Category Archives: Aliança Popular

Excerto sobre as Frentes Populares do livro do KKE “Assuntos teóricos sobre o programa do Partido Comunista da Grécia (KKE)”

“A ascenção do fascismo numa série de países teve múltiplos impactos no movimento comunista e na IC (Internacional Comunista, Comintern).

Sucederam grandes preocupações acerca da interpretação deste fenómeno e da confrontação com ele por parte do movimento comunista em condições de crise económica capitalista e durante a intensificação dos preparativos para uma nova guerra imperialista em simultâneo ao agudizar das contradições imperialistas. Porém, os imperialistas tinham como seu objectivo comum o esmagar da União Soviética. As forças fascistas deram à sua orientação política um carácter intensamente anti-comunista, quando apelidaram o tratado entre a Alemanha e o Japão como o «Tratado Anti-IC».

Preocupações e discussões desenvolveram-se dentro dos quadros da IC que também foram registados por alguns historiadores da IC (aqueles que participaram dentro da sua estrutura). O ponto de vista dominante foi aquele que diz respeito a formar uma Frente Popular (FP) ampla e anti-fascista que poderia alcançar o governo através do parlamento de forma a evitar a ascenção de governos fascistas e ao mesmo tempo isto poderia evitar a concentração das forças mais agressivas contra a URSS.

Reflectindo o debate dentro da estrutura da IC, as resoluções do seu 7º Congresso (1935) trouxeram certas «salvaguardas» nomeadamente (id est) que a formação de um governo de Frente Popular seria o resultado da agudização da luta de classes, etc.
Contudo, na prática, estas resoluções abriram o caminho para acordos incondicionais com partidos sociais-democratas e burgueses, para um apoio acrítico a governos burgueses no contexto da guerra imperialista e, apesar da oposição do Comité Executivo da IC, para começarem a acontecer discussões a respeito da unificação dos Partidos Comunistas com os Partidos Sociais-Democratas, etc.

A experiência prática demonstrou que política das Frentes Populares não podia nem confrontar a ascenção do fascismo nem impedir a guerra.”
Fontes: Blog In Defence of Communism e site internacional do KKE

As alas mais confortáveis do inferno capitalista (reformista)

Ala nacional da burguesia, ala esquerda da social-democracia, ala progressista da igreja, ala moderada do fascismo, ala patriótica-republicana (ou honrada) dos liberais, ala multi-polar do imperialismo, ala desenvolvimentista do capitalismo, ala unitária do sindicalismo amarelo (ou peleguismo), ala democrática-parlamentar do Estado burguês, a esquerdinha militar pequeno-burguesa bonapartista para brincar ao Estado neutral ou ao “Socialismo com propriedade privada” do chavismo mas também do prec…

Temos de ser parte das alas “progressistas” e “democráticas e patrióticas” porque é lá que “estão os trabalhadores”. Quais trabalhadores? Os que são obrigados a emigrar pela burguesia “nacional”, os atraiçoados pela social-democracia “de esquerda”, os que são reduzidos a parolos ingénuos pela “igreja progressista”, os que carregam às costas a “patriótica” república capitalista, os que conhecem o “desenvolvimento” do bolso dos ricos à custa do roubo do seu bolso, os que são postos de joelhos perante ao patrão graças à sagrada “unidade” de cúpulas sindicais com os amarelos, os que nem sequer votam para a pocilga parlamentar burguesa, os que pediram armas à esquerdinha militar no 25 de Novembro de 75 em Portugal em vão, os que estão desempregados e por isso são lhes vedados os sindicatos (se uma grande parte dos trabalhadores são desempregados uma grande parte dos dirigentes sindicais deviam ser desempregados como seus representantes e defensores) entre outros direitos, os que estão na miséria e que por isso – tirando a igreja que vive às suas custas – são desprezados e ignorados por esta corja toda de alas esquerda, progressistas, nacionais, democráticas e patrióticas.

Precisamos de um movimento de massas revolucionário do proletariado e dos pobres que até pode estar no parlamento burguês mas não para o defender e sim para o destruir. Precisamos de um movimento de massas cuja estratégia esteja focada inequivocamente fora (e contra) do sistema e Estado burguês e trabalhando para derrubar esse sistema e Estado explorador. Tudo o mais são alas confortáveis do inferno reformistas, que é o “rosto humano” ou melhor a máscara falsa da besta capitalista.

