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A propósito das Eleições Autárquicas de 1 de outubro (artigo copiado do blog que fazer)

A propósito das Eleições Autárquicas de 1 de outubro

1. Nenhum comunista ficou satisfeito com os resultados das eleições autárquicas do passado dia 1. A perda de 10 câmaras municipais em bastiões da CDU e do PCP, a perda de mais de 60 000 votos e a menor votação de sempre em eleições autárquicas, o abaixamento da votação em todos os distritos, à exceção dos Açores e Portalegre, não trazem nenhuma satisfação.

Embora se compreenda que nas derrotas é necessário fazer apelo ao espírito de combate para enfrentar a adversidade, é uma hipocrisia e uma tentativa de esconder o sol com uma peneira dizer-se, na avaliação política dos resultados e tendo como único elemento de caracterização, que:

«As importantes posições nas autarquias em que assume a presidência – 24 municípios e 139 freguesias, mais de 180 se consideradas as freguesias existentes antes da agregação –, a significativa presença da CDU no conjunto dos órgãos autárquicos – 171 vereadores, 619 eleitos em assembleias municipais e 1665 em assembleias de freguesia – são a garantia de que o reconhecido trabalho, honestidade e competência marcará presença em todo o País e que prosseguirá a sua acção todos os dias, dando voz às populações, contribuindo para dar solução aos problemas, combatendo o que prejudique os direitos e o interesse colectivo.»

como afirma o comunicado do Comité Central. Será que a perda de mais de 60 000 votos para as Câmaras Municipais, a presidência de 10 delas, a maioria absoluta em 11 e de 42 vereadores, a perda de mais de 70 000 votos e 168 eleitos nas Assembleias Municipais, de 31 presidências de Juntas de Freguesia e 308 eleitos nestas últimas «confirmam no essencial a expressão eleitoral»
da CDU? Será que nos satisfazemos por manter «uma presença em todo o território»?

A CDU já teve a presidência de 50 câmaras municipais e já foi a força maioritária no distrito de Lisboa. Porque é que tudo isto ruiu? Um partido revolucionário não pode limitar-se a alinhar umas quantas frases vazias e varrer para debaixo do tapete os problemas que têm de ser analisados para explicar este resultado eleitoral e para permitir pensar no tal futuro com confiança.

Nem a declaração do Secretário-geral nem o comunicado do Comité Central contêm qualquer elemento de autocrítica, como seria indispensável.

A «culpa» dos maus resultados da CDU, como afirma a resolução do Comité Central foi do PSD/CDS que fizeram uma “campanha baseada na intolerância no ódio e no populismo”, do PS que atacou a gestão da CDU nos municípios onde esta era maioritária, e do BE por “fazer da redução da influência da CDU um dos seus objetivos principais”. É óbvio que cada um faz a campanha que serve os
seus objetivos.

O PCP e a CDU, se algo fizeram de errado ou menos bem feito, não foi nada de essencial nem teve grande relevância na votação. Não só se culpam os eleitores com ameaças veladas pelos erros cometidos, como se atira a culpa para a comunicação social e a sua campanha anti-comunista. Mas alguma vez não houve campanhas anti-comunistas fortíssimas? Desde quando é que o inimigo
de classe deixou de usar as suas armas ideológicas contra os trabalhadores?

No sucesso do PS pesou, obviamente, o branqueamento de que vem sendo alvo com a cumplicidade do PCP que constantemente o arruma no lado das forças de “esquerda” Esse branqueamento, se é negativo no plano nacional, ainda o é mais no plano autárquico.

Durante a campanha não se ouviu do PCP uma palavra de desmascaramento político do papel da social-democracia representada pelo PS.

Neste quadro, se não eram estes os resultados esperados pela direção do Partido, então ela está muito afastada das massas e dos seus sentimentos.

2. Foi muito estranho, ao contrário do que sempre tinha acontecido, que, na noite eleitoral e dias imediatos, todo o aparelho ideológico do capital não tenha sublinhado como factos mais relevantes a perda pela CDU de mais de 10 câmaras num total de 34 (mais de 29%), entre elas Barreiro e Almada, 9 das quais para o PS, de mais de 60.000 votos e declarado a falência da CDU e do PCP. O inimigo de classe não costuma enganar-se. O que se passou desta vez?

Pelo contrário: o PS aparece a afirmar que pretender encontrar outros derrotados que não o PSD só tinha o objetivo de escamotear a grande derrota deste partido – isto foi assumido por António Costa, logo no rescaldo das eleições e posteriormente por outros dirigentes. O secretário-geral do PS teve até palavras de apreço para com o seu adversário, a CDU, desvalorizando os seus maus
resultados.

Neste período, as grandes manchetes e comentários são para a derrota do PSD. Note-se que o PSD entre ganhos e perdas ficou com menos 7 câmaras num total de 107 (menos de 10%) e pouco mais de 2.200 votos.

Efetivamente, interessava mais ao grande capital espetar a faca no PSD até ao fundo, explorar os seus resultados, ainda assim não muito maus para si, do que explorar até ao limite a derrota da CDU, apoiante do governo, e desmoralizar os seus eleitores e militantes.

Com Passos Coelho, o PSD está muito enfraquecido. Será necessário um novo chefe que permita disputar eleições com o PS e, eventualmente, vir a aliar-se com ele.

Quanto a António Costa e ao seu partido eles são suficientemente inteligentes para não hostilizar os eleitores que, nas autárquicas, se deslocaram da CDU para o PS e nas futuras legislativas se deslocarão ainda mais para lhe dar a maioria absoluta ou relativa.

Isto de um ponto de vista eleitoral. Numa perspetiva política global da relação das forças de classe, o problema apresenta-se sob outro prisma.

Torna-se óbvio que interessa ao PS e à média e alta burguesia portuguesa (as contradições entre as suas várias secções jogam-se entre o PS e o PSD/CDS) o prolongamento do apoio do PCP e do BE ao atual governo e que este termine a legislatura. Se mais razões não houvesse para o demonstrar, bastaria observar o silêncio das organizações patronais quanto à política do governo e os apelos que têm feito para a manutenção da sua «estabilidade». Aliás, essa estabilidade burguesa tem como maior paladino o Presidente da República.

Atente-se no «deve e haver» da «posição conjunta», em contas muito por alto. Para os trabalhadores, umas míseras reposições de salários, pensões e direitos (insuficientíssimos e, em parte, “comidos” pelos impostos indiretos); continuação do flagelo da precariedade; legislação laboral antitrabalhadores intocada; pensões de miséria; falta de recursos para o cumprimento dos deveres do Estado com os cidadãos na educação, saúde, segurança social, segurança interna, cultura; o SMN não é aumentado quanto devia; a integração dos precários na função pública foi um bluff; o descongelamento das promoções na carreira espera-se para ver, etc., etc.

Como se ouve o povo comentar na rua, respira-se melhor, mas não se vive melhor.

Em contrapartida, o PCP dá cobertura aos vários Orçamentos do Estado, que põem em primeiro plano os compromissos com a UE e o pagamento integral e atempado dos empréstimos e juros leoninos para o país. Esta situação está, pois, a agradar à secção mais importante da burguesia portuguesa associada à burguesia internacional, na perspetiva de recuperação da crise económica da UE.

Depois do pânico provocado ao capital pelo início da crise em 2008 e depois da forma brutal como os monopólios e as suas instituições lidaram com a situação política grega para subjugar o seu povo, descobriram finalmente, com a experiência portuguesa, que o melhor é «trabalhar pela calada». Promessa aqui, adiamento acolá, uns tostões para os pobrezinhos, uma boa propaganda… e as coisas vão correndo de feição.

E, mais uma vez, como está nos livros, aparece a social-democracia, com o PS português na vanguarda, a salvar o capitalismo e a trair os trabalhadores.

As coisas correm tão bem para o grande capital financeiro mundial nos seus negócios com Portugal, que até as agências de rating retiram o país da classificação de «lixo». Não há prestações em dívida, certinho e direitinho lá vão todos os anos 8 000 milhões de euros, só de juros da dívida, para encher os cofres daqueles que obrigaram o país a endividar-se e com isso o dominar económica e politicamente.

Com tudo isto, para a preservação da «paz social», isto é, para que não haja lutas que confrontem a raiz da política do governo no sentido de servir o capital em geral e o financeiro em particular – lutas que exigiriam aplicar os recursos na satisfação das necessidades do povo e não no pagamento da dívida – nada melhor do que Orçamentos de Estado aprovados por aqueles que em
palavras defendem os trabalhadores.

Em suma e com realce: a situação que melhor serve o capital é a «paz social», a concertação – seja ela o Conselho Económico e Social, seja a concertação no Parlamento traduzida em maiorias de voto, seja a concertação entre os partidos apoiantes da atual solução governativa. «Paz social» significa ausência da luta política dos trabalhadores, a luta que põe em causa as políticas e as verdadeiras razões pelas quais os seus interesses continuam adiados. É interessante registar que, em 2012, primeiro ano do governo PSD/CDS, foram emitidos 1895 pré-avisos de greve, dos quais 375 Setor Empresarial do Estado e, em 2016, primeiro do governo PS, registaram-se apenas 488 pré-avisos de greve, dos quais no 123 SEE.

Na linha política do PCP, neste momento particular, existe uma enorme contradição: o apoio que é dito dar-se à luta dos trabalhadores e às suas justas reivindicações e o voto favorável aos orçamentos de Estado que impedem a satisfação dessas mesmas reivindicações. Isto já para não falar nas lutas que são impedidas ou mantidas em “banho-maria” e no apelo à “importância do diálogo” como, por exemplo, foi feito pelo secretário-geral à comunicação social a propósito dos protestos de trabalhadores da saúde. Objetivamente, o PCP aprova um OE que não tem verbas consignadas para a satisfação das justas reivindicações dos trabalhadores. Então por que aprova, perguntamos nós, militantes do Partido?

As pequenas conquistas que são conseguidas nas várias mesas negociais entre o PS e o PCP não respondem às medidas de fundo necessárias para uma verdadeira melhoria das condições de vida dos trabalhadores e do povo.

3. Como refere Lénin em A Revolução Proletária e o Renegado Kautsky, citando Engels, o sufrágio universal é “o barómetro da maturidade da classe operária. Mais não pode ser nem será nunca, no Estado de hoje”. Adotemos, então, esta perspetiva marxista-leninista e tomemos consciência do registo deste barómetro.

É certo que não se tratou de eleições legislativas, mas todas as forças políticas fizeram campanha numa perspetiva política de governo. A própria CDU queria mais votos para dar força à sua política, O PS queria mais votos para dar mais força à sua. O que se pode, então, concluir dos resultados das eleições autárquicas é que o PS alcançou o seu objetivo e o PCP não, saiu mais enfraquecido. O PS legitimou as suas políticas nesta batalha eleitoral.

Quando um trabalhador vai votar, fá-lo tendo atrás de si a sua posição social, o lugar que ocupa no processo material de produção. Se tem consciência dessa posição, se tem consciência de classe, vota no partido dos trabalhadores, se não tem, vota com a ideologia burguesia que lhe é instilada pela sociedade capitalista.

Em vários momentos da campanha, os mais altos dirigentes do Partido afirmaram ser correta a política de devolução de rendimentos aplicada pelo PS, como de resto o fazem quando afirmam que é necessário prosseguir essa mesma política.

