Nas portas de um novo 23F sem movimento visível de tropas?

Sábado, 16 Janeiro 2016

Carlos Morais

O desbloqueio do processo independentista catalám alterou parcialmente as folhas de rota dos partidos espanhóis, das alianças para conformar governo.

A toma de posse de Carles Puigdemont impossibilita, ou no melhor dos casos reduz ao mínimo, a estratégia de Pedro Sánchez e de Pablo Iglesias para articular umha maioria parlamentar que permita deslocar o PP do governo. Nom só porque o líder do PSOE nom conta com o aval de boa parte dos denominados barons, neste caso encabeçado pola baronesa andaluza, basicamente porque quem realmente manda nom vai permitir um governo instável e vulnerável que polas suas contradiçons “facilite” o desenvolvimento da desconexom da Catalunha.

A luita independentista catalá, e em muita menor medida a do resto de naçons oprimidas como a Galiza, situa cada quem no seu lugar para além da demagogia do seu particular relato. “Pensamos que o independentismo nom é a soluçom para os problemas”, foi o gráfica reaçom de Podemos mediante tuit, ensinando assim a estafa, de quem defendendo um referendo inviável de convocar segundo a legislaçom espanhola vigorante, logra manter mediante prestidigitaçom política amplas simpatias e bons resultados eleitorais nas naçons oprimidas mediante umha política de alianças com forças de ámbito nacional como Anova.

Porém, a camarilha da Complutense sabe perfeitamente que está vendendo fumo, como também sabia da impossibilidade de conformar 4 grupos parlamentares nas Cortes espanholas [Podemos, Podemos/Marea, En Comú/Podemos, Compromís/Podemos].

A realidade, e nom a fiçom discursiva, volta a situar cada quem no seu lugar, e basicamente a desmascarar todo esse insustentável relato ruturista construido à volta de Podemos. A rutura da dominaçom capitalista espanhola e da UE só tem a dia de hoje um elo fraco: a libertaçom nacional dos povos oprimidos polo imperialismo espanhol. As cousas polo seu verdadeiro nome, sem eufemismos nem terminologia ilegível postmoderna.

No momento em que se desbloqueia in extremis o processo catalám todas as mensagens emitidas nas semanas prévias polos quatro partidos do regime ficárom imediatamente envelhecidas. Saltam os alarmes e eclosiona e verdadeira linha vermelha inassumível para as forças ultrareacionárias [PP e C´s], reacionárias [PSOE] e a aparentemente alternativa [Podemos]. Mas à hora da verdade as quatro coincidem em idêntico voto contra a República catalá. Com discursos nom exatamente iguais mas sim complementares, unem os seus votos no Parlament contra a maioria independentista.

Felipismo e podemismo
Existem enormes similitudes entre as expetativas geradas em outubro de 1982 com a vitória do PSOE, e até escasos dias umha possível presença de Podemos no vindouro governo espanhol. Os acordos da Transiçom, tutelados por Washington e as potências europeias, asignavam ao PSOE o rol de adatar o capitalismo espanhol aos interesses da CEE e do imperialismo, logo de que a UCD pilotasse com êxito a nova arquitetura jurídico-política do postfranquismo.

As origens e trajetória operária do PSOE permitiam que tivesse mais facilididades para aplicar o plano neoliberal do FMI polos seus vínculos com a UGT e o “caché” de esquerda conservado entre amplos setores das massas. Neutralizava e amortecia a resistência. Felipe González ganhou com maioria absoluta as eleiçons de outubro de 82 gerando grandes expetativas. Porém, a realidade foi bem outra, tal como já daquela denunciava nos seus lúcidos prognósticos a esquerda nacionalista e independentista galega. Selvagem reconversom da nossa indústria ponteira (estaleiros, siderúrgia), golpe mortal ao setor agro-gadeiro, incremento do desemprego, primeiras reformas laborais precarizando a força de trabalho, repressom das luitas nacionais, criaçom do paramilitarismo dos GAL promovendo o terrorismo de Estado, entrada na NATO e na CEE, espanholizaçom, etc. A ilusom durou anos, mas finalizou com umha enorme frustraçom popular que abriu as portas ao aznarismo.

Na segunda metade desta segunda década do novo século, perante a grave queda de legitimidade do regime provocada pola crise económica e a corruçom, o sistema novamente optou por promover umha arriscada operaçom de relançamento e renovaçom da socialdemocracia para manter a unidade indivisível de Espanha. Esse é o principal rol que cumpre hoje Podemos: é o mais eficaz instrumento para perpetuar a opressom da Galiza e resto de naçons.

Mas hoje, tal como em 82, amplos setores das massas necessitam acreditar em ilusons e neste caso no telepredicador. Embora eu nunca acreditasse nestes milagres nem na charlatanaria, só acredito nos da virgem da Clamadoira, entendo que levará tempo que as massas trabalhadoras e empobrecidas caiam da burra, mas caerám! Nom sabemos como se canalizará essa futura frustraçom. Nom temos bola de cristal, mas sim alguns conhecimentos das ferramentas de interpretaçom da realidade que nos fornece o marxismo.