 

 

Quase uma semana de Greve ininterrupta dos trabalhadores do transporte marítimo grego desaguou numa grandiosa Greve Geral com o apoio da PAME e do KKE


Video: Dimitris Koutsoumpas dirige-se aos trabalhadores marítimos.

Há dias a PAME expressou solidariedade com os trabalhadores do transporte marítimo na Grécia quando estes estavam em greve há 4 dias em resposta a novos impostos brutais sobre os seus salários (os marítimos passaram a pagar 54% de impostos sobre os seus vencimentos enquanto os donos dos navios passam a ter 56 isenções de impostos a somar aos seus privilégios anteriores). A PAME apelou aos seus Sindicatos, Federações e Uniões Regionais a mobilizar todos os sectores, profissões e regiões em apoio aos trabalhadores marítimos.

Enquanto isso – 6 de Dezembro – a PAME organizou mais de 550 eventos, plenários e actividades em lugares de trabalho por toda a Grécia no Dia de Acção e Discussão com a classe trabalhadora para a preparação da Greve Geral de 8 de Dezembro. Daí saíram mais de 60 manifestações marcadas para toda a Grécia. Ao mesmo tempo os Sindicatos dos trabalhadores do transporte marítimo decidiram unir a sua voz e reivindicações às reivindicações de toda a classe trabalhadora chegando aos 6 dias de Greve ininterrupta, sem mexer um navio, que durou até hoje coincidindo com a Greve Geral.

“The strike of the maritime workers is a response to the brutal policy of the SYRIZA Government, which imposes new wage cuts, new brutal taxation to the maritime workers (with the new measures, maritime workers will have to pay for taxes almost 54% of their income). At the same time, with the new measures, the ship owners, will have 56 tax exemptions, in addition to their other privileges. PAME calls the unions, the Federations and the Labour Centres to express their solidarity” (PAME)

A greve dos marítimos gregos de quase uma semana teve o apoio do Secretário Geral do Comité Central do KKE, Dimitris Koutsoumpas, que se dirigiu a eles num encontro na cidade nevrálgica do Porto de Pireus para saudar a importância estratégica e crucial da sua justa luta: “Esta luta mostra o caminho a ser seguido no próximo período, todos os dias, porque a luta deve ser contínua e duradoura, porque os memorandos e as medidas impopulares serão duradouros.”

“With more than 550 events, meetings and activities in workplaces all over Greece, the unions responded to the call of PAME to make Tuesday, December 6, Day of Action and Discussion with the working class for the preparation of the General National Strike of December 8. Demonstrations of PAME have been scheduled in more than 60 cities all over Greece. At the same time Maritime Workers’ Unions announce the continuing of their Strike till the day of the National General Strike, to unite their voice and demands with the demands of the whole working class, reaching 6 days of Strike, with NO ship moving.” (PAME)

Fonte: 902.gr

Sobre os Conselhos de Fábrica e o grupo Ordine Nuovo – parte 2

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A greve dos ponteiros e a ocupação das fábricas

Durante o outono e inverno de 1919-20, o grupo Ordine Nuovo continuou a fortalecer seus laços com o movimento conselhista, até conquistar totalmente a hegemonia. O Partido Socialista, por sua vez, estava lutando com a questão da adesão à Terceira Internacional, sobre a base das famosas 21 condições elaboradas por Lenin [*] , as quais responderam à necessidade de criar – no Ocidente – partidos comunistas inspirados “no modelo representado pela experiência revolucionária na Rússia, com toda a vocação didáctica e aquele rigor de princípios que são os componentes essenciais: disciplina, organização firme e centralizada, âmbito de acção entre as massas, os camponeses, os sindicatos e exército” (Paolo Spriano, Storia del Pci, volume I p.70).