Os resultados eleitorais mostram o refluxo da luta de classes nos locais de trabalho, não apenas na sua vertente económica – salários, carreiras, horários, etc., – mas, sobretudo, o refluxo da luta política, a desideologização da luta sindical e a ausência das reivindicações políticas, com o inerente caminho para o reformismo e o oportunismo que acaba por se manifestar no voto. Mostram o refluxo da ideologia proletária nas massas, mostram, se quisermos, a (in)existência das células do Partido e de organização sindical nos locais de trabalho e o apagamento do papel de vanguarda do PCP, porque é nos locais de trabalho que se desencadeia a luta de classes e se forja a consciência de classe com a qual se vai ou não votar.

Seria ou não justo lutar pelo aumento geral dos salários e o aumento do SMN que repusessem o poder de compra perdido pelo menos desde 2008, pela redução do horário de trabalho para as 35h, pela redução da idade da reforma para os 60 anos para os homens e 55 para as mulheres, pelo aumento geral de todas as pensões, pela efetiva gratuitidade do acesso ao SNS e a todos os níveis de educação, pela proibição do governo utilizar o dinheiro da segurança social para manobras de engenharia financeira nos orçamentos, pelo aumento do IRC para os grandes lucros (vamos ver como ficará esta questão no OE de 2018), pela taxação das grandes fortunas, pelo corte das rendas das PPP, etc., etc.?

Mas estas reivindicações põem em causa, na sua base, a política do governo de continuar a alimentar o capital financeiro, de permanecer no euro e na organização imperialista europeia, de governar a favor do patronato. Por isso as reivindicações são cada vez mais limitadas ao cobertor em disputa que ora tapa a cabeça, ora destapa os pés. Pode dizer-se justamente que o PCP defende alguns destes objetivos, é certo. A questão é que, objetivamente, aprova um OE que não tem verbas consignadas para isso.

Com efeito, é na conjugação da luta por objetivos económicos com a luta política pela superação do sistema capitalista nos locais de trabalho que as massas apreendem a luta de classes, com as posteriores e inerentes consequências na opção política e no voto. Na sua linha política oportunista – e quando dizemos “oportunista” não o fazemos no sentido ético, mas no seu sentido político que encontramos em Marx, Engels e Lenine -, na tentativa de realçar o seu papel nas pequenas conquistas e nas pequenas cedências obtidas, de mostrar que tomou uma opção correta com a “posição conjunta”, o PCP elogiou a política do governo do PS pela reposição, a conta-gotas, de rendimentos e não lutou convictamente contra as medidas que o governo tomou a favor do capital, designadamente a injeção de capital ou avales atribuídos à banca – CGD e Novo Banco. Objetivamente o PCP acaba a fazer propaganda das medidas do governo do PS por mais que tenha sido o PCP a propor medidas positivas. É no que resultará a “realização de uma jornada nacional de informação e contacto com os trabalhadores e a população […] sobre os avanços verificados, as medidas necessárias para ir mais longe na defesa, reposição e conquista de direitos e para a afirmação da política patriótica e de esquerda” como decidiu fazer o Comité Central.

4. No curto e médio prazo quais poderão ser as consequências destes resultados eleitorais?

Obviamente, o PCP não sai fortalecido para as “negociações”, ou melhor, para o regateio do OE. O PS ganhará mais peso na Associação Nacional de Freguesias e na Associação Nacional de Municípios, em que poderá mais facilmente impor as suas políticas de privatização ou concessão de serviços.

O PS é hoje o partido do grande negócio imobiliário, da articulação entre os interesses do capital financeiro e a grande especulação imobiliária, como Lisboa mostra, e será visível em Almada e Barreiro. Na zona ribeirinha a sul do Tejo, o PS encontra já o caminho aberto pela CDU com a “Cidade da Água” e outro projetos que os interesses que o PS movimenta potenciarão, expulsando ainda para mais longe os trabalhadores e os pobres, e introduzindo uma radical recomposição social da população e da base económica dos concelhos.

Nesta mesma linha, coloca-se outro problema mais fundo, o da chamada “reforma do Estado”. Este conceito obscuro amplamente difundido pela ideologia dominante tem conteúdos diferentes consoante os objetivos de classe que defende quem o refere. O cidadão comum pensará que se trata de poupanças em gastos sumptuários, nas frotas automóveis, nas adjudicações nos pareceres externos, etc. Para o PSD e o CDS reforma do Estado significa liquidar as prestações de natureza social que o Estado está constitucionalmente obrigado a prestar aos cidadãos, como a saúde, o ensino ou a segurança social.

Para o PS, a reforma do Estado tem um conteúdo em substância semelhante aos dos seus parceiros e não quer (e não pode) enfrentar os ditames do FMI e das instituições imperialistas europeias no sentido de proceder a tais reformas e, portanto, mascara a situação com a transferência de competências para as autarquias. Esta descentralização não passa de uma desconcentração de poderes e não de uma verdadeira descentralização/regionalização. Na prática, como todos sabemos e tem acontecido, as autarquias vão ser afogadas com competências do Estado central e sem verbas para lhes fazer frente, suportando ainda o odioso das populações atingidas.

Tudo se conjuga, possivelmente, em que grau não se sabe, para termos uma “reforma do Estado” a entrar não pela porta, mas pela janela.

Os comunistas têm de refletir sobre os resultados destas eleições e questionar-se: Vamos continuar a votar Orçamentos do Estado que aceitam imposições, exigências e chantagens da UE a troco da reposição, em migalhas e ad aeternum, dos roubos nos salários e direitos dos trabalhadores?

Vamos continuar a deslizar no plano inclinado da aceitação da entrega anual de milhares de milhões de euros ao FMI/UE/BCE e da cedência de princípios a troco de uma reposição gradual (em graus quase insignificantes) do roubo das pensões, salários e direitos?

Não podemos ser cegos, surdos e mudos. No dia 2 de outubro, no programa «Confronto» da RTP, Nuno Morais Sarmento dizia que o PCP tinha baixado a sua votação porque estava a experimentar o poder e fez referência aos vários exemplos históricos na Europa das consequências de tal experiência: o PCF, o PCE, aludindo até a Dolores Ibarruri, o PCI.
As legislativas vêm a caminho.

Como tudo indica, o PS prepara-se para arrecadar uma maioria absoluta, ou próxima disso, à custa do eleitorado do PCP. O PCP prepara-se para continuar a fazer a propaganda do PS, segundo consta no comunicado da última reunião do CC. É, na prática e objetivamente, o que vai acontecer com a campanha da valorização das conquistas e contribuições do PCP para a reposição de rendimentos.

Muitos camaradas começam já a interrogar-se a respeito do caminho que o Partido está a levar com estas aproximações ao PS e a sua teoria da «política patriótica e de esquerda» e da «democracia avançada”, recordando, precisamente, o exemplo de outros partidos irmãos que desapareceram pelo seu oportunismo político e alianças espúrias.

Entretanto, os trabalhadores, com realce para a administração pública, têm tomado o caminho da luta, rechaçando a chantagem da falta de verbas no Orçamento. Muitos dizem e com toda a justeza: em vez de darem o dinheiro ao FMI, ao BCE/ UE e aos bancos satisfaçam as nossas reivindicações!

Fonte: Blog Que Fazer

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Sindicalismo de conciliação de classes e sindicalismo de luta de classes, casos recentes no sector dos transportes

Nos últimos meses do governo de Passos Coelho o seu governo burguês do PSD colocou em marcha uma série de privatizações no sector dos transportes – TAP, CP Carga, Metro de Lisboa, STCP (que é do Porto), Transtejo, Softlusa e Carris. A origem do governo de António Costa do PS apoiado por acordos parlamentares pelo PCP e pelo BE têm origem naquele ataque do PSD aos trabalhadores dos transportes. Os sindicatos dos transpores nomeadamente dirigidos pela Fectrans (que hoje comprovadamente mostra domina-los) da CGTP tinham uma experiência de greves superior à generalidade dos sindicatos de todos os outros sectores, uma taxa de filiação grande e enfim tinham toda a capacidade de convocar uma greve do sector dos transportes como nunca vista em Portugal – de facto fora da “função pública” e mesmo em empresas “do Estado” nunca há greves sectoriais em Portugal (salvo a honrosa excepção das greves da cantinas lideradas pelo excepcional sindicato de hotelaria do norte). Em vez de uma greve sectorial dos transportes que era lógica no final de mandato do Passos Coelho para ganhar a anulação das privatizações e fusões através da luta, as greves da Fectrans foram miseráveis e mesmo no colosso da TAP não foi sequer possível unir as diferentes capelinhas profissionais da CGTP para fazer uma greve da empresa. Na TAP aliás devia fazer corar de vergonha a cúpula sindical da CGTP que os pilotos da TAP (sem dúvida aburguesados e amarelos) tenham feito mais greve que todos os sindicatos da CGTP da TAP juntos com os seus raquíticos protestos de “categoria profissional” cada um por si. Passadas as vergonhas havia algo que se preparava porque a Fectrans não tinha se vergado daquela maneira por acaso. A campanha eleitoral seguinte mostrou o que os sindicalistas da Fectrans pretendiam: o acordo do PCP e do BE com o PS para um governo do sindicalismo traidor e das meias tintas. Uma vez governo do PS instalado e PCP e BE vergados procedeu-se à falsa anulação das privatizações da STCP e Metro de Lisboa (entregues depois à “municipalização” que privatiza pela porta do cavalo), à anulação ilusória da fusão da Transtejo, Softlusa e Carris (que pode dar outra “municipalização” também) e à aberta traição na TAP (privatizada a 50%) e na CP Carga (privatizada a 100%!).

E que desculpem esta longa introdução mas serve esta verdadeira história recente da Fectrans e da CGTP para dizer que em Itália os “sindicatos de base” ou confederações sindicais minoritárias (entre as quais a SGB apoiada pelos comunistas italianos) fizeram uma greve sectorial nacional dos Transportes e da Logística com grande impacto, obrigando o ministro dos transportes italiano e as confederações sindicais maioritárias a ladrar que “há demasiadas” greves no sector. E esta greve sectorial em Itália uniu na greve trabalhadores de empresas do Estado e do sector privado (quando a Fectrans nem as lutas “do Estado” é capaz de unir, muito menos as do privado) contra vários ataques aos trabalhadores do sector.

Moral da história: tem muito mais força um David vermelho que um Golias amarelo.
Os sindicatos não se medem pelo número de filiados mas sim pela combatividade na linha da luta de classes.

Massima mobilitazione per lo sciopero generale del 27 ottobre (Partito Comunista, Itália, Settembre 2017)

A Indústria em Portugal e a classe operária

Eu destaco três principais indústrias principais: Automobilística, Transportes e Construção Civil. Mas há mais duas indústrias dominantes no sector industrial em Portugal que são as mais básicas de toda: Energia e Telecomunicações.

