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Traduction: À propos du concept de “DÉMOCRATIE AVANCÉE”

Sobre o conceito de “DEMOCRACIA AVANÇADA”

À propos du concept de “DÉMOCRATIE AVANCÉE”

M.E.L. – Source: Pelo Socialismo ( Parte )

“Vulgarmente, o conceito de democracia é empregado para designar uma forma de regime político do sistema capitalista, em que existe o direito de voto, um determinado grau de liberdade de expressão, de organização, de manifestação, mas em que o poder do Estado ao serviço dos monopólios está previamente assegurado – esta é apenas a democracia burguesa, ou a ditadura da burguesia, uma minoria, sobre a maioria dos produtores.

“Généralement, le concept de démocratie est utilisé pour désigner une forme de régime politique du système capitaliste, où il y a un droit de vote, un certain degré (grade) de liberté d’expression, d’organisation, de manifestation, mais où le pouvoir d’Etat au service des monopoles est déjà assurée – ce n’est que la démocratie bourgeoise, ou la dictature de la bourgeoisie, une minorité, sur la plupart des producteurs.

A democracia proletária chama-se ditadura do proletariado, isto é, os trabalhadores e os seus aliados exercem o poder através do Estado proletário, governam para a imensa maioria e reprimem os exploradores e opressores da sua classe.

La démocratie prolétarienne s’appelle la dictature du prolétariat, c’est-à-dire que les travailleurs et leurs alliés exercent le pouvoir à travers l’État prolétarien, gouvernent pour la grande majorité et répriment les exploiteurs et les oppresseurs de leur classe.

Não é no quadro da legalidade determinada pela burguesia que se pode passar de uma para a outra – é necessário o emprego da força organizada da classe operária e dos seus aliados. Por isso, a importância da clarificação do conceito de “democracia avançada”. Se não implica uma mudança da classe no poder, se não implica a modificação das relações de produção na sociedade, só pode ser considerada como reforma do sistema capitalista e não a sua superação.

Ce n’est pas dans le cadre de la légalité déterminée par la bourgeoisie que l’on peut passer de l’un à l’autre: il faut employer la force organisée de la classe ouvrière et de ses alliés. Donc c’est très important de clarifier le concept de «démocratie avancée». Si elle n’implique pas un changement de la classe au pouvoir, si elle n’implique pas la modification des rapports de production dans la société, elle ne peut être considéré plus que une réforme du système capitaliste et non comme le dépassement du capitalisme.

Lenine refere esta questão do seguinte modo: «A não ser para troçar do senso comum e da história, é claro que não se pode falar de “democracia pura” enquanto existirem classes diferentes, pode-se falar apenas de democracia de classe. […] A “democracia pura” é uma frase mentirosa de liberal que procura enganar os operários. A história conhece a democracia burguesa, que vem substituir o feudalismo, e a democracia proletária, que vem substituir a burguesa»”

Lénine se réfère ainsi à cette question: «Sauf pour se moquer du bon sens et de l’histoire, il est clair qu’on ne peut parler de « démocratie pure» tant qu’il y a des classes différentes, on ne peut parler que de démocratie de classe. […] “La démocratie pure” est une expression libérale mensongère qui cherche à tromper les travailleurs. L’histoire connaît la démocratie bourgeoise, qui doit remplacer le féodalisme, et la démocratie prolétarienne, qui doit remplacer la bourgeoisie “.

1
Antecedentes

Contexte (antécédents)

A “Democracia Avançada”, como “programa” de um partido comunista, havia sido adotada pelo Partido Comunista Francês, numa Conferência realizada em 5 e 6 de dezembro de 1968 (recorde-se a agitação do maio desse ano, em Paris). Foi o “Manifesto do PCF – Por uma democracia avançada para uma França socialista” 1 , também conhecido por Manifesto de Champigny, local onde se realizou a Conferência. Este documento tem 10 capítulos, com uma introdução inicial:

La «démocratie avancée», en tant que «programme» d’un parti communiste, avait été adoptée par le parti communiste français lors d’une conférence tenue les 5 et 6 décembre 1968 (rappelons les troubles du mois de mai à Paris). C’était le «Manifeste du PCF – Vers une démocratie avancée pour une France socialiste» [1], également connu sous le nom de Manifeste de Champigny, où se tenait la Conférence. Ce document comporte 10 chapitres, avec une introduction initiale:

Introdução;

I – Por uma vasta aliança de todas as camadas sociais vítimas dos monopólios e do seu poder;

II – O que é uma democracia avançada?;

III – O socialismo também para a França:

IV – A passagem ao socialismo;

V – O que é o socialismo?;

VI – O papel dirigente da classe operária;

VII – O Partido Comunista e o seu papel de vanguarda;

VIII – A cooperação dos partidos e formações democráticos na construção do socialismo;

IX – Democracia socialista e defesa do socialismo;

X – O Partido Comunista é o grande partido revolucionário do nosso tempo.

Introduction

I – Par une vaste alliance de toutes les couches sociales victimes des monopoles et de leur pouvoir;

II – Qu’est-ce qu’une démocratie avancée?

III – Le socialisme aussi pour la France:

IV – La transition vers le socialisme

V – Qu’est-ce que le socialisme?

VI – Le rôle principal de la classe ouvrière;

VII – Le Parti communiste et son rôle d’avant-garde

VIII – La coopération des partis et formations démocratiques dans la construction du socialisme;

IX – La démocratie socialiste et la défense du socialisme;

X – Le Parti communiste est le grand parti révolutionnaire de notre temps.