Dentro do PSI as posições, tanto no que diz respeito às relações a ter com a Terceira Internacional assim como, em paralelo, no que diz respeito à estratégia política global do partido, eram tudo menos homogéneas. Mesmo com todas as nuances e diferenças que existiam dentro dos vários grupos, podemos distinguir uma componente reformista, liderada por Turati, que tem o controle do grupo parlamentar, dos sindicatos e do sistema cooperativista; uma componente centrista-maximalista, devido a Serrati, que lidera o partido e seu órgão de imprensa, o “l’Avanti!”, e finalmente a componente abstencionista liderada por Bordiga. Como surge, neste contexto, o grupo Ordine Nuovo? Deve ser dito que, pelo menos até a primavera de 1920, os gramscianos voltaram sua atenção principalmente para a realidade das fábricas e, simultaneamente, para as grandes questões levantadas pela revolução soviética, movendo-se com cuidado dentro do partido, e evitando expressamente fazer actividades de facção. Foram os acontecimentos de Abril, na sua clareza exemplar, que mudaram radicalmente a situação, e impuseram uma aceleração substancial no processo de nascimento do Partido Comunista.

Na primavera seguinte os industriais, nessa altura já ansiosos de acabar com a a dualidade de poder existente nas fábricas, decidiram passar à contra-ofensiva: um facto bastante fortuito como foi a introdução da hora legal proporcionou uma oportunidade para o confronto, que não deixaram escapar. Era a manhã de 22 de Março, quando nas Indústrias Metalúrgicas Fiat o director fez mover os ponteiros do relógio para o horário legal; os membros da Comissão Interna imediatamente correram para restaurar o horário anterior, esta acção foi punida com demissão. Obviamente, o choque não diz respeito ao horário legal, mas ao papel dos Conselhos, na sua capacidade de constituir e funcionar como órgão de direcção da fábrica.

Começava desta forma uma longa disputa que ficou conhecido como “a greve dos ponteiros”, da qual nos parece inútil refazer aqui toda a história em cada detalhe. Basta lembrar que a luta, que foi lançada no final de Março pelo proletariado industrial Turim, a 14 de Abril alargou a toda a região de Piedmont com a proclamação da greve geral, o que levou ao campo de batalha não menos de 500 mil trabalhadores, envolvendo jornaleiros, tipógrafos, trabalhadores ferroviários , funcionários municipais, aprendizes de oficina, etc.

A mobilização imponente, com duração de uma semana, foi para ordinovistas o clímax da sua acção de massas, mas ao mesmo tempo evidenciou de maneira clamorosa as contradições existentes dentro do movimento operário. O Partido Socialista e a CGL oposurem-se às exigências do grupo gramsciano de estender a luta e de dar-lhe uma saída revolucionária: os camaradas do grupo Ordine Nuovo compreendem então o seu isolamento no partido e a sua falta de coordenação a nível nacional, de modo que seus oponentes reformistas e centristas controlavam a situação com o jogo fácil de acusá-los de “aventureiros irresponsáveis”, e deixá-los sozinhos num momento em que seria mais necessário que nunca unir forças à escala nacional, como fazia a contraparte patronal com estratégia perspicaz.

A greve dos ponteiros salda-se com uma derrota substancial da classe operária. Gramsci vai definir mais tarde esses dias como a “Cisão de Abril”, para marcar a diferença, com todo o seu dramatismo, entre a ala revolucionária reunida em torno do grupo Ordine Nuovo e a liderança do PSI. Mas outros eventos de importância histórica ainda estavam a amadurecer, antes ainda de se chegar finalmente à fundação do Partido Comunista.

Outro confronto de facto esperava a classe operária, que com o bloqueio da Romeo tomada em 30 de Agosto, e o posterior encerramento das principais fábricas, decidiu reunir-se com a ocupação das fábricas. Este foi um evento que mais tarde será considerado como o ponto de maior tensão revolucionária de todo o biénio vermelho (biennio rosso), embora não tenha representado o momento mais heróico, aquele de maior combatividade subjectiva exercida pelo proletariado, em um contexto sócio-político que entretanto estava se tornando cada vez mais difícil para as forças revolucionárias. A burguesia capitalista se estava a reorganizar rapidamente, e a luta de classes teve lugar no terreno em que tinha sido conscientemente determinada: foram os industriais de facto a procurar o conflicto boicotando inicialmente as negociações com os sindicatos e, em seguida, anunciando o encerramento que forçou os líderes da FIOM a aceitar um desafio para o qual em nenhum modo se tinham preparado.