Os números. Lista de empresas por número de operários (directamente da empresa + subcontratados no parque industrial + subcontratados no resto do país):

PT/MEO: 7600
TAP: 7100
Autoeuropa: 3000+2300+4000
PSA Mangualde: 700
Mota-Engil Engenharia e Construção África: 5200 (23000 em todo o mundo)
Andrade Gutierrez Europa África Ásia: 5100
Teixeira Duarte: 11000 (em todo o mundo)
Cimpor: 8400 (em todo o mundo)
GALP: 6800 (em todo o mundo)
EDP: 12100 (em todo o mundo)
Portucel/G.Sempa: 2200
Secil/G. Semapa: 2000 (?)
Cortiçeira Amorim: 3700 (em todo o mundo)
Unicer/Super Bock: 15000 (em todo o mundo)
Grupo Lusiaves: 2500+2000
Comboios de Portugal: 2700
Carris: 1900
STCP: 1500 (?)
EFACEC/G. Mello: 2300
Siderurgia Nacional: 750
Lisnave: 400
ENVC 250 (?)
OGMA: 180 (?)
Delta: 3000

Fontes: várias, wikipedia, vários jornais, etc

Social-democracia avançada

Por JG

Lembro-me do tempo em que eu ainda não era visto como um extraterrestre nas reuniões do partido. Lembro-me de nessa altura ouvir um camarada dizer que mais vale dizer alguma asneira numa reunião (leia-se um disparate) do que estar calado e não participar de nenhuma discussão. Estas palavras marcaram-me para sempre, no fundo iam de encontro à minha maneira de ser. É com esta lógica que eu encaro tudo o que escrevo e tudo o que digo em termos políticos, mais vale expressar uma opinião mesmo quando preciso sempre de conhecer e estudar mais sobre o que falo. Se eu estiver errado aprenderei com o que digo e com os reparos dos outros. Ao discutir se vai aprendendo e quando eu erro é sempre bom eu admitir o erro com a humildade e sem me sentir ferido por qualquer ego ou vaidade.

Sobre a Democracia Avançada é claro que não é preciso descobrir a pólvora ou ter algo de extraordinário a dizer que outros não disseram, quando tantos e excelentes camaradas já se expressaram sobre essa questão. No entanto há muito para discutir e ao discutir coloca-se essa questão chave no centro das atenções que ela precisa ser para efectivamente avançarmos com uma ruptura com esse programa revisionista.

De onde vem a Democracia avançada?

Comecemos pelo nome e a sua origem: “democracia avançada”. O nome e a tese que o acompanha são uma cópia de um programa do Partido Comunista Francês (PCF), o programa do PCF que precisamente o lançou na linha euro-comunista, o revisionismo e a social-democratização. Foi o começo do fim do PCF enquanto partido comunista.

Refere-se na “Nota dos Editores” do sítio pelosocialismo.net, na publicação do Manifesto de Champigny:

«A democracia avançada era concebida como uma formação política e económica entre o socialismo e o capitalismo em que a progressiva transformação das estruturas económicas pela nacionalização dos setores monopolistas abriria o caminho ao socialismo sem um confronto revolucionário mais ou menos intenso entre as principais classes antagónicas.

Essa tese correspondia a uma espécie de ressurgimento da teoria da “transformação pacífica do capitalismo em socialismo” e da “democracia, criação contínua”, defendida anteriormente por Jean Jaurès e comum a Bernstein, que Lénine refutou implacavelmente. O Manifesto de Champigny passa ao lado da teoria marxista-leninista do Estado, não define a sua natureza na “democracia avançada” – se é burguês ou proletário com os seus aliados – nem clarifica qual o modo de passagem e qual a natureza das estruturas políticas que asseguram o domínio das classes exploradoras para as estruturas politicas que servem a defesa dos interesses das classes e camadas exploradas».

O Manifesto surge na sequência de 2 acordos com o PS francês, concluídos em dezembro de 1966 e em fevereiro de 1968.

O Manifesto entende que a luta por uma democracia avançada reduziria a força do capitalismo/monopólios, que seriam obrigados – de forma pacífica, sem reagir – a ceder/em as suas posições. Isto porque deixariam de poder recorrer (!!?!!) à força3.
Embora antes tenham admitido que, havendo violência contra o povo se possa encarar “a passagem ao socialismo por métodos não pacíficos”4, logo acrescentam que os comunistas franceses orientam a sua atividade para a passagem pacífica ao socialismo5. E invocavam as Declarações dos Partidos Comunistas de 1957 e 1960, posteriores ao XX Congresso do PCUS e à viragem reformista (teórica e prática) que introduziu no Movimento Comunista Internacional (MCI)6.

Note-se que, apesar de tudo, o Manifesto exigia o desaparecimento simultâneo da NATO e do Pacto de Varsóvia e que a França não renovasse os seus compromissos com a NATO “no prazo posterior a 1969”

Portanto é claramente mentira que a Democracia Avançada seja uma criação do PCP. Tanto quanto é mentira que o que aconteceu a outros partidos comunistas não interfere no rumo do PCP e que cada qual segue o seu próprio caminho “soberanamente”.

Percorre o discurso do PCP infelizmente há muitas décadas “a originalidade portuguesa” da via para o socialismo e o “nosso próprio modelo de socialismo”. Esta postura está ligada a uma prática decadente e nada saudável de relações com o movimento comunista internacional e com os países que foram socialistas ou onde se considera haver socialismo. É evidente perante a pobreza e o pouquíssimo esforço dedicado ao estudo das causas do fim do socialismo na União Soviética e a postura geral do PCP sobre a União Soviética que o seguidismo cego da União Soviética não foi superado mas foi apenas sucedido pelo seu substituto natural: a URSS passou a ser um tabu que é proibido discutir. Aqueles que estudamos marxismo-leninismo pelos nossos próprios meios (já que o partido não mexe um dedo para ajudar nesse aspecto) apercebemo-nos que é impossível ter a mesma opinião sobre Lenin, Stalin, Kruchev e Gorbatchov. Mas para as posições oficiais do PCP sobre a URSS… Lenin, Stalin, Kruchev e Gorbatchov são todos igualmente admiráveis e criticáveis pelos aspectos positivos e negativos da URSS. Esta postura é uma forma extremamente cínica e cobarde de “pôr uma pedra sobre o assunto” e efectivamente esquecer e apagar a União Soviética da nossa memória colectiva sem passar pelo trauma de dizer aos militantes do PCP que afinal renegamos a URSS, Stalin e o leninismo. Os militantes enganados pela conversa oca de vagas críticas aos erros e desvios (sem nunca apontar concretamente quais) da URSS e às “conquistas do socialismo” (também sem ir além das banalidades sobre o “estado social” que também existe em capitalismo) são facilmente adormecidos pelo culto desse passado e do suposto leninismo do PCP pelo merchandising ao estilo “t-shirts do Che” e “bustos de Lenine”. Já os livros de Marx e Lenine ficam, na mentalidade dominante do partido, reservados a eruditos e especialistas. Stalin nem vê-lo, foi praticamente censurado desde o tempo de Krutchev (aliás isso valeu uma purga recente de um histórico e heróico camarada do partido).

O aprofundamento da democracia

“No Portugal do tempo em que vivemos o caminho do socialismo é o da luta pelo aprofundamento da democracia.” (programa do PCP: democracia avançada, os valores de abril no futuro de Portugal, capítulo III – O Socialismo, futuro de Portugal, 3º parágrafo)

A luta pelo “aprofundamento da democracia” não leva ao socialismo, a luta pelo socialismo – o alcançar do socialismo – é que leva ao aprofundamento da democracia, presumindo que falamos de democracia para os trabalhadores e não para os patrões.

Foi o próprio Lenine que explicou que muitas tarefas democráticas – que se supunha antes que a burguesia realizaria na revolução democrática-burguesa – só puderam ser realizadas pela Revolução Socialista de Outubro. É isso que a experiência histórica e o estudo marxista-leninista da história (o materialismo dialéctico) nos ensina das várias revoluções burguesas e proletárias entre o século XIX e XX.

Existe uma grande diferença entre arrancar do Estado burguês por exemplo a concessão do fim das taxas moderadoras no sistema nacional de saúde ou fim das portagens em algumas autoestradas pela luta de massas procurando tornar o regime democrático-burguês ingovernável, decadente e pronto a ser derrubado e por outro lado alcançar estas concessões com acordos parlamentares e soluções de governo com o “partido socialista” (isto é a social-democracia) no sentido prestar vassalagem e vergar-se perante as instituições burguesas num espírito colaborativo com o Estado burguês.

Nós marxistas-leninistas não queremos ser lacaios do Estado burguês, do parlamento burguês e da sua miserável “democracia” da nossa escravização. Nós marxistas-leninistas não queremos passar uma vida a tapar uns buracos para aparecerem outros enquanto nos vergamos aos patrões e aos seus partidos. Nós marxistas-leninistas queremos deitar a baixo esta parede e todos os seus buracos e construir um edifício novo onde aí sim se possa ter a democracia dos proletários, onde o voto conte mesmo por igual porque já não há ricos nem pobres, já não há exploradores e explorados.

No nosso caminho há pequenas vitórias e há reformas arrancadas eventualmente ao Estado burguês, mas não é com apertos de mão e vénias aos nossos carrascos, mas sim com punhos erguidos e luta sem parar até derrubar tijolo por tijolo todo o “palácio de inferno” capitalista.

Todas as coisas pequenas e grandes têm um sentido mais profundo para lá da neutralidade do jargão de especialista dos cínicos oportunistas que nos querem enganar com a sua banha da cobra.

A falsa equidistância e a falsa moral

Oficialmente o PCP da Democracia Avançada afirma uma equidistância, um suposto combate a dois oportunismos de cada lado: um oportunismo de esquerda e um oportunismo de direita. Por oportunismo de esquerda entende-se o chamado “esquerdismo”, maoísmo, trotskismo, anarquismo. Por oportunismo de direita entende-se revisionismo, reformismo, social-democracia (quase sinónimos neste caso).

Na realidade porém o combate ao oportunismo de direita é zero porque o próprio PCP actual é oportunista de direita e o combate ao esquerdismo é irrelevante, quer dizer não é sequer algo que o PCP demonstre necessidade de fazer dada a insignificância dos supostos partidos ou organizações esquerdistas que restam.

Convém esclarecer que as picardias do PCP com o Bloco de Esquerda não tem absolutamente nada a ver com um “combate ao esquerdismo”. O PCP e o BE são duas variantes muito semelhantes de suporte ao PS que rivalizam por cotas de poder institucional apenas. Eu diria que a diferença entre um PCP cada vez mais católico e um BE das “causas fracturantes” lgbt etc não vai além dessa postura mais “moderna” ou “pós-moderna” ou “tradicional” ou “tradicionalista”.

As diferenças entre a postura do PCP face ao oportunismo de direita e ao oportunismo de esquerda é visível por exemplo se compararmos a postura face ao PS ou face ao MRPP. O MRPP conta para alguma coisa nos documentos do partido? Não (e nada contra neste caso). Mas o que é revelador é a postura face ao PS que não só não é de combate ao PS como é de aliança com o PS. Conclusão: não há equidistância nenhuma e não há sequer combate a oportunismos nenhuns, há unicamente a preocupação de persuadir o partido social-democrata mais forte no parlamento (o PS) a estabelecer acordos e alianças com o PCP no sentido de adquirir posições em futuras distribuições de cargos institucionais e cotas de poder em governos de “centro-esquerda” sociais-democratas.

Nota: O PCP durante vários anos devido há influência dos militantes revolucionários que ainda cá estão, ou cá estiveram, caracterizou correctamente o Bloco de Esquerda como um partido social-democrata o que prova exactamente o que eu disse de que as críticas do PCP ao BE nada tem a ver com combate ao esquerdismo.