Refere-se na “Nota dos Editores” do sítio pelosocialismo.net, na publicação do Manifesto de Champigny 2:

«A democracia avançada era concebida como uma formação política e econômica entre o socialismo e o capitalismo em que a progressiva transformação das estruturas econômicas pela nacionalização dos setores monopolistas abriria o caminho ao socialismo sem um confronto revolucionário mais ou menos intenso entre as principais classes antagônicas. Essa tese correspondia a uma espécie de ressurgimento da teoria da “transformação pacífica do capitalismo em socialismo” e da “democracia, criação contínua”, defendida anteriormente por Jean Jaurès e comum a Bernstein, que Lenine refutou implacavelmente. O Manifesto de Champigny passa ao lado da teoria marxista-leninista do Estado, não define a sua natureza na “democracia avançada” – se é burguês ou proletário com os seus aliados – nem clarifica qual o modo de passagem e qual a natureza das estruturas políticas que asseguram o domínio das classes exploradoras para as estruturas politicas que servem a defesa dos interesses das classes e camadas exploradas».

 

Il est mentionné dans la “Note des rédacteurs” du site pelosocialismo.net, dans la publication du Manifeste de Champigny [2]:

« La démocratie avancée a été conçu comme une formation politique et économique entre le socialisme et le capitalisme dans la transformation progressive des structures économiques pour la nationalisation des secteurs monopolistiques ouvrirait la voie vers le socialisme sans une confrontation révolutionnaire plus ou moins intense entre les principales classes antagonistes. Cette thèse est élevée à une sorte de renaissance de la théorie de la « transformation pacifique du capitalisme dans le socialisme » et « la démocratie, la création continue » prônée auparavant par Jean Jaurès et commune à Bernstein, que Lénine a réfuté (implacablement) sans relâche. 

Le Manifeste de Champigny, aux côtés de la théorie de l’État marxiste-léniniste, ne définit pas sa nature dans la «démocratie avancée» – qu’il soit bourgeois ou prolétarien avec ses alliés – ni le mode de passage et la nature des structures politiques qui assurent la transition du domaine des classes exploiteuses vers les structures politiques qui servant à défendre les intérêts des classes et des strates exploitées.

O Manifesto surge na sequência de 2 acordos com o PS francês, concluídos em dezembro de 1966 e em fevereiro de 1968.

Le Manifeste apparaît après deux accords avec le PS français, conclus en décembre 1966 et en février 1968.

O Manifesto entende que a luta por uma democracia avançada reduziria a força do capitalismo/monopólios, que seriam obrigados – de forma pacífica, sem reagir – a ceder/em as suas posições. Isto porque deixariam de poder recorrer (!!?!!) à força 3. Embora antes tenham admitido que, havendo violência contra o povo se possa encarar “a passagem ao socialismo por métodos não pacíficos”4, logo acrescentam que os comunistas franceses orientam a sua atividade para a passagem pacífica ao socialismo 5. E invocavam as Declarações dos Partidos Comunistas de 1957 e 1960, posteriores ao XX Congresso do PCUS e à viragem reformista (teórica e prática) que introduziu no Movimento Comunista Internacional (MCI) 6.

Le Manifeste comprend que la lutte pour une démocratie avancée réduirait la force du capitalisme / des monopoles, qui seraient obligés – d’une manière pacifique et sans réaction – de céder leurs positions. C’est parce qu’ils ne pourraient plus recourir (!!?!!) à la force [3]. Bien qu’ils aient précédemment admis que la violence contre le peuple pouvait être confrontée à «la transition vers le socialisme par des méthodes non pacifiques» [4], ils ajoutent que les communistes français guide leur activité pour la transition pacifique au socialisme [5]. Ils ont invoqué les déclarations des partis communistes de 1957 et 1960, après le 20ème Congrès du PCUS et le changement réformiste (théorique et pratique) qu’il a introduit dans le Mouvement Communiste International (MCI) [6].

Note-se que, apesar de tudo, o Manifesto exigia o desaparecimento simultâneo da NATO e do Pacto de Varsóvia e que a França não renovasse os seus compromissos com a NATO “no prazo posterior a 1969” 7.

Il faut noter que, malgré tout, le Manifeste exigeait la disparition simultanée de l’OTAN et du Pacte de Varsovie et que la France ne devait pas renouveler ses engagements envers l’OTAN “dans la période après 1969” [7].

2

Adoção da DA como Programa do PCP

Adoption de la DA en tant que programme du PCP

O conceito de DA defendido no Programa do PCP não sofreu qualquer alteração essencial nas alterações de 1992 e 2012: contém cinco componentes ou objetivos fundamentais (eram 6 em 1988, mas 2 foram fundidos, em 1992); e refere que a luta pela concretização dessas cinco componentes e a luta com objetivos imediatos “são parte constitutiva da luta pelo socialismo” 8.

Le concept de DA préconisé dans le programme du PCP n’a pas eu de changement majeur dans les amendements de 1992 et 2012: il contient cinq composantes ou objectifs clés (6 en 1988, mais 2 ont été fusionnés en 1992); et souligne que la lutte pour la réalisation de ces cinq composantes et la lutte avec des objectifs immédiats “sont une partie constitutive de la lutte pour le socialisme” [8].

Sendo parte constitutiva da luta pelo socialismo – no P. é organicamente apresentada como uma “etapa” para o socialismo –, poderá concluir-se que a DA não é o socialismo, a ditadura do proletariado, uma vez que está ausente a necessária mudança da classe no poder.