De 30 de Agosto a 4 de Setembro, no entanto, 500 mil metalúrgicos ocuparam as fábricas em Milão, Roma, Turim, Bolonha, Génova, Florença e Nápoles, com uma mobilização quase total no Norte e com apêndices que alastraram até à Sicília. Os operários ocuparam as fábricas, com disciplina absoluta, assumiram o controlo total da produção, começaram a criar grupos de guardas vermelhos, e em alguns casos começaram a fabricação de armas, enquanto o governo de Giolitti aguardava a evolução da situação, sem que ocorressem intervenções de despejo que levariam a um conflito militar.

Mais uma vez, à semelhança do que aconteceu em Abril, os sindicatos e o partido socialista se recusaram a dar à luta de uma linha directiva revolucionária. Em uma atmosfera de grande tensão veio a convocação da Assembleia Geral do proletariado, realizada em Milão em 9 e 10 de Setembro, em que uma moção pedindo a extensão da greve a todos os estabelecimentos industriais e às zonas rurais foi rejeitada pela assembleia. Se disse de forma sarcástica que “a revolução foi submetida a votos” e saiu derrotada. E assim saíram os operários derrotados das oficinas, no final da última grande batalha de alguns meses que antedeu a explosão do movimento fascista.

A necessidade de um partido revolucionário

Neste ponto, é importante tentar um balanço da experiência Conselhista, destacando tanto os seus méritos indiscutíveis como as suas debilidades estruturais: em primeiro lugar o de não ser capaz de ir além do âmbito localista, o de não ter sido capaz de expandir as lutas e organizar, coordenar e disciplinar-las a um nível nacional. Precisamente a razão de ser expressão e guia de um movimento ao invés de uma estrutura partidária, efectivamente impediu o grupo gramsciano de elaborar uma estratégia revolucionária clara e de “equipar-se” praticamente para a conquista do poder – limites, estes, intrínsecos a todas as práticas movimentistas, tanto no passado como hoje.

Mas pouco tempo ainda tinha passado da greve dos ponteiros e o próprio Gramsci não deixou de salientar impiedosamente que:

“Todo o desdobramento do movimento havia demonstrado que na Itália não existem energias revolucionárias organizadas capazes de centralizar um movimento vasto e profundo, capaz de dar substância política para uma reviravolta irresistível e poderosa da classe oprimida, capaz de criar um estado e impor uma dinamismo revolucionário “(l’Ordine Nuovo, 8 de Maio de 1920).

E, novamente, no primeiro aniversário da ocupação das fábricas, um Gramsci que tinha assimilado completamente a lição leninista declarou que:

“Naqueles dias, nós adquirimos, talvez tarde demais, a convicção precisa e cortante da necessidade da divisão (…) estávamos convencidos da necessidade de um partido nacional para que a revolução proletária tenha um mínimo de boas probabilidades de sucesso (…) a necessidade do partido político, altamente organizado e centralizado. Precisamente porque o partido socialista é responsável pela revolução fracassada, por isso mesmo, deve existir um partido que coloque a sua organização nacional ao serviço da revolução proletária, que vai preparar com a discussão e com disciplina férrea os homens capazes, que sabem prever, que não conhecem hesitações e indecisões ” (l’Ordine Nuovo, 20 de Setembro 1921).

Entretanto, em 21 de Janeiro de 1921 nasceu em Livorno o Partido Comunista da Itália. Mas agora a onda revolucionária tinha quebrado nas rochas do reformismo e do maximalismo estéril e o núcleo de camaradas reunidos no novo partido já nada podiam fazer para parar a reacção fascista. Se abria no nosso país o tempo da barbárie, a “ditadura terrorista aberta” da burguesia.

di Alessandro Franceschetti

[*] http://www.resistenze.org/sito/te/cu/st/cust9c19-004667.htm

https://it.wikipedia.org/wiki/Internazionale_Comunista#I_21_punti

Fonte: Critica Proletaria

Sobre os Conselhos de Fábrica e o grupo Ordine Nuovo – parte 1

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10 de maio de 2016

Este artigo tem como objectivo apresentar uma reflexão sobre o papel desempenhado pelo grupo Ordine Nuovo na constituição e no desenvolvimento dos Conselhos de fábrica, de seguir as lutas do proletariado de Turim durante o biénio vermelho e para mostrar como a ausência de um partido revolucionário foi a principal causa do que foi a trágica derrota dos operários que efectivamente abriu o caminho para a reacção fascista.