A crise no movimento comunista internacional

Um pequeno aparte. Porque é que eu defendo as teses do KKE? Porque eu efectivamente li livros de Marx e de Lenine. E por isso sei distinguir o que é um discurso comunista de um discurso revisionista. Quando o meu partido e o KKE entraram em conflicto eu percebi imediatamente que era o meu partido que estava a afastar-se do marxismo-leninismo e vim a descobrir para meu espanto que no KKE o marxismo-leninismo (contrariamente ao meu partido) faz parte do seu dia-a-dia em vez de ser uma peça arqueológica ou de museu. Foi o conflicto público entre o meu partido e o KKE que me fez prestar atenção aos documentos do KKE. O PCP no seu início era marxista-leninista mas agora estamos numa “nova fase”. É sintomático que as fases e etapas “antes do socialismo” ou “para chegar ao socialismo” aumentaram depois do 25 de Abril em vez de diminuir. Mas era suposto que derrubando o fascismo estaríamos em melhores condições para chegar ao socialismo…

Enquanto se «luta» pela «democracia avançada», recua-se na luta pelo socialismo

O Blog Que Fazer explica melhor que eu o que eu quero dizer que é o socialismo que leva ao aprofundamento da democracia e não é o aprofundamento da democracia que leva ao socialismo. O sentido e objectivo das concessões do Estado burguês podem levar à perseveração do capitalismo ou ao seu derrube e substituição pelo socialismo – depende dos métodos e do contexto em que se ganham essas concessões. Bem mas repito que o Blog Que Fazer explica melhor que eu e passo a citar:

“O que verdadeiramente depende de nós é a luta de massas pelo socialismo, a isso chama-se a formação do elemento subjetivo. Paradoxalmente, acusam-se de esquecerem a necessidade da maturação do elemento subjetivo os que defendem que na ordem do dia está, isso sim, a luta pelo socialismo e não a luta «pela democracia avançada». Enquanto se «luta» pela «democracia avançada», recua-se na luta pelo socialismo e não o inverso.

É que ao socialismo, considerando, e nisso está tudo de acordo, que as condições objetivas existem numa grande parte do mundo, não se chega nem por via parlamentar, nem com alianças com quem quer perpetuar e aprofundar o sistema capitalista. É mesmo necessário educar as massas para a luta pelo socialismo e não apenas por reformas do capitalismo. Não se ouve uma palavra de ordem relativa ao socialismo nas manifestações sindicais ou partidárias. Que noção tem a classe operária e o povo português da necessidade da luta pelo socialismo, ou da luta anticapitalista? Quem quer que participe em manifestações ou viva neste país com os olhos minimamente abertos sabe qual é a resposta a esta pergunta.

E, no entanto, criar condições para isso depende exclusivamente de nós. E é precisamente isso que a «vanguarda» não faz, preferindo-se palavras ocas como a «urgência», a «exigência» e a «atualidade» do socialismo para consumo interno sem introduzir nas massas a ideologia de classe, limitando as massas à luta por reivindicações imediatas. As massas sabem muito bem conduzir sozinhas essas lutas sem precisarem de partidos. Aliás, as lutas da classe operária, desde que passou a existir como classe, foram espontâneas. Para onde conduzi-las, isso sim, só um partido comunista lhes pode dizer. Não se trata, como maldosamente podem acusar, de abandonar a luta por reivindicações concretas, nem de, por exemplo, neste momento, fazer greves pelo socialismo. Trata-se de introduzir nas massas uma mundividência, uma ideologia, que explique o mundo e mostre como transformá-lo, através de um constante trabalho educativo aproveitando todas as oportunidades mesmo a mais pequena reivindicação num local de trabalho.”
(do artigo “Muito falar e pouco acertar” do Blog Que Fazer)

O que fazer? Separar o que é são do que é podre

Para mim é impressionante ver como as mesmas pessoas que apoiaram Álvaro Cunhal contra os renovadores hoje apoiam a geringonça e o PS. Este definitivamente não é o mesmo PCP do Casquinha e do Caravela mártires na luta pela reforma agrária nos anos 80, este não é o mesmo PCP de camaradas que eu conheci que se dispunham à guerra civil em Novembro de 1975, este não é o mesmo PCP dos que lutavam na clandestinidade contra o fascismo arriscando a vida e nem se pode falar de comparar com aquele PCP dos heróis do soviete da Marinha Grande de 1934. Este PCP não é o PCP de militantes com tomates. Este PCP é antes o oposto, é um partido de subservientes cobardes, eu chamo-lhes de eunucos. Eu não digo isto para ofender os bons camaradas, os bons camaradas sabem o que vêem quando olham para o comité central e quando olham à sua volta. A herança deste partido é de camaradas que arriscaram a vida na luta de classes revolucionária, camaradas que não se rendiam perante a maior repressão e hoje o que vemos? “Militantes” que têm medo de falar contra as orientações do comité central? “Militantes” que têm medo de denunciar o oportunismo do Secretário Geral? “Militantes” que toda a vida foram contra o PS e que agora já tratam como mal menor não o PS mas o próprio PCP? “Militantes” que têm medo de debates polémicos e do confronto interno com oportunistas mas que preferem o consenso da festarola da festa do avante? Isto é só falta de consciência política ou é também apodrecimento moral? É que eu vejo a transformação de homens em ratos.

As 21 condições de admissão dos Partidos na Internacional Comunista (1920)

O II Congresso Mundial estabelece as seguintes condições de admissão na Internacional Comunista:

1.

A propaganda e a agitação cotidianas devem ter um caráter efetivamente comunista e corresponder ao programa e às resoluções da III Internacional. Os órgãos de imprensa controlados pelo Partido devem ter a redação a cargo de comunistas fiéis, provadamente devotados à causa proletária. A ditadura do proletariado não deve ser abordada como um simples chavão de uso corrente, mas preconizada de modo que todo operário, operária, soldado e camponês comum deduza sua necessidade dos fatos da vida real, mencionados diariamente em nossa imprensa.

As editoras partidárias e a imprensa, periódica ou não, devem estar inteiramente submetidas ao Comitê Central do Partido, seja este atualmente legal ou não. É inadmissível que as editoras abusem de sua autonomia e sigam uma política que não corresponda à do Partido.

Nas páginas dos jornais, nos comícios populares, nos sindicatos, nas cooperativas e onde quer que os partidários da III Internacional encontrem livre acesso, é indispensável atacar de modo sistemático e implacável não somente a burguesia, mas também seus cúmplices, os reformistas de todos os matizes.

2.

As organizações que desejam filiar-se à Internacional Comunista devem afastar de modo planejado e sistemático os reformistas e os “centristas” dos postos minimamente importantes no movimento operário (organizações partidárias, redações, sindicatos, bancadas parlamentares, cooperativas, municipalidades etc.) e substituí-los por comunistas fiéis, sem abalar-se com o fato de às vezes ser necessário, de início, trocar militantes “experientes” por operários comuns.

3.

Em quase todos os países da Europa e da América, a luta de classes está entrando na fase da guerra civil. Em tais condições, os comunistas não podem confiar na legalidade burguesa e devem formar em toda parte um aparelho clandestino paralelo que possa, no momento decisivo, ajudar o Partido a cumprir seu dever perante a revolução. Nos países onde os comunistas, por conta do estado de sítio ou das leis de exceção, não podem atuar em total legalidade, é absolutamente indispensável combinar o trabalho legal e o clandestino.

4.

O dever de propagar as ideias comunistas inclui a necessidade especial da propaganda persistente e sistemática nos exércitos. Nos lugares onde as leis de exceção proíbem essa agitação, ela deve ser realizada clandestinamente. Renunciar a essa tarefa equivale a trair o dever revolucionário e desmerecer a filiação à III Internacional.

5.

É indispensável a agitação sistemática e planejada no campo. A classe operária não pode garantir sua vitória sem atrair ao menos uma parcela dos assalariados agrícolas e dos camponeses mais pobres e neutralizar com sua política uma parte dos setores rurais restantes. O trabalho comunista no campo está adquirindo atualmente a mais suma importância. Para realizá-lo, é especialmente indispensável o auxílio dos trabalhadores comunistas revolucionários da cidade e do campo ligados ao campesinato. Renunciar a essa tarefa ou delegá-la a semirreformistas duvidosos equivale a renunciar à própria revolução proletária.

6.

Os Partidos que desejam filiar-se à III Internacional devem denunciar não somente o social-patriotismo aberto como também a falsidade e a hipocrisia do social-pacifismo, demonstrando sistematicamente aos trabalhadores que, sem a derrubada revolucionária do capitalismo, nenhuma corte internacional de arbitragem, nenhum tratado de redução de armamentos e nenhuma reorganização “democrática” da Liga das Nações livrará a humanidade de novas guerras imperialistas.

7.

Os Partidos que desejam filiar-se à Internacional Comunista devem reconhecer a necessidade da ruptura completa e definitiva com o reformismo e o “centrismo” e preconizá-la entre o grosso da militância. Sem isso, torna-se impossível realizar uma política comunista consequente.

A Internacional Comunista exige de modo incondicional e categórico que se realize essa ruptura o mais rápido possível. Não se pode admitir que oportunistas notórios como, por exemplo, Turati, Kautsky, Hilferding, Hillquit, Longuet, MacDonald, Modigliani e outros tenham o direito de considerar-se membros da III Internacional, o que a levaria a equiparar-se fortemente à falida II Internacional.

8.

Na questão colonial e das nações oprimidas, é indispensável que tenham uma linha particularmente clara e precisa os Partidos dos países cuja burguesia possui colônias e oprime outros povos. Os Partidos que desejam filiar-se à III Internacional devem denunciar implacavelmente as artimanhas de “seus” imperialistas nas colônias; apoiar os movimentos de libertação nas colônias não somente em palavras, mas também em atos; exigir a expulsão de seus compatriotas imperialistas das colônias; cultivar no coração dos operários de seus países um sentimento fraternal sincero para com a população trabalhadora das colônias e das nações oprimidas; e realizar entre as tropas da metrópole uma agitação sistemática contra todo tipo de opressão dos povos coloniais.

9.

Os Partidos que desejam filiar-se à Internacional Comunista devem realizar uma atividade sistemática e persistente nos sindicatos, nos conselhos operários e industriais, nas cooperativas e em outras organizações de massas, onde é indispensável criar células que, após longo e persistente trabalho, ganhem-nas para a causa comunista. Inteiramente subordinadas ao conjunto do Partido, essas células devem, a cada passo de seu trabalho cotidiano, denunciar as traições dos sociais-patriotas e as hesitações dos “centristas”.

10.

Os Partidos filiados à Internacional Comunista devem insistentemente lutar contra a “Internacional” Sindical Amarela de Amsterdã e preconizar entre os operários sindicalizados a necessidade de romper com ela. Esses Partidos devem apoiar, por todos os meios, a nascente unificação internacional dos sindicatos vermelhos que apoiam a Internacional Comunista.

11.

Os Partidos que desejam filiar-se à III Internacional devem rever a composição de suas bancadas parlamentares, removendo os elementos desconfiáveis, submetendo-as ao Comitê Central do Partido não somente em palavras, mas também na prática, e exigindo que cada parlamentar comunista sujeite sua atuação aos interesses da propaganda e da agitação realmente revolucionárias.

12.

Os partidos filiados à Internacional Comunista devem ser organizados segundo o princípio do “centralismo” democrático. No atual período de guerra civil encarniçada, um Partido Comunista só poderá cumprir seu dever se for organizado da maneira mais centralizada possível, se nele predominar uma disciplina férrea que beire a militar e se seu órgão central gozar de forte autoridade, de amplos poderes e da confiança unânime da militância.

13.

Os Partidos Comunistas que atuam legalmente devem realizar depurações periódicas (recadastramentos) entre os efetivos de suas organizações para remover sistematicamente os inevitáveis elementos pequeno-burgueses.

14.

Os Partidos que desejam filiar-se à Internacional Comunista devem apoiar incondicionalmente cada República Soviética em seu combate às forças contrarrevolucionárias. Os Partidos Comunistas devem buscar continuamente convencer os trabalhadores a não transportar material bélico aos inimigos dessas Repúblicas, a realizar uma propaganda legal ou clandestina entre as tropas enviadas para sufocar as repúblicas operárias etc.