Étant une partie constitutive de la lutte pour le socialisme – dans le P. est présenté organiquement comme une «scène» pour le socialisme -, on peut conclure que la DA n’est pas le socialisme, la dictature du prolétariat, car il n’y a pas de changement nécessaire du classe au pouvoir.

De facto, não é possível encontrar em todo o programa da DA uma posição clara sobre a natureza do Estado onde ele seria realizável: Estado burguês/capitalismo ou Estado proletário/socialismo.

En fait, il n’est pas possible de trouver dans l’ensemble du programme de la DA une position claire sur la nature de l’état où il serait possible de le faire: état bourgeois / capitalisme ou état prolétarien / socialisme.

Na concepção marxista-leninista, não se tratando de socialismo, será, forçosamente, ou capitalismo/ditadura da burguesia, ou a revolução. Com efeito, escreveu Lenine: “O grau transitório entre o Estado, órgão de dominação da classe dos capitalistas, e o Estado, órgão de dominação do proletariado, é precisamente a revolução, que consiste em derrubar a burguesia e quebrar, destruir a sua máquina de Estado (…). Que a ditadura da burguesia deve ser substituída pela ditadura de uma classe, do proletariado, que aos «graus transitórios» da revolução se seguirão os «graus transitórios» da extinção gradual do Estado proletário…” (realce nosso) 9.

Dans la conception marxiste-léniniste, ce n’est pas le socialisme, ce sera nécessairement le capitalisme / la dictature de la bourgeoisie ou la révolution. En effet, Lénine écrit: “Le degré de transition entre l’Etat, organe de domination de la classe des capitalistes, et l’Etat, organe de domination du prolétariat, est précisément la révolution qui consiste à renverser la bourgeoisie et à la briser, détruire sa machine d’Etat (…). Que la dictature de la bourgeoisie doit être remplacée par la dictature d’une classe, du prolétariat, que les «degrés de transition» de la révolution suivront les «degrés de transition» de l’extinction progressive de l’État prolétarien … »(italique ajouté) [9].

De outra forma, está a conceber-se um sistema socioeconômico entre o capitalismo e o socialismo, que não tem nada de a ver com aquela concepção científica. Neste caso, tratar-se-ia de uma tática de passar para segundo plano a luta pelo socialismo, tentando alcançar a adesão de massas despolitizadas e/ou anticomunistas com “perspetivas políticas atraentes”, mas que se sabe serem impossíveis – dito de forma crua, está a enganar-se os trabalhadores e o povo.

Sinon, un système socio-économique est conçu entre le capitalisme et le socialisme, ce qui n’a rien à voir avec cette conception scientifique. Dans ce cas, ce serait une tactique de remettre la lutte pour le socialisme en arrière-plan, essayant d’atteindre l’adhésion des masses dépolitisées et / ou anti-communistes avec des “perspectives politiques attrayantes”, mais qui sont connues pour être impossibles – dit brutalement , les travailleurs et les gens sont trompés.

Mas que não é socialismo parece resultar da afirmação de que a DA é uma parte constitutiva da luta pelo socialismo. Assim, não se defendendo no Programa que a DA é a revolução, e partindo do princípio de que não se estão a enganar os trabalhadores e o povo, a DA será para concretizar em capitalismo. Se assim é, algumas questões se colocam de imediato:

Mais ce qui n’est pas le socialisme semble résulter de l’affirmation selon laquelle la DA serait une partie constitutive de la lutte pour le socialisme. Ainsi, puisqu’il n’est pas défendu dans le Programme que la DA est la révolution, et en supposant que les travailleurs et le peuple ne sont pas trompés, la DA sera matérialisé dans le capitalisme. Si oui, certaines questions se posent immédiatement:

1. É possível em capitalismo – hoje, na sua fase superior, o imperialismo – alcançar os cinco componentes ou objetivos fundamentais enunciados?

1. Est-il possible dans le capitalisme – aujourd’hui, à son stade le plus élevé, l’impérialisme – d’atteindre les cinq composantes ou objectifs fondamentaux énoncés?

2. Não haverá uma contradição entre uma sociedade capitalista, na sua fase imperialista, ser “liberta do domínio dos monopólios”, como se propugna no segundo objetivo fundamental, sem se libertar do capitalismo como sistema de produção? – e mesmo que fosse possível regredir à época pré-monopolista (uma posição reacionária), a evolução do capitalismo não levaria de novo ao imperialismo?

2. N’y a-t-il pas contradiction entre une société capitaliste, dans sa phase impérialiste, «libérée de la domination des monopoles» préconisée dans le second objectif fondamental, sans se libérer du capitalisme comme système de production? – et même s’il était possible de régresser jusqu’à l’ère pré-monopoliste (une position réactionnaire), l’évolution du capitalisme ne conduirait-elle pas à l’impérialisme à nouveau?

3. E libertar o país do domínio dos monopólios não imporia, pelo menos, defender a saída de Portugal das associações imperialistas e militaristas, designadamente da UE e da NATO? – no programa da DA não consta nenhuma destas exigências, apesar da retórica usada em relação a estas duas organizações imperialistas devesse levar a essa conclusão.

3. Et pour libérer le pays de la domination des monopoles, ne faudrait-il pas, au moins, défendre le départ du Portugal des associations impérialistes et militaristes, en particulier de l’UE et de l’OTAN? – dans le programme de la DA, il n’y a aucune de ces exigences, bien que la rhétorique utilisée par rapport à ces deux organisations impérialistes devrait conduire à cette conclusion.

Note-se também que o conceito de democracia não é usado numa perspetiva marxista-leninista, como uma democracia de classe, antes a referenciando como tendo um valor intrínseco.