O grupo Ordine Nuovo e os Conselhos de fábrica

E então: é 1 de maio de 1919, quando, em Turim, a cidade mais industrial da Itália, lar de um moderno proletariado de fábrica homogéneo e qualificado, que por consciência política e combatividade está na vanguarda de toda a classe trabalhadora, nasce a primeira edição de “revista semanal de cultura socialista”: a “Nova Ordem” (Ordine Nuovo em italiano). Os fundadores da revista são jovens militantes descontentes com o debate político interno no Partido Socialista Italiano (PSI), formado nos anos da Primeira Guerra Mundial, e forjados pelo levante popular de 1917: entre eles, os líderes mais relevantes são Antonio Gramsci, Palmiro Togliatti, Umberto Terracini e Angelo Tasca, que gradualmente vão sendo acompanhados por jornalistas, operários, técnicos, estudantes e empregados.

Agora, qual é a especificidade que caracteriza o l’Ordine Nuovo? Como observará Gramsci no ano seguinte, com a severidade e o espírito de auto-crítica próprio de um revolucionário, os primeiros números da revista, nitidamente marcados pelas configurações desejadas por Tasca, tiveram o carácter quase de uma antologia, «uma resenha de cultura abstracta, de informação abstracta (…) o produto de um intelectualismo medíocre, que (desordenadamente) estava à procura de um lugar de aterragem real e de uma via para a acção» (Gramsci, L’Ordine Nuovo, 14 de Agosto de 1920). Mas logo logo, em contacto com a realidade do proletariado Turim e com a luta de classes que se estava exacerbar até chegar aos motins sangrentos por causa do alto custo de vida em julho, o carácter da revista mudou dramaticamente abrindo-se um estudo verdadeiramente concreto e dialéctico da realidade e encontrando o tema central em torno do qual concentra os esforços de desenvolvimento teórico e de organização política: «o problema do desenvolvimento da Comissão Interna – como escreve então Gramsci – tornou-se a questão central, tornou-se a ideia do Ordine Nuovo; isso foi colocado como um problema fundamental da revolução operária; era o problema da liberdade proletária. O “Nova Ordem” tornou-se, para nós e para aqueles que nos seguem, o jornal dos Conselhos de Fábrica» (Gramsci, L’Ordine Nuovo, 14 de Agosto de 1920).

No mesmo período de tempo os proletários das fábricas de Turim, enfurecidos pela inércia substancial do sindicato e pela sua colaboração activa com as instituições burguesas, decidiram ir para a ofensiva: ao início de Agosto os trabalhadores da Fiat Centro removeram a antiga Comissão Interna e elegeram uma nova completamente renovada, com um gesto de rebelião aberta contra a CGL. Estamos ainda numa fase em tudo embrionária, o primeiro passo do processo de formação que levará à criação de Conselhos de fábrica, uma organização revolucionária que se destinava a ser, com as adaptações devidas à realidade nacional, os Sovietes na versão italiana. Mas o que é importante notar é que a partir de agora as lutas de fábrica e análises dos ordinovistas avançavam lado a lado, enriquecendo-se reciprocamente em um intercâmbio contínuo entre teoria e prática, assim como para conduzir o proletariado ao maior nível de consciência e para concretizar as elaborações de jovens intelectuais reunidos em torno da revista, colocando-os imediatamente ao serviço da classe operária e da luta revolucionária.

Mas o que são, em última análise, os Conselhos de fábrica? Como se distinguem eles substancialmente dos antigos representantes sindicais? E qual é a sua função atribuída pelo grupo Ordine Nuovo? Vamos deixar que seja o próprio Gramsci a ilustrar o carácter e potencial destes organismos sociais, que operacionalmente se destacaram dos seus antecedentes pelo fato de superarem a divisão corporativa das categorias profissionais, sendo uma emanação directa dos trabalhadores, e tornando também possível a participação eleitoral de membros não-sindicalizados, a fim de estender a sua influência sobre eles também.

Aqui está o que Gramsci escreve em um manuscrito do Ordine Nuovo dirigio aos comissários do departamento das oficinas da Fiat Centro e Patentes (Ordine Nuovo de 13 de Setembro de 1919):

«… Se é verdade que a nova sociedade será baseada no trabalho e na coordenação das energias dos produtores, os lugares onde se trabalha, onde os produtores vivem e trabalham em comum, amanhã serão os centros do organismo social e devem tomar o lugar dos órgãos dirigentes da sociedade de hoje. (…) As massas operárias devem preparar-se efectivamente para adquirir o completo domínio de si mesmas e o primeiro passo neste caminho encontra-se no seu equilíbrio em disciplinar-se, na oficina, de forma autónoma, espontânea e livre.»