15.

Os Partidos que ainda mantêm seus velhos programas social-democratas devem revisá-los o mais rápido possível e elaborar um novo, afinado com as resoluções da Internacional Comunista e adaptado às particularidades nacionais. Como regra, os programas dos Partidos filiados devem ser aprovados pelo Congresso Mundial seguinte ou pelo Comitê Executivo da Internacional Comunista. Caso este não aprove determinado programa, o Partido tem o direito de recorrer ao Congresso Mundial.

16.

Todas as resoluções dos congressos da Internacional Comunista, bem como as de seu Comitê Executivo, são obrigatórias para os Partidos a ela filiados. Atuando em meio à mais encarniçada guerra civil, a Internacional Comunista deve ser organizada de forma muito mais centralizada do que a II Internacional. Além disso, o trabalho da Internacional Comunista e de seu Comitê Executivo deve evidentemente levar em conta as mais diversas condições de luta e de atuação dos diferentes Partidos e só tomar decisões de obrigação geral nas questões em que isso seja realmente possível.

17.

Conforme tudo o que foi exposto acima, os Partidos que desejam filiar-se à Internacional Comunista devem mudar seu nome para Partido Comunista de… (Seção da III Internacional Comunista). A questão do nome não é meramente formal, mas possui grande importância. A Internacional Comunista declarou uma guerra decidida contra o mundo burguês e os partidos social-democratas amarelos. É indispensável deixar completamente clara a todo trabalhador comum a diferença entre os Partidos Comunistas e os velhos partidos “social-democratas” ou “socialistas” oficiais que traíram a bandeira da classe operária.

18.

Os órgãos dirigentes da imprensa partidária de todos os países devem publicar os documentos oficiais importantes do Comitê Executivo da Internacional Comunista.

19.

Os Partidos filiados à Internacional Comunista ou que solicitaram sua filiação devem convocar o mais rápido possível, mas até quatro meses após o II Congresso Mundial, um congresso extraordinário para discutir internamente estas condições. Além disso, os Comitês Centrais devem cuidar para que as organizações de base conheçam as resoluções do II Congresso da Internacional Comunista.

20.

Os Partidos que gostariam de filiar-se agora à III Internacional, mas ainda não mudaram radicalmente sua antiga tática, devem cuidar para que, até sua filiação, não menos de 2/3 de seu Comitê Central e de seus principais órgãos centrais sejam compostos por camaradas que, antes do II Congresso da Internacional Comunista, já tenham se manifestado de forma aberta e inequívoca a favor do ingresso de seu Partido. O Comitê Executivo da III Internacional tem o direito de admitir exceções, inclusive no caso dos representantes “centristas” mencionados no § 7.

21.

Devem ser expulsos do Partido os membros que rejeitarem por princípio as condições e teses apresentadas pela Internacional Comunista.

O mesmo vale para os delegados do congresso extraordinário de cada Partido.

Fontes: A Chispa, Cimlformacaomarxistacombateclassista.

Para não esquecer quem são os renovadores – recordo a entrevista a RAP

«Temos sempre a ideia de que está ligado ao PCP e que foi membro da JCP…

Na verdade, é mais uma invenção. Nunca militei na JCP. Fiz-me militante do PCP aos 24 anos, após ter acabado a faculdade. Fui um militante muito pouco empenhado – mais uma característica adorável da minha personalidade –, e a minha militância resumiu-se a pagar as quotas durante algum tempo. O Mário Castrim tem um poema em que diz: «Realizo-me quando pago as quotas do partido.» Nunca me aconteceu, devo confessar. Mas paguei-as e, além disso, cheguei a servir sandes de panado e imperiais numa Festa do Avante! – que foi, creio, o ponto mais alto da minha militância. Fiquei colocado no café concerto, um sítio muito giro onde assisti a um espectáculo fabuloso do Manuel Freire. Ele cantou aquelas canções todas – as dele, as do Zeca Afonso, as do padre Fanhais, as do Adriano… Há pessoas que se comovem com histórias de amor, ou perante fotografias de gatinhos. Eu choro quando oiço o Portugal Ressuscitado. A sério. Aquela parte do «Agora, o povo unido nunca mais será vencido» dá sempre cabo de mim. Eu ainda sou do tempo em que o povo existia, sabe? Entretanto, foi extinto. Agora já o expulsaram da Constituição e tudo. Substituíram o povo pela expressão «pessoas». «As pessoas, unidas, jamais serão vencidas» não tem o mesmo encanto. E o Manuel Freire ainda fez aquilo a que poderíamos chamar um stand-up revolucionário. A meio da actuação disse: «O que eu gosto mais na Festa do Avante! é ver estes camaradas que daqui a dois anos vão ser secretários de Estado do PS. Assim, podemos despedir-nos deles já aqui.» Foi muito engraçado. Mas só eu é que achei graça.

Por isso, abandonou a vida partidária?

Já não sou militante do PCP e, na altura em que saí, comecei a escrever uma carta para me desfiliar, mas a carta foi ficando progressivamente mais pequena porque cada vez que voltava a escrevê-la tinha menos coisas para lhes dizer. Eles também devem ter cá um interesse em ouvir-me… Até que não escrevi carta nenhuma.

Não é filiado em algum partido?

Não. Não tenho nenhum interesse na política partidária. Inscrevi-me no PCP dez anos após a queda do Muro de Berlim. O partido vinha de uma derrota autárquica muito forte, e eu achei que era importante inscrever-me porque pensava – e penso ainda – que o Partido Comunista desempenha um papel importante na sociedade. Sou eu e o Melo Antunes. Acreditei mesmo que, naquela altura, o partido já tinha repudiado o regime soviético e o dos países do Leste. Houve dois ou três sinais de que essa crítica tinha sido feita. Mas, de repente, o líder da bancada parlamentar, que é um rapaz da minha idade, disse que não sabia bem se a Coreia do Norte era ou não uma democracia. E o Carlos Brito, o Luís Sá, o João Amaral e outros foram sendo empurrados para fora. E um senhor chamado Manoel de Lencastre escreveu no Avante! um artigo a dizer que o Estaline era um doce de ser humano. E… Portanto eu achei que, se calhar, ia andando. Sou um marxista não-leninista e o PCP nunca deixou de ser um partido marxista-leninista, o que dificulta a minha integração. Se eu pudesse, seria militante do PCP do Mário de Carvalho, do Luís Sá, do João Amaral. O problema é que esse PCP não existe. É uma pena.»

Na íntegra:

In DN

Andar atrás de um matulão que mede 1,93 metros, calça 47 e gosta de fazer rir os portugueses não deixa de ser uma aventura enquanto a crise económica e política abala Portugal. Era essa a tarefa e todos os esforços foram feitos para espremer o humorista Ricardo Araújo Pereira de modo a fazer-se, finalmente, um perfil seu mais aproximado da realidade. A dificuldade em retirar o sumo – poucas vezes com sabor a limão – do humorista foi um desafio, nem que para isso se ficasse a saber que as suas filhas pretendiam chamar Brincos de Princesa a uma das cadelas, que não comenta qual a beldade da Playboy que mais apreciou na edição em que foi capa da revista e que faz questão de confessar a ausência de talento para a representação. A situação que ficou mais clara é que a etnia viva com que menos quer conviver é a classe dos jornalistas, mesmo tendo sido um deles, há 15 anos.
A primeira certeza sobre Ricardo Araújo Pereira (a partir de agora referido como R.A.P.) é que é um ser virtual. R.A.P. não existe, não está, não atende, não comenta, não revela, não aparece e é sempre não numa quantidade de situações. Por isso quando se quer marcar um encontro, R.A.P. anuncia que se teletransportou para outros universos e não revela a data de materialização: «Estou em Cabo Verde… Estou em Londres… Estou em Israel… Estou em Roma…» Ou seja, o que ele quer realmente dizer é: Não estou! E, quando está, garante que do que gosta mesmo é de se fechar em casa.
É esta a ideia que a maioria dos portugueses têm de R.A.P.? Não, ninguém acreditará quando diz que não tira prazer de festas, feiras e romarias. Também se desconfiará quando revela que é dominado pelas três mulheres lá de casa ou que desconfia do poder de influência dos Gato Fedorento. Ou seja, para descodificar R.A.P. é preciso uma grande paciência, pois a primeira nega ao escrutínio que lhe queria fazer já veio por msg há mais de dois anos. Depois de várias tentativas, houve uma brecha e iniciaram-se as negociações para a conversa. Entretanto, meteram-se a fazer o programa Gato Fedorento Esmiúça os Sufrágios e o tempo escasseou. Depois, foi a vez de cumprir um exílio sabático enquanto dava mais umas negas. Finalmente, a brecha alargou-se e houve datas marcadas. Acenou com responder por escrito a umas perguntas iniciais enviadas a meio de Dezembro e, por fim, aceitou sentar-se à mesa para almoçar devido à justificação de que era preciso a sua presença física para tirar as fotografias que ilustram a entrevista.

O prato prometido era para ser lagosta mas acabou por ser substituído por um dim-sum num restaurante chinês. A razão era estratégica, encafuar R.A.P. num espaço que não lhe permitisse a fuga. O Mandarim, no rés do chão do Casino Estoril, era o ideal pois tem umas salas reservadas onde se pode ter uma conversa à vontade e evitar que os fãs deste Gato interrompessem a audição. R.A.P. aceitou a troca da ementa mas, quando viu que tinha sido atraído a uma armadilha, suspirou como se fosse um membro de uma triade apanhado num beco e à mercê dos seus carrascos. A sala só tinha uma porta, no meio uma mesa de interrogatório e, se tentasse fugir pela janela, teria que partir cinematograficamente o vidro. A reacção foi rápida, falar ao telemóvel durante 27 minutos e olhar para o relógio repetidamente até informar que tinha de ir buscar as filhas ao colégio às 15h30.
O drama que expôs, de que as filhas quase ficariam numa rua esconsa à sua espera, deu a entender que só teríamos uma hora e 44 minutos para estar no confessionário. Em desespero de causa, usou um último estratagema, o de falar pausadamente e responder a cada pergunta como se fossem as suas últimas palavras. Foram precisas duas cervejas chinesas para o distrair, enquanto o subchefe Ferreira ia trazendo os pratos a conta-gotas, como lhe tinha sido pedido, e explicar-lhe que só iria poder salvar as miúdas de um destino trágico se dissesse algo interessante na confissão que se segue.
Uma coisa ficou esclarecida enquanto a tortura chinesa ia avançando. Que quando se apanha finalmente R.A.P. para uma entrevista, vem-nos à mente aquela frase mítica dos primeiros tempos dos Gato Fedorento: «Quando vejo que há aí palhaços, pá, que falam falam falam falam, pá, e eu não os vejo a fazer nada, com certeza que fico chateado.» R.A.P. fala fala mas diz muito com substância, mesmo que a música lounge chinesa que acompanhou o almoço o pudesse perturbar. Cada resposta é como as crónicas que escreve – com princípio, meio e fim, faz um ar de surpresa (apesar de dizer que não é actor) de quando em vez se não se revê na pergunta, sabe aproveitar as deixas e gosta de controlar a situação. Ou seja, «há por aí palhaços» mas não me incluam no grupo; se não me vêem a «fazer nada» é porque me toparam e, por fim, «fico chateado» se me obrigam a ser o que não pretendo.
R.A.P. é virtual sim, apouca as suas virtudes sempre que pode e aprecia introduzir ironia no que diz. É a resposta para estes tempos de crise, porque, sendo um humorista que fez questão de ficar no desemprego após o último programa na televisão, a sua perfeita imitação de José Sócrates sempre lhe pode garantir uns cobres ao substituir o primeiro-ministro em situações com menos graça. O único embaraço que se pode atravessar à sua frente é Pinto da Costa continuar a fazer aparições públicas onde faz questão de exibir um talento comparável ao dos Gato Fedorento (a partir de agora referidos como os Gato). Entre uns crepes e umas coisas gelatinosas e esbranquiçadas com camarões no interior, pergunta-se-lhe se isso poderá acontecer.