Il convient également de noter que le concept de démocratie n’est pas utilisé dans une perspective marxiste-léniniste, en tant que démocratie de classe, mais plutôt en tant que valeur intrinsèque.

De facto, sublinhemo-lo de novo, o determinante em relação à democracia é saber a quem essa democracia beneficia – qual é a classe cujo domínio é assegurado pelo Estado. Esse Estado assegura a manutenção das relações de produção dominantes e é definido por elas. As expressões, e os respetivos conteúdos, “democracia” e “regime democrático” não podem, de um ponto de vista marxista-leninista, ser utilizadas de forma abstrata, sem o seu conteúdo de classe, porque na ideologia burguesa a “democracia”, que parece ser uma igualdade para todos, é objetivamente o domínio da maioria explorada por uma minoria exploradora.

En fait, soulignons encore, le déterminant par rapport à la démocratie est de savoir à qui profite cette démocratie – qui est la classe dont la domination est assurée par l’État. Cet État assure le maintien des relations dominantes de production et est défini par eux. Les expressions et leurs contenus, “démocratie” et “régime démocratique” ne peuvent pas être utilisés de façon marxiste-léniniste, de manière abstraite, sans leur contenu de classe, parce que dans l’idéologie bourgeoise “démocratie” qui semble être une égalité pour tous, est objectivement le domaine de la majorité exploitée par une minorité exploitante.

A exigência da democracia no fascismo era uma palavra de ordem que apontava para o derrubamento da ditadura mais feroz do capital, para a conquista das liberdades burguesas (de expressão, organização, manifestação etc.), que também eram imprescindíveis para o proletariado desenvolver a sua luta. O fascismo foi derrotado, e hoje, num quadro mundial extremamente complexo, em que a luta de classes se encontra agudizada de forma inaudita, a luta do proletariado exige uma definição de classe do conceito de democracia.

Vulgarmente, o conceito de democracia é empregado para designar uma forma de regime político do sistema capitalista, em que existe o direito de voto, um determinado grau de liberdade de expressão, de organização, de manifestação, mas em que o poder do Estado ao serviço dos monopólios está previamente assegurado – esta é apenas a democracia burguesa, ou a ditadura da burguesia, uma minoria, sobre a maioria dos produtores.

A democracia proletária chama-se ditadura do proletariado, isto é, os trabalhadores e os seus aliados exercem o poder através do Estado proletário, governam para a imensa maioria e reprimem os exploradores e opressores da sua classe.

Não é no quadro da legalidade determinada pela burguesia que se pode passar de uma para a outra – é necessário o emprego da força organizada da classe operária e dos seus aliados. Por isso, a importância da clarificação do conceito de “democracia avançada”. Se não implica uma mudança da classe no poder, se não implica a modificação das relações de produção na sociedade, só pode ser considerada como reforma do sistema capitalista e não a sua superação.

Lenine refere esta questão do seguinte modo: «A não ser para troçar do senso comum e da história, é claro que não se pode falar de “democracia pura” enquanto existirem classes diferentes, pode-se falar apenas de democracia de classe. […] A “democracia pura” é uma frase mentirosa de liberal que procura enganar os operários. A história conhece a democracia burguesa, que vem substituir o feudalismo, e a democracia proletária, que vem substituir a burguesa»10.

3

A natureza do Estado

O que se disse antes relativamente à natureza de classe da “democracia”, também se pode dizer acerca da natureza do Estado. Um dos pontos-chave da caracterização da “democracia avançada” é precisamente o já referido 2.º ponto: “Um Estado democrático, representativo, baseado na participação popular, moderno e eficiente”. O Estado que assim se apresenta fora da existência das classes, fora da sociedade e acima dela é precisamente a representação burguesa do Estado. O conceito marxista-leninista de Estado é outro: “O Estado é a organização especial da força, é a organização da violência para a repressão de uma classe qualquer” 11 .

Esse “Estado” da DA é o Estado burguês, (mais ou menos) democrático, legitimado pelo sufrágio eleitoral universal, “representativo” – de todas as classes, burguesia e proletariado, trabalho e capital reunidos no parlamento – que assegura um “regime de liberdade”, isto é, também a liberdade de explorar o trabalho alheio, “no qual o povo decida do seu futuro”, tal como tem vindo a acontecer nos regimes parlamentares burgueses desde que foram instituídos. Deste mesmo “Estado” se diz ainda que está baseado na “participação popular”, afirmação redundante, já que o povo tem vindo sempre a participar na “decisão do seu futuro” através do voto. A “participação popular” não é o poder popular, não é o exercício do poder pelo povo, em primeiro lugar pela classe operária e seus aliados, com as suas próprias estruturas.

Logo, este Estado é igualzinho ao Estado burguês que se conhece.

O “Estado democrático, representativo” da “democracia avançada” é um embuste para os trabalhadores e o povo, porque:

1. Apaga a natureza de classe do Estado e, ao fazê-lo, assume o entendimento burguês do Estado, aquele que interessa à burguesia para esconder a natureza exploradora do capitalismo, a luta de classes e a natureza do Estado como instrumento de repressão das classes dominadas, do “apaziguamento” social;

2. Com este apagamento, esconde que defende o Estado burguês – democrático, é certo –, mas que inclui a liberdade burguesa da exploração do trabalho pelo capital;

3. Exclui o Estado proletário, a democracia proletária, do horizonte da luta dos trabalhadores portugueses, a troco de uma utopia;

4. Apontando o caminho das reformas e do parlamentarismo burguês, não coloca à classe operária e aos trabalhadores a necessidade de realizar a revolução que derrubará o Estado burguês e instaurará o Estado proletário, última forma histórica de Estado, afastando, desta forma, a possibilidade da luta pelo socialismo.