Som os povos os que se libertam e emancipam por si mesmos, com as suas próprias forças, sem ter que contar com a autorizaçom dos seus amos. 500 anos avalam que de Espanha nada podemos aguardar. E Podemos é parte desse projeto assimilacionista.

Realidade fulgurante
Há uns dias Pedro Sánchez e Pablo Iglesias continuavam a alimentar um possível acordo aritmético para impossibilitar que Rajói continue de inquilino da Moncloa. Mas ambos bem sabiam que as suas margens eram muito limitadas, pois a Troika e o Ibex 35 já tinham manifestado por ativa e por passiva as suas preferências de ensaiar umha “grosse koalition”.

Agora já sabemos que praticamente todo indica que nom vai ser viável. Começou a conta atrás para a sua implementaçom. O pacto entre PP, PSOE e C´s na composiçom da Mesa das Cortes com a eleiçom de Patxi López como presidente das Cortes é a primeira expressom do que já deve estar todo atado e bem atado.

Se há menos de 48 horas Juan Luís Cebrián, do grupo Prisa e portavoz nom oficioso do Clube Bilderberg em Espanha, tinha manifestado a necessidade de um governo do PP e C’s sem Rajói, mediante a abstençom do PSOE, interessadas filtraçons avançam José Bono como possível presidente deste governo de concentraçom, visando evitar que o povo catalám atinja a República.

As luitas independentistas, único ponto de rutura com o regime postfranquista, voltam a deixar bem claro as políticas de alianças dos quatro grandes partidos e as prioridades do regime.

O Domingo 10 de janeiro no Parlament bramárom os sócios de Podemos no Principat enquanto os de Madrid emitiam comunicado de contrariedade e a sua ala “esquerda” teorizava sobre as “incoerências” da CUP que tanto dano provocam na “emancipaçom das massas espanholas”, mediante artigo de Monedero.

Por sua vez o irmao da sentada estes dias no banco de encausados nos julgados de Palma, contribui para implementar a desconexom negando-se a receber no seu palácio madrileno a Carme Forcadell.

No nosso País, o “chico dos recados” do líder da camarilha da Complutense saca peito e ameaça os seus sócios locais de apresentar candidatura em solitário nas autonómicas, posteriormente desautorizado polo seu chefe.

A realidade política é de vertigem, provocando um envelhecemnto quase imediato de táticas e análises. Mas alguns teimam em centrar-se nos flecos carentes de grande interesse como a possibilidade de conformar um grupo parlamentar galego.

Entre tanto rebúmbio algo teremos que fazer …
Galiza e o seu povo trabalhador está fora de jogo. E nom porque o nacionalismo articulado em NÓS-CG perdesse presença nas Cortes, nem tampouco porque, como estava claro desde o minuto cero, a Marea nom poda formar grupo parlamentar próprio. Galiza está off porque a esquerda independentista e anticapitalista está fragmentada e sem capacidade real de intervir e acumular forças frente as falsas saídas eleitoralistas entre os dous pólos em desputa pola hegemonia do nacionalismo galego. Está off porque a conflituosidade laboral e social está em plena etapa de retrocesso. Porque a esquerda tem abandonado o combate ideológico, facilitando assim o éxito do populismo de curto percurso e a “normalidade democrática” e a “pax social”. Porque a única alternativa que se oferece é votar e votar.

Este provável novo governo espanhol de ampla base provocará perplexidade e oposiçom no eleitorado podemita, mas o poder dos grandes meios de (des)informaçom logrará aplacá-la momentaneamente agitando a pantasma da rutura de Espanha, ámbito antagónico em que o aparelho da Complutense carece de margen de manobra.

De confirmar-se hipótese da “grosse koalition” verificamos mais umha vez que a luita é o único caminho frente ao ilusionismo eleitoral, e como a lógica da alternáncia burguesa é violada para assegurar e perpetuar o dominio do Capital sobre o Trabalho.

A Troika e o Ibex 35 vam implementar umha operaçom similar à que forçou a saída de Sílvio Berlusconi e Yorgos Papandréu em novembro de 2011 como primeiros-ministros da Itália e a Grécia. Aqui e agora, o golpe institucional procura ao igual que em 23F de 1981 manter a toda custa a unidade de Espanha pactuada na Transiçom, sem a incómoda presença visível de uniformados. Verificaremos quem, para além da retórica e das declaraçons de galeria, se posiciona incondicionalmente com a liberdade da Catalunha.

Em plena desmobilizaçom e estado de hipnosse eleitoral do nosso povo, vamos entrar num período duro, de grandes turbulências, caraterizado polo incremento da repressom, de aceleraçom do pacote neolberal e da assimilaçom espanholista.

Chegou o momento de darmos passos para contribuirmos a alterar este cenário.

Galiza, 13 de janeiro de 2016

Fonte: Primeira Linha (Organização Comunista Galega)

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