Estamos diante de formulações ainda bastante genéricas, que melhor irão se especificar durante a evolução histórica e prática dos Conselhos mas a partir das quais já é possível deduzir o carácter peculiar desta instituição operária: prefigurar como a célula da futura sociedade comunista, o primeiro lugar concreto a dar vida a uma nova e mais elevada forma de civilização.

di Alessandro Franceschetti

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[*] http://www.resistenze.org/sito/te/cu/st/cust9c19-004667.htm

https://it.wikipedia.org/wiki/Internazionale_Comunista#I_21_punti

Fonte: Critica Proletaria

A política do Partido Comunista recusar a participação num governo burguês (parte 3)

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De Aleka Papariga
Publicado na Revista Comunista de 2013, número 2
Tradução para Inglês: Lenin Reloaded

(…) Os antagonismos entre os modelos de gestão liberal e o keynesiano já foram testados ao longo do século XX.

A alteração entre o modelo de gestão económica liberal e o keynesiano trouxe, ao longo do século XX, ciclos de crise económica, intensificou as contradições intra-burguesas e as contradições inter-imperialistas e levou a duas guerras mundiais.

No período 1989-1991, o oportunismo rejeitou o marxismo-leninismo. Ele aplaudiu a vitória da contra-revolução e, na verdade proclamou que a humanidade agora vai entrar no caminho da democracia e da paz. Hoje, quando o capitalismo tem sido desmistificado aos olhos dos povos, quando a UE tem desmentido as expectativas de milhões de trabalhadores na Europa, os oportunistas aparecem como acusadores do KKE e da sua recusa em participar no governo, argumentando que nos recusamos seguir a doutrina leninista, as directivas da Internacional Comunista, etc.

Deixem-me abrir aqui um parêntesis. Devemos sublinhar que o nosso partido, tendo estudado a sua própria história e a história do movimento comunista internacional, posiciona-se criticamente em relação a velhas abordagens equivocadas e tira conclusões a partir delas. Assim, após a decisão do 18º Congresso do KKE temos avaliado, por exemplo, que o 20º Congresso do PCUS (Fevereiro de 1956) e sua tese sobre a “diversidade de caminhos de transição para o socialismo sob certas condições prévias”, a sua posição , como também na “coexistência pacífica” que tinha sido relacionada com a possibilidade de uma transição parlamentar para o socialismo na Europa, era uma estratégia que tinha preexistido em alguns PCs e que dominou outros eventualmente. Esta posição era essencialmente uma revisão das conclusões extraídas da experiência revolucionária soviética e constitui uma estratégia reformista e social-democrata.

Os antagonismos entre Estados capitalistas, que naturalmente continham o elemento de dependência, como acontece na pirâmide imperialista, não foram devidamente analisados. O que predominou foi a visão equivocada de que havia uma relação de “sujeição e dependência” de cada Estado capitalista aos EUA. Como resultado, o que foi adoptado foi a estratégia de “governo anti-monopólio”, uma forma de etapa entre capitalismo e socialismo, da qual se esperava que resolvesse os problemas de “dependência” em relação aos EUA. Assim os PCs escolheram uma política de alianças também com forças burguesas – aquelas caracterizadas como tendo “consciência nacional” em oposição às chamadas elites “compradoras”.

A postura de muitos PCs em relação à social-democracia também foi integrada dentro desta estratégia. Os PCs foram dominados por uma suposição equivocada de que a social-democracia se dividia em uma ala “esquerda” e uma ala “direita”, algo que enfraqueceu drasticamente a frente contra ela. Em nome da unidade da classe trabalhadora (que tinha como objectivo a criação de governos de coligação com a social-democracia ou com uma parte dela), os PCs fizeram concessões ideológicas e políticas graves. Enquanto isso as proclamações de unidade por parte da social-democracia não visavam derrubar o sistema capitalista mas sim retirar a classe trabalhadora da influência das ideias comunistas e a alienação da sua consciência.