4

Observações finais

Um dos argumentos utilizados no P. contra quem apresenta críticas ao conceito de DA é o de que se pretende “queimar etapas”, “querer o socialismo já”, sem ter em conta as condições objetivas e subjetivas existentes, o que “afasta do Partido camadas antimonopolistas”. E aparece então o rótulo de “sectário”.

1. Porém, a questão não é a de colocar o socialismo como “objetivo imediato– socialismo já”, mas sim a de colocar tão simplesmente o socialismo “como objetivo” – claro que pode sempre haver (e haverá), o afastamento de camadas antimonopolistas que não entendem que, hoje, os monopólios só serão vencidos com o derrube do capitalismo e a substituição deste sistema pelo socialismo. Mas, se não colocarmos o socialismo como objetivo nunca ganharemos as massas para lutarem por ele.

2. O sectarismo manifesta-se, pelo contrário, na consideração de que as posições do marxismo-leninismo só podem vingar através de mistificações teóricas que escondam os verdadeiros objetivos (designadamente, o objetivo último de pôr fim à exploração do homem pelo homem) ou os atirem para as calendas, banindo-os do horizonte da luta. Lenine afirma: «É precisamente reformismo quando o “objetivo final” (ainda que seja relativamente à democracia) é afastado da agitação»12.

3. Por outro lado, a DA tem quase tantas interpretações ou maneiras de a ver e entender, como quantas as pessoas com quem se fala sobre ela; mas o mais importante é esclarecer se é para levar a cabo no sistema capitalista ou no socialista; se é no primeiro, pode questionar-se tal possibilidade – e tratar-se-ia sempre de meras reformas do sistema capitalista; se é no segundo, trata-se de uma utopia ou impossibilidade, porque não há qualquer referência à mudança do sistema de produção, ao fim das relações de produção capitalistas.

Notas:

1 http://www.aaweb.org/pelosocialismo/index.php?option=com_booklibrary&task=mdownload&id=584&Itemid=17

2 Id., p. 5.

3 “Organizar o combate das massas contra o poder pessoal, por um regime de democracia avançada, enfraquecer as forças do grande capital na vida nacional, promover um movimento da maioria do povo a favor do socialismo de maneira que os monopólios sejam obrigados a ceder as suas posições sem poder recorrer à guerra civil para contrariar a vontade popular é a melhor forma para abrir a via do socialismo no nosso país.” – Id., p. 19

4 Id., p.18.

5 Id., Ibid.

6 Id., Ibid.

7 Id., p. 13.

8 Livro do XIX Congresso do PCP, ed. Avante!, 2013, p. 283.

9 V. I. Lénine, A Revolução proletária e o Renegado Kautsky, em Obras Escolhidas de V. I. Lénine (OEL), ed. Avante!, em 3 tomos, tomo 3 (1979), p. 74

10 Id., pp. 14 e 15.

11 V. I. Lénine, O Estado e a Revolução, em Obras Escolhidas de V. I. Lénine, em três tomos, Edições “Avante!”, 1982, tomo 2, p. 238

12 V. I. Lénine, O Marxismo e o Reformismo, em Obras Escolhidas de V. I. Lénine, em três tomos, Edições “Avante!”, 1982, tomo 2, p. 116.

Fonte: Desenvolturas e desacatos (blog)

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PT: A TRAGEDY LONG ANNOUNCED (part 2, final part)

José Renato André Rodrigues* (13/10/2016 article)
*Filosofy professor in Rio de Janeiro State Public Network
Political Secretary of _PCB in the city of Nova Iguaçu-RJ

PART 1 here:
https://peloantimperialismo.wordpress.com/2018/04/12/pt-a-tragedy-long-announced-full-article-under-translation/

“The the 7th congress of the PCB (brazilian communist party), made in november 1982, in the Publishing house Novos Rumos in the Praça (Square) Dom José Gaspar, was invaded by the federal police, the Party and its members and cadres were charged under the fascist National Security Law. Meanwhile, in 1982, the PT members walked freely, using their solidarnosc shirts and speaking nonsense against socialism and the communists.

The so-called «New Trade Unionism», that emerged on the strikes of São Paulo’s ABC (major industrial area), denied all the past that the Communist Party built. Its enemies were not only the Vargas era scabs but mainly the communists. Lula himself declared that the major obstacle for the creation of the Workers Party (PT) was the existance of the PCB, given that at the time PCB was the major political force in the trade unions. With rights and wrongs, since the decade of the 1920s, the communists were the ones presenting a clear program of rupture with the capitalist system. PT, since its birth, always presented a diffuse (abstract) program, it never assumed itself as social-democrat.”

O PT, desde quando se tornou a principal força política no meio sindical e popular, só tem conduzido as massas trabalhadoras ao desarme político e ideológico; ideias como “cidadania” e “colaboração de classe” invadiram o meio sindical hegemonizado pelo PT; surgiram criticando o PCB como velho e terminaram como o que há de pior na traição de classe. Ao chegar ao governo em 2003, os sindicalistas petistas se abrigaram na máquina do Estado burguês, envolvendo-se na corrupção, aceitando fazer o jogo do grande capital, “terminando mais pelego do que os pelegos que diziam combater”, o que acabou respingando em toda a esquerda no Brasil, deixando um deficit organizativo no conjunto da classe trabalhadora brasileira após treze anos de seu governo.