Pinto da Costa ameaçou-o com um processo e fez uma rábula onde imitava os Gato. Pegou num dicionário e leu o significado das palavras fedorento, fétido e pútrido?

Embora ele diga putrido, com acento no i. De facto, a pedido de Miguel Sousa Tavares, Pinto da Costa processou o Zé Diogo Quintela. Já não é a primeira vez que nos processa e, apesar de ter perdido sempre, continua a fazê-lo. É um direito que lhe assiste, mas temo que esteja a gastar dinheiro que seria mais proveitosamente aplicado na compra de um dicionário que acentuasse correctamente as palavras esdrúxulas.

Porquê a pedido de M.S.T.?

Porque M.S.T. pediu, numa crónica, que o FC Porto abandonasse a sua postura pouco litigante e processasse o Zé Diogo. E Pinto da Costa assim fez. Essa declaração pública foi curiosa, porque Pinto da Costa quis inteirar-se do que significava ser um gato fedorento. Foi pesquisar a palavra fedorento, e daí foi para fétido. Viu o significado de fétido e foi para pútrido. E disse que, quando viu que um dos significados de pútrido era corrupto, parou e não pesquisou mais. Quem acompanha o futebol português não deve admirar-se com o facto de Pinto da Costa necessitar de ajuda para saber o que quer dizer a palavra fedorento, mas não precisar de ir ao dicionário para saber o significado da palavra corrupto.

Sentiram-se lesados com a apropriação de um estilo naquele sketch?

Nunca me sinto lesado quando Pinto da Costa afirma que não gosta de mim. Faz-me lembrar aquela tira de banda desenhada da Mafalda, que detesta sopa, e por isso anseia que o Fidel Castro diga que a sopa é óptima para que as pessoas passem a dizer que a sopa é má. É isso que me acontece com Pinto da Costa: quanto mais disser que sou mau, mais o país dirá «se calhar estes gajos até têm graça».

Rapidamente a polémica Pinto da Costa sai de cena quando chega mais um prato chinês à mesa. Afinal, falar de futebol com R.A.P. só tem um sentido: Benfica. Antes de abandonar o tema, é-lhe perguntado se gosta de ouvir os comentários futebolísticos do dr. Rui Santos. R.A.P. não esperava por esta importante questão mas não se desmancha: «Sempre que vejo, divirto-me.» Ver televisão não é importante para ele, que segue o lema do actor Nicolau Breyner quando este diz: «Para fazer televisão é um preço, mas para a ver é mais caro.» Ambos os actores, refere, aplicam essa tese aos programas que fazem na televisão. Antes que o subchefe Ferreira interrompa o lote de perguntas sobre televisão com outra chinesice, tenta-se saber o porquê dos Gato circularem por vários canais.

A SIC não vos larga, mesmo cobrando cachets muito caros. Porquê?

Só pode ser pela mesma razão que a PT nos quer a fazer anúncios: por sermos muito lindos.

A RTP largou. Foi por cobrarem cachets muito caros?

Não. A RTP pagava o mesmo que a SIC. Simplesmente, na hora de escolher, a RTP não tinha director de programas, e a SIC tinha aquele com quem já tínhamos trabalhado na RTP.

A TVI ainda não vos caçou por cobrarem cachets muito caros?

Acho que a TVI nunca mostrou grande interesse em nós. O que só lhe fica bem, aliás.

Depois de uma entrada mais profissional para relaxar o entrevistado, avança-se para áreas de que menos gosta. A vida privada é uma delas, por isso apetitosa para os leitores mais curiosos mas que desagrada a R.A.P.. Garante que não gosta de dar entrevistas porque não é a sua actividade favorita e porque não tem muita coisa para dizer. Acrescenta logo: «Como, aliás, creio que se nota.» R.A.P. desmerece-se frequentemente. À primeira, passa, à segunda, o chá quente queima a língua e diminui a reacção, mas há sempre aquela vez em que não se escapa, como no caso da aversão a entrevistas: «Não faz sentido estar a responder a todos os pedidos.» Mas não é só essa a razão: «Não é muito importante que as minhas palavras apareçam vertidas nos jornais exactamente como foram proferidas, mas aborrece-me quando inventam.» E, face ao rol de queixas, o assunto fica por aqui mesmo ou para a ERC tratar.

Há muita pressão para dar entrevistas?

Não é bem pressão. As pessoas pedem e eu recuso.

Para manter um low profile?

Não, não é uma estratégia. É só uma maneira de ser.

Sabe-se onde a maior parte dos artistas moram, mas no seu caso não. Na Wikipédia ainda está que mora na Margem Sul; não se vêem fotos suas num evento público

Eu não sou muito dado a festas, feiras e romarias.

E revela também o nome das suas cadelas.

Não sei quem é o inventor desse verbete, mas está cheio de erros. Mas também, se os jornais estão sempre a imprimir informações erradas, porque é que a Wikipédia seria diferente?

São cadelas ou cães?

Cadelas. Chamam-se Lola e Flor, a propósito. Aproveito para fornecer essa interessantíssima informação. O nome da Flor já foi posto pelas minhas filhas. Elas propuseram duas hipóteses de nome: Flor ou Brincos de Princesa. Eu achei que teria alguma dificuldade em estar na rua a chamar Brincos de Princesa a um cão e por isso, apesar de ser um nome um pouco átono, optei por chamar Flor ao bicho.

Há quem não goste de ser fotografado a passear os cães. Isso incomoda-o?

Incomoda-me sempre que vêm emboscar-se para me fotografar quando estou em privado. Ninguém tem nada que ver com o que eu faço quando não estou a trabalhar.

E o que é que faz quando não está a fazer os Gato?

Tenho duas crónicas semanais para escrever – na Visão e n’A Bola –, o programa Governo Sombra, na TSF, e leio. Inscrevi-me num mestrado em Teoria da Literatura, na Faculdade de Letras. Repare que digo «inscrevi-me» e não «frequento», porque entretanto começou o programa e, com muita pena, deixei de conseguir lá ir. Antes, já me tinha inscrito no curso de Estudos Portugueses, na Universidade Nova, e fiz duas cadeiras. Fiz Introdução aos Estudos Literários, com o prof. Gustavo Rubim, e Literatura Portuguesa I, com o professor Fernando Cabral Martins. Tive 19 nas duas, o que significa que tenho média de 19 no curso. O facto de me faltarem umas 83 cadeiras para o acabar é, evidentemente, lateral.

Estudou em vários colégios de padres. Por castigo ou para lhe darem uma educação decente?

A razão deve ter sido a última, mas foi um plano que fracassou clamorosamente mesmo sendo os educadores freiras vicentinas e padres franciscanos e jesuítas. Eu não gosto nada de padrecas, pá. Mas gosto bastante de padres. E tive a sorte de, nesses colégios, ter encontrado sempre mais padres do que padrecas. Eu nem sou baptizado, mas nenhuma dessas pessoas alguma vez disse «o rapaz tem de ser baptizado». Nunca pretenderam converter-me. Claro que há uma perspectiva mais cínica sobre isso: a razão pela qual nunca tentaram converter-me não tem que ver com tolerância, mas com o facto de terem constatado que eu não tinha salvação possível.

Muda de vida quando se torna argumentista das Produções Fícticias. É amor ou humor à primeira vista?

Foi uma sucessão de acasos e de sorte, como quase tudo o que acontece na minha vida. A meio da faculdade fiz um curso de escrita criativa com o Rui Zink, que é amigo do Nuno Artur Silva, dono das Produções Fictícias (PF). Por sugestão do Rui, comecei a escrever, nas PF, textos para o Herman. Hoje, as Produções Fictícias são os nossos agentes e fazem a gestão do orçamento dos nossos programas, que são produzidos e escritos por nós. Mas na altura quis escrever textos humorísticos porque a capacidade de provocar o riso me interessava imenso. É quase absurdo que um ser humano se ria. O único animal que sabe que vai morrer é também o único que ri. Acho, aliás, que é disso que rimos: do facto de estarmos condenados à morte. Cada gargalhada que damos é uma manifestação de superioridade nossa em relação à morte. Provocar o riso é uma tarefa muito nobre. Ah, é verdade, e os textos humorísticos são mais bem pagos que os outros. Caso contrário, mandava a nobreza às malvas.
Se há que destacar um bom resultado nesta investida à vida mais privada de R.A.P., a resposta do nome não posto à cadela – Brincos de Princesa – é a grande revelação. Mas, para quem não desiste, lá se ouvirão mais meia dúzia delas. Nem mais uma, seis apenas: está casado há 12 anos; as filhas têm 4 e 6 anos e é do signo Touro. Esta não vale muito porque era fácil de saber, mas tem dois picantes: «Não acredito em signos, e seria mau se fosse uma influência, porque Salazar nasceu no mesmo dia e Hitler anda por perto.» As três importantes revelações em falta são: o pai era piloto e a mãe hospedeira – «Na altura era muito bom ser da TAP porque as estadas no estrangeiro duravam uma semana no Rio de Janeiro ou em Nova Iorque» – mas já estão reformados. E a última: «Sou ateu.» Há, no entanto, uma novidade a dar e que não é conhecida de todos os portugueses, que em privado existem poucas diferenças entre R.A.P. e Paul Newman. Já lá chegamos, depois de se saber porque é que usou tantas vezes como desculpa estar em viagem para adiar esta entrevista. A pergunta não é directa, para evitar ferir susceptibilidades…

Gosta de viajar. Portugal é um destino ou opta pelo estrangeiro, onde pode estar mais à vontade?

Gosto de estar à vontade, mas não fico embaraçado com o público que me aborda na rua a pedir autógrafos ou para tirar fotografias. É uma situação que não me causa qualquer espécie de engulho.

Por isso prefere o estrangeiro?

Não, eu gosto de viajar, mas o que gosto mesmo é de estar em casa.

Tem feito imensas viagens. Ninguém viaja tanto se não for por prazer

Sim. Gosto.

Quem prepara as viagens?

Eu não faço nada a esse respeito. O Paul Newman dizia uma coisa engraçada: «Em minha casa, eu decido sobre as grandes questões e a minha mulher sobre as pequenas. Ela decide se vivemos na costa leste ou oeste, que tipo de casa temos, em que colégio é que os filhos andam. E eu sou responsável pelas grandes questões: como é que se resolve o conflito israelo-árabe, qual deve ser a nossa posição sobre energia nuclear…» Comigo, é a mesma coisa. Não mando nada nem tenho responsabilidades práticas.

São as suas mulheres que decidem os destinos?

Escolhem tudo. Eu só mando no destino da viagem quando vou ver o Benfica ao estrangeiro. Pensando bem, quem decide isso é a UEFA. Confirma-se, eu nunca decido nada.

Tem medo de viajar de avião?

Tenho. No princípio dos Versículos Satânicos (de Salman Rushdie) o avião dos protagonistas explode e eles vêm em queda livre a rir à gargalhada. Pelo vistos é muito giro, mas mesmo assim não gostaria de experimentar.