Temos de reconhecer que o nosso partido, o KKE, foi durante muito tempo orientado para abordagens estratégicas semelhantes, abordagens que historicamente não estavam justificadas. A estratégia do PC que tinha como objectivo, dentro dos estados capitalistas avançados, a criação – com base no Parlamento – de um governo parlamentar anti-monopólio, a estratégia que viu a passagem para o socialismo como um alargamento da democracia burguesa e da propriedade estatal das empresas, as grandes  as grandes percentagens eleitorais de PCs em França e Itália e a sua participação nos governos burgueses de “centro-esquerda” membros da UE, não só não conseguiu alterar substancialmente a correlação de forças, mas reforçou ainda mais o desvio oportunista e o encolhimento das forças comunistas em toda a Europa.

A táctica dos oportunistas é reintroduzir a estratégia ultrapassada e equivocada das etapas, de fato postulando como uma primeira fase, a saída da crise no caminho do desenvolvimento capitalista e a incorporação à UE e à NATO. O programa que é promovido por eles defende um capitalismo que não vai ser muito injusto, um capitalismo sem decadência e parasitismo, um capitalismo “mais humano” que irá resolver conflitos internacionais, ou seja, a concorrência intra-imperialista, através da negociação política e meios pacíficos!

O deslocamento entre política e economia é um aspecto provocador das posições dos oportunistas. Eles argumentam que o Estado burguês pode se tornar um Estado social para todas as pessoas. O que também é provocativa é a sua interpretação do imperialismo. Para eles, o imperialismo na Europa é simplesmente a Alemanha, na América Latina são os EUA. Eles rejeitam a essência económica do imperialismo, que é a exportação de capital, a concentração de capital na forma de propriedade capitalista por acções e os monopólios. E, claro, eles não vêem o imperialismo como o capitalismo monopolista, como a fase superior do capitalismo. Eles transferem mecanicamente para as circunstâncias contemporâneas o período do colonialismo, argumentando que a Grécia e todos os países em uma posição média e baixa no sistema imperialista transformaram-se em colónias [todas estas sãos posições da “plataforma de esquerda”, principalmente]. Eles acusam a burguesia de não ser patriótica o suficiente, argumentando que é a sua covardia que a faz ceder competências (jurisdição) aos centros de decisão, como a Comissão Europeia. Eles dividem a burguesia em uma secção produtiva e uma secção parasitária, em capitalistas saudáveis e imorais. A sua crítica ao capitalismo é essencialmente moralista, eles não fazem qualquer referência às relações de produção capitalistas.

They attack the KKE using fragments and phrases from Marx and Lenin, which they decontextualize from specific conditions, in order to justify the policy of stages, the minimum program, the support for reform against revolution.

Eles atacam o KKE usando fragmentos e frases de Marx e Lenin, que descontextualizam de condições específicas, a fim de justificar a política de etapas, o programa mínimo e o apoio à reforma contra a revolução.

 

They pretend not to understand that in the era of bourgeois revolutions, the first duty posited by Marx and Engels, while the working class still did not have its own party, was the distinction of the working class from the revolutionary mass of the bourgeois, the petty bourgeois and the farmers. Even in the conditions of the realization of bourgeois revolution, Marx and Engels argued that the working class must come forth to the foreground and obtain consciousness of itself.

The opportunists obscure the great Leninist legacy which posits that working-class victory, the victory of the exploited people, and even the intensification of class struggle are unthinkable without a relentless and uncompromising struggle against opportunism. They obscure the fact that the content of struggle in conditions of development for the bourgeois revolution was different than it is today, at an age of transition from capitalism to socialism under the highest stage of capitalism.

They arbitrarily use Lenin’s estimation, in his well-known work Imperialism, the highest stage of capitalism, that only a handful, a very small number of states rob the great majority of the nations of the earth. According to this view imperialism is identified with a very small number of countries, to be counted on the fingers of one hand, while all the other countries are subject, oppressed, colonies, conquered territory.

Today too, the countries at the top, in the top ranks of the imperialist pyramid, are only a few, one might even say they are still a handful of nations. But this doesn’t mean that other capitalist states are their victims, that they are subject, it doesn’t mean that the line of struggle for the peoples needs to have an anti-German direction in Europe or exclusively an anti-US direction in the American continent. It’s not accidental that the opportunists foreground as positive examples for coping with the crisis Brazil and Argentina, while also praising Obama’s policy.

Fonte: In defence of greek workers