PT, ever since it bebame the major political force in the trade union and pepoples movements, has only driven the working masses to the political and ideological disarmament. Ideas life “citizenship” and “class colaboration” invaded the trade union movement dominated by PT, they started by criticizing PCB as old and ended up as the worst in class betrayal.

Um partido que surgiu como o PT, com tamanha diversidade político-ideológica e regional, ao negar o marxismo como ideologia do proletariado e o leninismo como organização de um partido independente e de classe, só poderia dar nisso que deu. O Partido dos Trabalhadores abriu caminho ao pragmatismo político e possível adaptação à ordem burguesa.

 

O processo de degeneração do Partido dos Trabalhadores não começou com a chegada de Lula à Presidência da República, em 2003. Foi um processo contínuo de acordo com a conjuntura. Essa pluralidade no PT se reflete com a constituição da Associação Brasileira de Empresários pela Cidadania, que apoiou a candidatura de Lula em 1994 e 1998, pela articulação de empresários através do grupo ETHOS, liderado por Lawrence Pih, um importante empresário formado em Filosofia na University of Massachussetts, nos Estados Unidos. Além da contribuição e aliança com grandes empresários, o PT foi cada vez mais um partido da ordem burguesa, quando começou a ganhar prefeituras pelo país afora com um slogan despolitizado para não afrontar o sistema capitalista, o famoso “o PT faz bem, o PT na prefeitura só é nota cem”!! O Partido dos Trabalhadores nas prefeituras ampliou sua relação com diversos empresários locais e nacionais, viciando dirigentes na convivência promíscua tão comum na sociedade capitalista.

O PT se apresentava como um gerenciador do capitalismo brasileiro. No governo, o PT e seus aliados ditos de esquerda, como o PCdoB, procuravam domesticar as massas trabalhadoras através da cooptação dos movimentos sociais, confirmando uma previsão de Antonio Gramsci, que afirmou que, após 1917, a burguesia criou formas de cooptação das classes subalternas sem precisar dar um tiro sequer, isto é, através da corrupção na máquina partidária e sindical, em que funcionários e militantes vão se adaptando à ordem burguesa. Gramsci apenas aprofunda uma previsão de Lenin, quando o dirigente bolchevique denunciava o perigo da formação da aristocracia sindical e operária criada pelo sistema para amortecer a luta de classes. O Partido dos Trabalhadores aceitou fazer esse jogo quando construiu a governabilidade burguesa.

Nos fóruns internacionais, para agradar a burguesia do Brasil e o imperialismo, o PT aumentou suas críticas às organizações do campo revolucionário, assim como negou a participação das Farc no Fórum de São Paulo, nos anos de 1990. O PT passou a fazer alianças até mesmo com o PSDB e o DEM (antigo PFL), partidos que deram sustentação ao neoliberalismo no tempo de Fernando Henrique. Mesmo após o impeachment de Dilma Rousseff, o PT segue fazendo aliança Brasil afora com os mesmos partidos que votaram pelo afastamento da presidente Dilma, como o PMDB do atual presidente Michel Temer.

Com a Carta aos Brasileiros, em 2002, o PT apenas consolida um longo processo iniciado no fim da década de 1970. O PT se beneficia do processo de abertura promovido pela ditadura empresarial-militar, mantendo o pacto conservador com a burguesia do Brasil e o imperialismo. Assim foi feito nas negociações de bastidores entre Fernando Henrique e Lula, quando negociaram a viagem de Lula aos Estados Unidos após Lula ser eleito presidente do Brasil, em 2002. Nessa negociação, Lula e Fernando Henrique e os organismos internacionais decidiram nomear Henrique Meirelles, “homem de confiança dos grandes bancos nacionais e internacionais”. No plano interno, para garantir a governabilidade burguesa, o PT tratou de ampliar a base parlamentar com os velhos grupos políticos que sempre comandaram o capitalismo brasileiro. Com isso, o governo petista garantiu grandes lucros às grandes empresas através dos financiamentos do BNDES, com as PPP’s, privatizações como as rodadas dos leilões do petróleo, ampliou o agronegócio, enquanto os índios e os quilombolas não tiveram suas terras reconhecidas e nem foi realizada a reforma agrária. Tudo isso foi feito como o aval dos movimentos sociais hegemonizados pelo PT e seus aliados, como o PCdoB, que fizeram o serviço sujo de ser a expressão da ideologia burguesa junto à classe trabalhadora.

Acordos e investimentos foram feitos em Cuba, China, Venezuela e em alguns países da África, pelo interesse exclusivo da burguesia brasileira, interessada em diversificar seus investimentos no exterior. Se o governo do PT tivesse interesse em construir uma alternativa anti-imperialista, teria se incorporado à ALBA, a Alternativa Bolivariana construída pelo presidente Chávez, da Venezuela e aberto o sinal no Brasil para a rede de televisão Telesur. Não teria assinado acordos militares com os Estados Unidos, Israel e Colômbia, não teria aceitado a política imperialista de mandar tropas do Brasil para o Haiti. Foi o próprio Lula quem, em visita à Colômbia, afirmou que a América Latina não precisava mais da espada de Bolívar, e, sim, de mais capital, defendendo, na verdade, a integração entre as burguesias da América Latina.

Podemos dizer que a burguesia brasileira é uma das mais pragmáticas do mundo. Ela é capaz de dizer que o governo do Brasil é contra o bloqueio a Cuba e, ao mesmo tempo, ter acordos com os Estados Unidos; é capaz de dizer que é solidária à causa Palestina, enquanto tem acordos com Israel na área militar e comercial.