Receia ataques terroristas?

Quando estou em Portugal não, porque os terroristas têm a inteligência de nos ignorar. No avião, também não. O meu terror é mesmo que aquilo caia.
Não há dúvida de que é um verdadeiro actor. R.A.P. adiou esta conversa justificando que estava em Cabo Verde, duas vezes em Londres, Egipto, Israel e Roma e evita falar de qualquer um destes destinos. A única abébia que dá aos leitores é ceder uma foto de uma destas terriolas, para fazer inveja. Castiguemo-lo, então, com questões sobre a profissão, para não o deixar provar os bolinhos de sésamo.

Já representou numa peça.

Não se pode chamar àquilo representar. O Pedro Mexia pensou em pegar nos textos do John Austin do livro Como Fazer Coisas com Palavras e fazer uma peça de teatro. Então, pensámos os dois nisso e achámos que era capaz de dar um espectáculo muito interessante, o que não veio a verificar-se. Foi divertido enquanto o preparámos, mas as actuações foram penosas.

Prefere fazer televisão ou teatro?

Não tenho especial interesse em representar em qualquer desses meios.

Nem pensa em fazer como a Rita Pereira e ir estudar para Nova Iorque ou ter sucesso nos EUA como a Daniela Ruah?

Não. Elas são actrizes e fico mesmo contente que a carreira da Daniela Ruah, por exemplo, esteja a correr bem. Foi muito corajosa, a decisão dela. Mas o meu interesse não é representar, não sou um actor. Recebo muitos convites para entrar em filmes, séries e peças, mas respondo sempre com a verdade: não sou actor. Às vezes dizem: «Mas é um trabalho tão giro!» E é, mas para actores. É a mesma coisa que dizerem que querem dar-me a oportunidade de arranjar a canalização do Taj Mahal. Para um canalizador deve ser óptimo, mas eu não percebo nada de canalização.

Vai continuar a recusar convites?

Sim. Não sou actor.

Mas nos Gato tem de compor personagens e representar!

Ali ninguém é actor, faz-se o melhor que se pode. Do ponto de vista da representação não temos nenhum talento criativo. Se houver alguma coisa é talento imitativo. Quando tenho de imitar uma personalidade pública, esforço-me para ver o que é que ela faz para sair igual, quando é uma personagem qualquer, escolho um tio ao calhas e imito-o.

Mas são imitações perfeitas. Treina muito?

Faço aquilo o maior número de vezes que consigo. Se for o Marcelo, passo a semana toda a falar como ele e a aborrecer toda a gente à minha volta. É uma questão de treino, de repetição. Não é talento.
Mesmo que não queiram, os Gato sucedem a uma linha de humoristas como Vasco Santana, António Silva, Raul Solnado e Herman José.

Gosto muito dos filmes deles, mas não me sinto herdeiro do Vasco Santana ou do António Silva. Nem continuador da sua tradição. Eles são de outro campeonato.
Não é o que os portugueses pensam.

É óbvio que todos vêem que há uma diferença clara entre mim e a Maria Rueff, por exemplo. Ela será a herdeira deles, eu não. Não sinto que esteja a continuar o que fizeram porque não estamos no mesmo ofício. Estarei mais perto de quem escrevia os seus guiões do que deles.

Quando foi a eleição dos grandes portugueses, ficou em 74.º lugar e António Lobo Antunes em 82.º?

A minha coroa de glória é Jorge Sampaio ter ficado atrás de mim.
Mas Eusébio ficou muito à frente.

Se dependesse de mim, o Eusébio teria ficado em primeiro. Mas essa lista era uma palhaçada. Havia dois lugares que eram claramente absurdos: o meu e o de um gajo chamado Oliveira qualquer coisa. Salazar, parece que era.

Temos sempre a ideia de que está ligado ao PCP e que foi membro da JCP…

Na verdade, é mais uma invenção. Nunca militei na JCP. Fiz-me militante do PCP aos 24 anos, após ter acabado a faculdade. Fui um militante muito pouco empenhado – mais uma característica adorável da minha personalidade –, e a minha militância resumiu-se a pagar as quotas durante algum tempo. O Mário Castrim tem um poema em que diz: «Realizo-me quando pago as quotas do partido.» Nunca me aconteceu, devo confessar. Mas paguei-as e, além disso, cheguei a servir sandes de panado e imperiais numa Festa do Avante! – que foi, creio, o ponto mais alto da minha militância. Fiquei colocado no café concerto, um sítio muito giro onde assisti a um espectáculo fabuloso do Manuel Freire. Ele cantou aquelas canções todas – as dele, as do Zeca Afonso, as do padre Fanhais, as do Adriano… Há pessoas que se comovem com histórias de amor, ou perante fotografias de gatinhos. Eu choro quando oiço o Portugal Ressuscitado. A sério. Aquela parte do «Agora, o povo unido nunca mais será vencido» dá sempre cabo de mim. Eu ainda sou do tempo em que o povo existia, sabe? Entretanto, foi extinto. Agora já o expulsaram da Constituição e tudo. Substituíram o povo pela expressão «pessoas». «As pessoas, unidas, jamais serão vencidas» não tem o mesmo encanto. E o Manuel Freire ainda fez aquilo a que poderíamos chamar um stand-up revolucionário. A meio da actuação disse: «O que eu gosto mais na Festa do Avante! é ver estes camaradas que daqui a dois anos vão ser secretários de Estado do PS. Assim, podemos despedir-nos deles já aqui.» Foi muito engraçado. Mas só eu é que achei graça.

Por isso, abandonou a vida partidária?

Já não sou militante do PCP e, na altura em que saí, comecei a escrever uma carta para me desfiliar, mas a carta foi ficando progressivamente mais pequena porque cada vez que voltava a escrevê-la tinha menos coisas para lhes dizer. Eles também devem ter cá um interesse em ouvir-me… Até que não escrevi carta nenhuma.

Não é filiado em algum partido?

Não. Não tenho nenhum interesse na política partidária. Inscrevi-me no PCP dez anos após a queda do Muro de Berlim. O partido vinha de uma derrota autárquica muito forte, e eu achei que era importante inscrever-me porque pensava – e penso ainda – que o Partido Comunista desempenha um papel importante na sociedade. Sou eu e o Melo Antunes. Acreditei mesmo que, naquela altura, o partido já tinha repudiado o regime soviético e o dos países do Leste. Houve dois ou três sinais de que essa crítica tinha sido feita. Mas, de repente, o líder da bancada parlamentar, que é um rapaz da minha idade, disse que não sabia bem se a Coreia do Norte era ou não uma democracia. E o Carlos Brito, o Luís Sá, o João Amaral e outros foram sendo empurrados para fora. E um senhor chamado Manoel de Lencastre escreveu no Avante! um artigo a dizer que o Estaline era um doce de ser humano. E… Portanto eu achei que, se calhar, ia andando. Sou um marxista não-leninista e o PCP nunca deixou de ser um partido marxista-leninista, o que dificulta a minha integração. Se eu pudesse, seria militante do PCP do Mário de Carvalho, do Luís Sá, do João Amaral. O problema é que esse PCP não existe. É uma pena.

Hoje revê-se em algum partido?

Não exactamente, mas isso não me causa transtornos de maior. Isso de uma pessoa ter de se rever inteiramente num partido para votar nele é uma mariquice. Voto em quem tenho de votar e acabou-se. Nunca votei à direita do PC. Ou voto no Bloco ou no PC. E nunca fiz segredo disso. Volta e meia dizem-me que é muito grave eu não ser imparcial. Eu quero que a imparcialidade se foda, sabe? A última foi uma jornalista que concorre a eleições – integrada num partido, obviamente. Acha que eu devia ser imparcial. Uma jornalista, note. Com actividade partidária activa. Nada contra, mas não me venha chatear. Eu não gosto de humoristas imparciais – aliás, tenho até dificuldade de me lembrar de algum. Prefiro pessoas que tenham… como é que se chama aquilo? Opiniões, é isso. O humor parte de um ponto de vista sobre a realidade, e cada humorista tem o seu. Não tem o seu e o dos outros. Quando vou ler o Woody Allen, o que me interessa é saber o que ele pensa sobre as coisas. Não quero que diga que é ateu e depois escreva que é muito religioso porque a ERC o obriga a dar uma no cravo e outra na ferradura.
O Bloco de Esquerda também não é uma opção fácil actualmente! Até Sócrates desmascarou Louçã…

Porque ele diz que os PPR não são vantajosos e tem um, não é? O mais surpreendente nisso é um deputado subscrever um Plano Poupança Reforma. As reformas deles são tão boas…

A nível ideológico, acha que estamos um pouco perdidos em Portugal?

Os partidos que ganham eleições não têm ideologia nenhuma. É por isso, aliás, que ganham as eleições. Os chamados catch-all party captam uma fatia de eleitorado muito larga justamente porque não se comprometem com coisa nenhuma. Curiosamente, nas europeias, o PS fez o contrário: em vez de não defender ideologia nenhuma, defendeu todas – menos a socialista, claro, que tradicionalmente é pouco popular entre os socialistas.

R.A.P. publicou, no fim de 2009, o seu segundo best seller: Novas Crónicas da Boca do Inferno. O índice onomástico revela os protagonistas preferenciais dos textos: José Sócrates e Manuela Ferreira Leite. A razão é simples, um exerce o poder e o outro é «a presidente do outro partido de poder. Em Portugal só há esses dois». Há um texto, A Importância de Ser Alegre, que nos liga às próximas eleições.

O que acha do candidato Manuel Alegre?

Acho que é um candidato que, sendo um socialista, como é óbvio, pode recolher o apoio dos partidos de esquerda. Se conseguir também o apoio do PS, pode ganhar as eleições. O Alexandre O’Neill tinha uma designação divertida para um certo tipo de poeta: o «baladeiro audaz». Confesso que Alegre me parece encaixar no perfil de baladeiro audaz. Mas creio que não terei outro remédio senão votar nele.

Não vai votar em Cavaco Silva porque não aceitou participar no Esmiúça os Sufrágios?

O Alegre também não aceitou…
Quando chega a sobremesa de maçã fá-si e bolinhos de leite, R.A.P. já está à beira de uma apoplexia porque, adverte, a estas horas as filhas já foram postas na rua. É possível acreditar num pai, mas num humorista dificilmente… Mesmo assim, abre-se-lhe a porta do reservado e deixa-se vestir o sobretudo da moda. Coloca os óculos escuros e parte a falar ao telemóvel. Uma funcionária diz para outra: «É muito mais alto do que parece na televisão.» Retém-se uma resposta sua: «Aquilo era televisão, não há nada de espontâneos. Foi surpreendente que aceitassem o convite para o Esmiúça, porque não era evidente que aquelas pessoas lá fossem e quisessem ser vistos na minha companhia.»
Retrato de um Gato
«Já era um arrogantezeco armado em bom antes de ser conhecido»

Ainda se lembra de quando não era um humorista famoso?

Sim. Não foi assim há tanto tempo. Mas posso garantir que a fama não me mudou. Eu já era um arrogantezeco armado em bom antes de ser conhecido.

Tem saudades desses tempos de ignorado?

Nem por isso. Saio pouco à rua, e em casa toda a gente me ignora. Não mudou assim tanto para provocar saudades.

Diz que inventam muito sobre a sua vida privada. Pensa nisso enquanto joga golfe?

Isso. Ponha-se com brincadeiras. A partir de agora, para todos os efeitos, passo a ser jogador de golfe. A imprensa censura a pouca sofisticação dos meus gostos, e por isso entretém-se a inventar outros, mais requintados. Só posso agradecer.

