A propósito dos 30% alcançados pela frente nacional em França nas eleições regionais

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Por Eduardo Neves

À parte da alternância típica do modelo bipartidário da democracia burguesa que se processa entre partidos social-democratas e liberais, raras vezes, depois da segunda guerra mundial, tínhamos visto na Europa haver um terceiro partido a romper essa hegemonia bipartidária mais tranquila para os capitalistas ou melhor para o humor dos capitalistas a que estamos habituados. Recordamos o Partido Comunista Italiano que por muitos anos ombreou com o Partido Democrata Cristão ficando a poucas décimas do primeiro lugar, quando ambos dois obtinham à volta dos 30% nas eleições parlamentares. A vitória das tropas soviéticas em todo o centro e leste da Europa e a vitória parcial de guerrilhas anti-fascistas de hegemonia comunista em França e Itália – para falar só nos dois países centrais que provavelmente decidiram decisivamente a correlação de forças este-oeste na Europa – levaram a uma euforia de optimismo na via parlamentar apoiada por resultados eleitorais do PCI e PCF que logo após a guerra atingiram o patamar de disputa do primeiro lugar (e portanto hipoteticamente antevendo a possibilidade de formar governo).

A luz da ribalta e o abraçar da ideia reformista de chegar ao socialismo por reformas e pelo parlamento burguês – para dizer a verdade nua e crua – levaram esses partidos a alianças com os partidos socialistas de França e Itália (sempre ditas conjunturais e sempre arvoradas no suposto “interesse” imediato dos trabalhadores por umas migalhas pedinchadas ao capital sem tocar na estrutura do sistema) e as tais alianças levaram simplesmente à transformação do PCI e do PCF em cópias dos partidos socialistas (que eram há muito tempo tão vendidos ao capital como o PS português e como os que já existiam antes de 1917 que Lenine combateu implacavelmente) como partidos de gestão da exploração capitalista.

Recorde-se ainda que o programa de “democracia avançada” do PCF a partir de 1968 foi um importante ponto de partida para o seu total abandono do marxismo-leninismo (num processo gradual de liquidação da sua identidade comunista) que recentemente chegou ao ponto do abandono os símbolos da foice e do martelo – como evidente antecedente do seu futuro abandono da palavra “comunista” que é o próximo passo logicamente (pois é a única coisa que lhe falta liquidar).

Neste ponto devo citar uma nota dos editores do site “Pelo socialismo” na tradução por eles publicada precisamente do documento “Manifesto do PCF: Por uma democracia avançada, por uma França socialista”. Cito:

“Em 5-6 de dezembro de 1968, numa Conferência do PCF, é aprovado o Manifesto de Champigny, do nome da cidade onde se realizou a reunião que o aprovou, «Por uma democracia avançada, por uma França socialista» perspetivando o socialismo como decorrência direta do aprofundamento da democracia burguesa por reformas sucessivas e contínuas. A democracia avançada era concebida como uma formação política e económica entre o socialismo e o capitalismo em que a progressiva transformação das estruturas económicas pela nacionalização dos setores monopolistas abriria o caminho ao socialismo sem um confronto revolucionário mais ou menos intenso entre as principais classes antagónicas. Essa tese correspondia a uma espécie de ressurgimento da teoria da «transformação pacífica do capitalismo em socialismo» e da «democracia, criação contínua», defendida anteriormente por Jean Jaurès e comum a Bernstein, que Lenine refutou implacavelmente. O Manifesto de Champigny passa ao lado da teoria marxista-leninista do Estado, não define a sua natureza na «democracia avançada» – se é burguês ou proletário com os seus aliados – nem clarifica qual o modo de passagem e qual a natureza das estruturas políticas que asseguram o domínio das classes exploradoras para as estruturas políticas que servem a defesa dos interesses das classes e camadas exploradas.”
http://aaweb.org/pelosocialismo/components/com_booklibrary/ebooks/2013-08-16%20-%20Manifesto%20Champigny.pdf

E vem toda esta retrospectiva a propósito de hoje a Frente Nacional, os fascistas franceses, chegarem hoje aos 30% e partido mais votado nas eleições regionais de 6 de dezembro de 2015. O fascismo não é um sistema à parte do capitalismo, quando ele existe ele existe porque interessa aos capitalistas, mas o antagonismo histórico entre comunistas e fascistas tem alguma importância e é certo que um verdadeiro partido comunista marxista-leninista (isto é mantendo o seu carácter operário e pelo derrube revolucionário do capitalismo) não deixaria que o fascismo ganhasse eleições tão facilmente. Agora perante um partido vendido ao capitalismo como é o actual PCF (e efectivamente anti-comunista nas suas posições em relação a toda a história, teoria e prática do movimento comunista) temos de perceber que as massas revoltadas com a exploração que o capitalismo lhes reserva irão sempre procurar um voto de protesto (ou a abstenção) como forma de exprimir o seu descontentamento – dado que não há em França nem movimento sindical nem movimento comunista capaz de canalizar esse descontentamento para o seu devido lugar na luta de massas, na luta grevista, na efectiva luta de classes. As massas olham para o PCF e vêm um partido igual aos socialistas e à direita, como partidos dos patrões, do capital e do imperialismo da UE e nesse ponto concreto as massas têm toda a razão.

É importante também frisar um aspecto do fascismo para compreendê-lo também: o fascismo sempre foi associado no passado com a necessidade dos capitalistas de esmagar e destruir o movimento operário e comunista (e por arrasto alguns potenciais aliados como camponeses e forças  vistas como de esquerda) mas o aspecto que habitualmente e erradamente se omite e desvaloriza é que o modelo de governo fascista (como forma de gestão capitalista) adequa melhor as forças de um país capitalista para a disputa militar-imperialista de territórios, mercados, recursos naturais etc. Claro que facilmente este aspecto bélico do fascismo colonial ou neo-colonial passa facilmente em claro em países que são fracos e subalternos de outras potências e isto passa em claro porque infelizmente mesmo muita gente que se diz comunista há uma enorme falta de entendimento que todos os países capitalistas do mundo estão ligados numa cadeia hierárquica em que cada país ocupa uma determinda posição, função e lugar num dos blocos imperialistas que hoje (tal como no tempo do Lenine) disputam o controlo do mundo.

A razão porque fiz a anterior ressalva da segunda característica do fascismo é porque como obviamente não existe nem um partido comunista autêntico nem um movimento sindical de classe de dimensão significativa em França isso significa que nada há para esmagar mais no movimento operário e comunista francês (o revisionismo euro-comunista tratou de os liquidar por dentro) e portanto a ascenção da Frente Nacional está ligada à segunda característica que mencionei do fascismo. Podemos esperar nos próximos anos o agravar de um belicismo do Estado burguês francês e das disputas inter-imperialistas que já são visíveis quer no governo socialista de Hollande quer no anterior de direita do Sarkozy. Se Le Pen chegar a chefe de estado como tudo indica que irá, em muitos aspectos, do imperialismo à exploração e ao próprio racismo ela segue as pisadas dos antecessores.

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