A política social promovida pelo governo do PT foi muito rebaixada, não se trabalhou a politização das massas trabalhadoras que passaram a ter até acesso ao consumo. Apenas se criou uma falsa ideia de que se estava constituindo uma nova classe média no Brasil. Foi uma caricatura de uma social-democracia tentando aplicar uma política de bem-estar social em uma época em que os partidos social-democratas estavam totalmente rendidos à política do grande capital, não podendo mais fazer a mediação do conflito capital-trabalho.

No governo, o PT escolheu não afrontar a burguesia de plantão, não tocou nos temas da luta de classes e não fez o enfrentamento à política neoliberal dos governos anteriores, nem procurou engavetar as reformas contra os trabalhadores. E foi no governo Lula/Dilma que se deu prosseguimento às reformas trabalhista, sindical e previdenciária da era Fernando Henrique, do PSDB.

Se, por um lado, o governo petista dava alguns benefícios à população de baixa de renda, do outro lado, dava bilhões às grandes empresas através do apoio do Estado brasileiro.

Para chegar ao poder e garantir a governabilidade do grande capital, o PT não precisou romper com o marxismo, porque o PT não foi nem nunca quis ser um partido socialista ou comunista. Para buscar alianças com a direita, o campo majoritário soube usar sua influência no interior do PT, enquanto alguns grupos ditos da esquerda do PT não romperam e nem saíram desse partido. Esses grupos também estavam viciados nas benesses dos mandatos parlamentares.

Hoje, uma das grandes tarefas das forças políticas anticapitalistas no Brasil é desmascarar as forças políticas reformistas que ainda exercem influência no seio da classe trabalhadora. O Partido dos Trabalhadores cumpriu um desserviço na consciência e na história das lutas dos trabalhadores no Brasil. É hora de se resgatar a identidade de classe, romper com a conciliação e traição de classe promovida pelo petismo e seus aliados nesses treze anos em que estiveram nos governos de ampla coalizão de Lula/Dilma.

O petismo, em seus treze anos de governo, transformou antigos militantes em políticos envolvidos na sujeira comum da tradicional política burguesa, totalmente humilhados e rendidos nas mãos das classes dominantes, implorando participar do clube para o qual não foram convidados. Foram usados e chutados pela burguesia, porque foram os petistas quem de fato escolheram governar para o grande capital. Não dá para passar uma borracha como se nada tivesse acontecido nesses últimos treze anos, como estão querendo fazer os militantes e dirigentes do PT e seus aliados, com o objetivo de neutralizar e hegemonizar os movimentos sociais para tentar barrar a esquerda classista que não conciliou com os treze anos de governo de traição de classe.

Lembrando Caio Prado Junior, não podemos trabalhar com práticas políticas de alianças que levem ao desarme político e ideológico das classes trabalhadoras. Devemos romper com velhas práticas para construir um programa anticapitalista que leve os trabalhadores a se colocar em movimento para manter e ampliar direitos.

Hoje, mais do que nunca, é necessário manter viva a consciência de classe para criar as condições da unidade de todos os trabalhadores para defender seus interesses legítimos. Romper com o reformismo e a conciliação, deixando bem claro que, de um lado, estão as forças do passado, que se aliam com a burguesia, e, de outro lado, as forças políticas com um projeto claro de futuro de transformações radicais da realidade brasileira.

Na composição desse bloco de forças anticapitalistas e anti-imperialistas, não há espaço nem para a conciliação nem para o reformismo. A partir daí poderemos lutar para superar o capitalismo em direção ao socialismo em nosso país.

*Professor de Filosofia da Rede Pública Estadual do Estado do Rio de Janeiro,

Secretário Político do PCB na cidade de Nova Iguaçu-RJ

PT: A TRAGEDY LONG ANNOUNCED (full article under translation)

Boa parte da militância de esquerda no Brasil hoje ataca o PT, sejam ex-petistas organizados em outros partidos de esquerda, militantes de movimentos sociais e ex-militantes do PT soltos e desiludidos com os rumos e o caminho traçado por esse partido para chegar ao governo e administrá-lo para o grande capital.

A significant part of the leftwing people in Brazil today attacks PT (the  so-called “workers party”, social-democratic, opportunist party), wether these people are ex-members of PT that went on to other leftwing parties or ex-members of PT disperse and disappointed with the path taken by this party to be elected goverment and manage it in favour of big capital (capitalists).

Para entender o fenômeno PT, é preciso entender a história recente do Brasil, a luta de classes e como as classes dominantes traçaram os rumos da ditadura empresarial-militar até a abertura e a consolidação da hegemonia burguesa no fim da ditadura, em 1985.

To understand the PT phenomenon one needs to understand the recent history of Brazil, the class struggle and how the ruling classes projected the paths of the the military-capitalist dictatorship until the consolidation of the bourgeois hegemony at the end of the dictatorship in 1985.

Entre o final de 1970 e o início de 1980, parte da sociedade brasileira lutava contra a ditadura empresarial-militar instalada em 1964. A burguesia brasileira tinha como objetivo o processo de abertura com uma lenta transição democrático-burguesa, que tentou tirar de cena os setores mais combativos ao regime, em especial o Partido Comunista Brasileiro-PCB.

Between the end of the 1970s and the beginning of the 1980s part the brazilian society fought against the military-capitalist dictatorship installed in 1964. The brazilian bourgeoisie had the aim of creating a opening process, with a slow bourgeois-democractic transition, that tried to take out of the picture the most militant sectors against the regime, specially the Brazilian Communist Party-PCB.