No outro dia, uma amiga viu-o no transiberiano.

Também nunca estive no transiberiano. Mas esse não é o único tipo de invenção. Há outros, também giros. Um que tem estado muito na moda tem que ver com os anúncios da PT. Já vi escrito nos jornais que os anúncios são escritos por nós. Pelos vistos, quem faz o anúncio é quem o escreve. Especialistas em publicidade parecem ignorar a existência de uma entidade chamada «agência de publicidade». Mas só funciona connosco. A Bárbara Guimarães não é responsável pelos diálogos daquele jantar sobre contas bancárias. Enfim, o que interessa é andarem entretidos. Tudo o que os afaste da droga…

E um amigo descobriu-o disfarçado a um canto do estádio do Sporting a ver o jogo com o FCP. Gosta de passar despercebido?

Essa, toda a gente vê que é mentira. O estádio de Alvalade tem estado tão vazio que ninguém consegue passar despercebido.

Depois de se ter visto naquele vídeo da RTP quando era novo cortou o cabelo quase à escovinha. Essa história é verdadeira ou foi uma invenção?

Foi invenção. Já rapo o cabelo há muito tempo. Três semanas sem cortar e fico com o penteado que o Pietra tinha nos anos oitenta.

Anda quase sempre de fato porque os Hugo Boss assentam-lhe bem?

A mim tudo me assenta bem. Quando se tem este porte físico tão elegante e proporcionado, até um fato de treino parece um smoking.

Qual foi a modelo ? não vale a pena dizer que nem a leu ? com quem mais gostou de contracenar na revista Playboy?

Eu não contracenei com nenhuma, meu amigo. Fui colocado na capa da Playboy à revelia. Um dia, quando me fui deitar, era um cidadão normal, no dia seguinte, quando acordei, era a Miss Dezembro. Sou uma espécie de Gregor Samsa da pouca-vergonha.

Alguma lhe telefonou a dizer que o queria ver como ela?

Quando a Playboy saiu, fui abordado por senhoras que confessavam alguma frustração por eu não estar nu na revista. Garanti-lhes que, se eu estivesse nu, a sua frustração seria bem maior. Há um passo do Manifesto Anti-Dantas em que o Almada diz que o Dantas, nu, é horroroso. Eu coro sempre que leio essa parte.

As meninas que contracenam com os Gato são normais. Não conseguem miúdas de espantar porquê?

Tem de me mostrar o seu caixote do lixo. As nossas actrizes são sempre muito bonitas. Pois se as mulheres só entram nos nossos sketches para serem objectificadas!…

As suas cadelas devem ser as únicas que gostam de um Gato e, ainda por cima, Fedorento?

Os meus cães nutrem por mim uma admiração extraordinária. Não é por acaso que lhes chamam animais irracionais, sabe?
O Gato literato
«Nenhum farmacêutico é Tolstoi, com excepção do que escreveu a posologia do Ben-U-Ron»

É coordenador de uma colecção de livros. É verdade que gosta mesmo de um triste como Charles Dickens?

É. Uma vez, durante o período em que os Pickwick Papers estavam a ser publicados em fascículos, um padre foi consolar um moribundo e falou-lhe longamente do que o esperava na vida eterna. No fim, o moribundo suspirou e disse: «Bom, o que interessa é que amanhã já sai mais um número dos Pickwick Papers.» Um homem cujos textos são aguardados com mais expectativa do que o paraíso merece a nossa admiração.

Os livros não tinham lombada por originalidade ou porque faltou dinheiro para os encadernar completamente?

A ausência de lombada é, em si, um manifesto, um modo de transmitir a ideia de que a comédia é o género que capta mais profundamente o ser humano, que o apresenta despojado de máscaras, de adereços, de maquilhagens. Estou a gozar, claro. Os livros não têm lombada porque fica bonitinho.

Já apresentou um livro de António Lobo Antunes. Teve paciência para o ler?

Não preciso de paciência para ler o Lobo Antunes. É sempre um prazer. Mas, na apresentação, a professora Maria Alzira Seixo estava mesmo à minha frente, na plateia, claramente a olhar para mim e a pensar: «Quem será este gajo?» Por isso, para mim, aquilo acabou por não ser bem uma apresentação de um livro. Foi uma oral sobre a obra do Lobo Antunes.

Já publicou dois livros de crónicas e vendeu mais do que qualquer jovem esperança da nossa literatura. Tem explicação para esse facto?

Sim. Quando as jovens esperanças da nossa literatura aparecerem na televisão a fazer momices passamos a vender o mesmo.

Escreveu que em grande queria ser escritor e futebolista.

Escritor e futebolista do Benfica. Não tinha interesse em ser futebolista. Descobri isso quando a minha avó morreu e fomos a sua casa arrumar as coisas. Encontrei esse livro guardado, daqueles da escola onde se pergunta o que queres ser quando fores grande e eu escrevi isso. Um facto que revela o discernimento de uma criança porque, como sabe, são duas profissões que normalmente vão a par. Os futebolistas são donos de um domínio da língua muito assinalável. No entanto, falhei nos dois desejos.

Mesmo escrevendo crónicas que o próprio Saramago disse que o obrigavam a começar a ler a Visão pelo fim?

Isso é muito simpático da parte dele, mas não faz de mim um escritor. Todos lêem a bula dos medicamentos mas nenhum farmacêutico é o Tolstoi. Com excepção, talvez, do que escreveu a posologia do Ben-U-Ron. Magistral, aquilo.

Tem vontade de escrever algo com mais fôlego do que a crónica?

Não sinto necessidade nem tenho intenção.

O Gato no futebol
«Meninas, se não forem do Benfica, caem-vos os dentes e o cabelo»

Vale e Azevedo faz-lhe falta para as rábulas?

Não, não. Vale e Azevedo não me faz falta para nada. Há um livro que reúne as crónicas de uma personagem que o Miguel Góis e eu escrevíamos para A Bola e aquilo é quase tudo a fazer pouco do Vale e Azevedo. Deu-nos muito material, mas não lhe agradeço. O que acontece no Benfica é que, quando há um presidente que tem, digamos, uma má relação com a honestidade, boa parte dos benfiquistas critica-o. Quem dera a todos poderem dizer o mesmo, não é? Estive três horas numa fila para votar no Vilarinho, para ver se as rábulas acabavam. Quero lá saber das rábulas.

Escolheu o Benfica porquê?

Essa é que é a grande pergunta. Não posso reclamar os louros dessa decisão porque, apesar de gostar muito de a poder reivindicar – muito embora ela demonstre um discernimento superior às minhas capacidades –, foi o meu primo António que me deu a catequese. Eu era muito pequeno e ele ia buscar-me a casa para me levar ao estádio porque os meus pais não ligavam a futebol. Nos últimos tempos, ele moderou um pouco (coisa que não lhe perdoo, aliás), mas naquela altura o meu primo tinha uma postura admirável, porque via o jogo a fumar um cigarro atrás de outro, a tremer, e torturado por tiques muito estranhos desde o princípio ao fim – coçava a nuca no colarinho, fazia sons com a boca… E eu lembro-me de estar a ver os jogos, observar aquele farrapo humano que era o meu primo durante noventa minutos e pensar: é isto que eu quero ser quando for grande.

Leva as suas filhas ao futebol?

Sim.

Gostam?

Claro. Como são pequeninas, é evidente que não exerço sobre elas uma pressão inadequada e adapto o discurso proselitista. Não me passa pela cabeça oprimi-las com a ideia de que têm de ser benfiquistas. O que lhes digo é: «Meninas, se não forem do Benfica, caem-vos os dentes todos e o cabelo também. E podem mesmo falecer.» Sem pressões.

Vê-se que confiam no pai?

Sim. Porque faço tudo com a maior consideração pela liberdade de escolha delas. Eu só as fiz sócias desde que nasceram e comprei-lhes as camisolas do Benfica para elas vestirem. Mas o número que se estampa nas costas é escolhido por elas. Acima de tudo, a democracia.

E a sua mulher é do Benfica?

Quando nos conhecemos tinha uma simpatia pelo Belenenses. Hoje, o meu sofrimento e o das filhas fazem que deseje ardentemente que o Benfica ganhe sempre.

Esmiuçar os Gato

«Daquela vez não falaram do Mário Crespo»

Os nomes que inventam para os vossos programas são um pouco estúpidos mas pegam. Os portugueses são assim tão fáceis de enganar?

Fico um pouco magoado com a observação de que os nomes são um pouco estúpidos. Tentamos que sejam muito estúpidos. O momento em que comunicamos ao director de programas o nome que escolhemos é sempre divertido. Desta vez, havia duas ou três pessoas da estrutura da SIC (do marketing, ou assim) que diziam que esmiúça era uma escolha trágica porque ninguém sabia o que era esmiuçar. Pumba, hoje esmiúça-se por tudo e por nada. O segredo é nunca supor que o público sabe menos do que nós.

Entrevistar muitos políticos foi fácil?

Foi. Na altura, os jornais disseram que as perguntas eram combinadas com os convidados, o que não faz sentido. Para quê? Seria tempo perdido. Toda a gente sabe que uma pessoa pode perguntar o que quiser a um político, que ele arranja sempre maneira de responder o que lhe apetece.

Qual o que deu mais trabalho?

O professor Marcelo. Senti que devia ter bebido trinta cafés antes do programa para poder rivalizar com a energia do professor.

Quando foi a vez de Mário Soares não lhe conseguiu cortar o pio. Respeitinho?

Nunca cortei a palavra a ninguém. Se eu apressasse as entrevistas, o programa ficaria com menos tempo e nós teríamos de escrever mais texto.

Acha que deixou a Joana Amaral Dias nervosa?

Se há facto da vida de que tenho conhecimento há muito é que um rapaz como eu não deixa nervosa uma rapariga como Joana Amaral Dias.

Foi fácil entrevistar Sócrates no Esmiúça?

A dificuldade principal foi convencê-lo a ir lá. O programa exigiu um esforço criativo maior do que é costume, por ser um programa diário, escrito por quatro gajos entre as 9h00 da manhã e a hora de o apresentar, e que tratava dos assuntos de que se tinha falado no próprio dia. Mas também exigiu um esforço, digamos, diplomático
.
Para não espantar a caça?

Isso também. Se tivéssemos sido muito acintosos com o primeiro convidado já não teríamos ninguém a seguir. Mas o esforço diplomático principal foi conseguir convencer o primeiro-ministro e a líder da oposição a irem ao programa, o que ocupou muito tempo em reuniões com assessores para lhes explicar o que não ia acontecer. Foi um processo muito demorado, até porque houve um duelo táctico exasperante entre o primeiro-ministro e a líder da oposição: um só iria se o outro fosse. Esse jogo era muito perigoso para nós porque podia prolongar-se eternamente. Só na véspera da estreia do programa é que o PM confirmou que estaria presente no dia seguinte. E, mesmo assim, não deixava de ser uma promessa do primeiro-ministro, não é? Continuei a não dormir descansado nessa noite.

Como é que o convenceram?

Estávamos os quatro a almoçar com o Nuno Santos e a discutir o que seria o programa, e nisto entram no restaurante José Sócrates, Pedro Silva Pereira e o ministro da Justiça. Era uma boa oportunidade para o abordar e o Nuno Santos tomou a iniciativa de falar com o primeiro-ministro, logo ali. Excepcionalmente, daquela vez não falaram do Mário Crespo.

Fonte: A águia voa alto