assunto técnico, o da modernização, do alcance e ultrapassagem das forças produtivas dos grandes países capitalistas. Quanto ao conteúdo de classe do Estado socialista, estava fortemente atenuado já que o PCUS definia o Estado socialista, já não como o dos operários e camponeses, mas como o «Estado de todo o povo.»

Sobre a marcha do socialismo nos países capitalistas, a equipe krutchoviana teorizava a ideia de uma «via pacífica» para o socialismo; com a ligação mundial das forças criada pela extensão do campo socialista, tornava possível afirmavam os novos dirigentes soviéticos «conquistar uma sólida maioria parlamentar»; na condição de se apoiar num largo movimento de massas dirigido pela classe operária, o partido comunista poderia pensar em construir o socialismo sem «guerra civil» em muitos países. Esta concepção pacífica da marcha do socialismo ia a par de uma insistência um pouco unilateral sobre a coexistência pacífica entre o mundo capitalista e países socialistas.

Estas ideias sedutoras foram lançadas no Ocidente, principalmente pelos dirigentes do PC italiano, com Togliattti à frente: endurecidas e sistematizadas por E. Berlinguer (secretário-geral do PCI) e por S. Carrillo, o cínico líder do PC de Espanha, estas concepções levaram rapidamente o PC italiano e espanhol) durante um tempo seguidos pelo PC francês de Marchais, a dar o golpe de misericórdia ao Movimento comunista internacional no fim dos anos 80, quando George Marchais e Maxime Gremetz declararam que o PCF não participaria numa conferência mundial ou regional dos partidos comunistas… Paralelamente a esta tomada de distância ostensiva para com a URSS, uma ficção, ou talvez uma cisão, direitista, europeísta e anti-soviética, emergia do Movimento comunista internacional sob o nome eloquente de eurocomunismo»: comunismo em palavras e europeísmo de facto, pois se examinarmos os resultados reais da história, o comunismo está hoje quase a ser criminalizado pela Europa supranacional[1] já que o império capitalista, europeu, aliás União europeia, anexou os países socialistas da Europa de Leste, desarticulou a Checoslováquia socialista, desmembrou a Republica socialista federativa da Jugoslávia, desagregou os PCs de massa de França, de Espanha e de Itália, abafou o sindicalismo de classe desses países e absorveu uma parte da URSS (os países bálticos) esperando satelitizar a Ucrânia, a Geórgia… e a Bielorrússia de Anatole Loukachenko…

Mas não caricaturemos o passado confundindo o oportunismo de Krutchov, reformismo no poder, e o reformismo realizado dos actuais dirigentes abertamente «mutantes», anti-leninistas e liquidadores: Krutchov não era Gorby e serão precisos 30 anos (que seria da história sem o tempo?) para que o oportunismo inconsequente de Krutchov se transforme em liquidação gorbachoviana. Assim o senhor K» esforçou-se não sem incoerência, em manter a revolução e Fidel Castro (o qual se opôs veementemente a Krutschov no caso dos mísseis de Cuba, mas foi o primeiro a reconhecer a divida do povo cubano para com o povo soviético e seus dirigentes de então).

Krutschov também ajudou o Egipto nacionalista de Nasser a contrariar a expedição neocolonial montada em Paris, Londres e Tel Avive para impedir a nacionalização do canal de Suez (1956); finalmente, Krutschov impediu a tentativa de putsch contra-revolucionário em Budapeste (também em Outubro de 56). Quanto ao PCF de Thorez, Duclos, Frachon e W. Rochet, ficara um grande partido operário de massas, sinceramente ligado a URSS, à Revolução de Outubro e ao marxismo-leninismo ainda que fosse historicamente o primeiro, através da entrevista dada ao Times por M. Thorez (1946) a explorar a pista das «vias pacíficas para o socialismo» na época em que o PCF estava no governo de união patriótica brevemente presidido por De Gaulle.

(a continuar… vai ser publicado por partes o artigo inteiro)

[1] É o artigo Linblad votado pela Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa em Junho de 2005, e também posto em causa na Albânia por medidas diversas de interdição e de criminalização das organizações e ideias comunistas.

*Georges Gastaud é secretário nacional do Pôle de renaissance communiste en France (PRCF)

Tradução: Manuela Antunes

Fonte: Odiario.info

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