O PCB, através de suas organizações, conseguiu agregar os diversos setores descontentes com a ditadura; assim, começava o desgaste do regime e o aumento do prestígio das forças de oposição à ditadura. O PCB se torna o principal alvo dos órgãos de repressão, quando diversas organizações do Partido são atingidas, militantes e dirigentes do Partido são presos, torturados e assassinados e ainda hoje muitos constam entre os desaparecidos.

PCB, through its organizations, was able to gather the diverse sectors unhappy with the dictatorship, this is how the wearing out of the regime and the increase of the prestige of the opposition forces begun. PCB became the main target of the repression apparatus when several Party organizations were hit, cadres and members were arrested, tortured and murdered, many of them are still listed as disappeared. 

As ações do PCB na articulação das forças políticas contra a ditadura empresarial-militar foram fundamentais para o crescimento das manifestações de massa contra o regime. Foi nesse cenário, tão desfavorável para os comunistas, que começava a movimentação para formar o Partido dos Trabalhadores (PT). E o Partido dos Trabalhadores se beneficia diretamente do cerco e extermínio promovido pela ditadura contra o PCB.

The actions of PCB in the articulation of the political forces against the military-capitalist dictatorship were crucial for the growth of the demonstrations against the regime. It was in this context, very unfavourable to the communists, that the manouvres for the foundation of the Workers Party (PT) started to take shape. And the Workers Party benefits directly of the siege and extermination promoted by the dictatorship against PCB.

A Igreja Católica, através da Teologia de Libertação, e diversos grupos trotskistas encontraram no PT uma possibilidade de rivalizar com o PCB no movimento sindical. Não foi à toa que um colégio tradicional como o Sion forneceu espaço para a criação do PT, em 1980. Nesse primeiro encontro, o Partido dos Trabalhadores sequer falou em socialismo.

The Catholic Church through the “Liberation Theology” and the many trotskist groups found in PT a possibility to rival with PCB in the trade union movement. It was not by chance that a traditional institution like “Sion Highschool” (“Colégio Sion”) provided its space for the creation of PT in 1980. In that first meeting the Workers Party did not even mention socialism.

Os partidos de esquerda, principalmente os comunistas, sempre tiveram dificuldades para dialogar com as instituições religiosas por causa do comportamento conservador de alguns líderes. No entanto, o PT, desde sua fundação, sempre contou com o apoio de diversas instituições religiosas, não só dos católicos progressistas, mas também dos católicos carismáticos, assim como de protestantes, de onde veio, por exemplo, Benedita da Silva.

The leftwing parties, mainly the communists, always had dificulty to have dialogue with religious institutions because of the conservative bhaviour of some of their leaders. Nevertheless, PT, since its foundation, was always granted support from many religious institutions, not only from progressive catholics but also from charismatic catholics as well as protestants – from where Benedita da Silva came, for example.

O Partido dos Trabalhadores, em seu nascedouro, abrigou diversos grupos de diversas matrizes, militantes que vieram do PCB, PCBR, ALN, MR8, MDB, PCdoB e outros. Grupos da Igreja Católica e do chamado Novo Sindicalismo. Ao longo do crescimento do Partido dos Trabalhadores, as tendências foram se adaptando à máquina partidária; grupos trotskistas, como a Libelu e a Convergência Socialista, que mais tarde virou o PSTU, eram pequenos partidos dentro do PT. O PT já surge legalizado e permitido pela ditadura empresarial-militar em 1980, atrelado ao fundo partidário, contribuindo dessa maneira para criar uma militância ligada à legalidade burguesa.

The Workers Party, since its birth, took in several groups from diverse leanings, members came from PCB, PCBR, ALN, MR8, MDB, PCdoB and others [translator note: all of which except PCB and MDB were small guerrila groups during the dictatorship in the 1970s]. Also groups of the Catholic Church and of the so-called “New Trade Unionism”. Along the growth path of the Workers Party, trotskist groups like “Libelu” (“Liberdade e Luta”, “Freedom and Struggle”) and the Socialist Convergence (“Convergência Socialista” that later became PSTU, another trotskist party) were like small parties inside PT. PT emerges already legalized and tolerated by the military-capitalist dictatorship in 1980, trailed to the “parties’ fund” (translator’s note: meaning the bourgeois state’s fund given to legal parties), contributing in that way to create a party’s membership linked to bourgeois legality.

O apoio ao socialismo era muito vago e esporádico, tanto que, até hoje, o Partido dos Trabalhadores e suas diversas correntes não assumem o apoio que deram ao Sindicato Solidariedade, grupo político apoiado pelo Vaticano, pela “CIA e por toda a direita mundial”. Como ficou claro mais tarde, o Solidariedade era anticomunista, inimigo dos trabalhadores, um grupo que lutava para restaurar o capitalismo na Polônia. Durante o governo Lech Walesa, Lula e Lech, ambos católicos, foram recebidos pelo Papa João Paulo II, de linha conservadora, inimigo declarado do socialismo e da Teologia da Libertação.

The support given to socialism was very vague and sporadic, whereby until today the Workers Party and its several tendencies do not acknowledge the support they gave to the trade union Solidarnosc, a political group supported by the Vatican, the “CIA and all the world rightwing”. As it became clear later, Solidarnosc was anti-communist, enemy of the workers and a group struggling to reinstate capitalism in Poland. During the government of  Lech Walesa Lula and Lech, both catholics,  went to meet Pope John Paul II, who was from a conservative leaning and a outspoken enemy of socialism and the Liberation Theology.

No movimento sindical, o PT, quando surgiu, se apresentava como o novo, a grande novidade do movimento operário e sindical no Brasil. Começava procurando falsificar a história das lutas dos trabalhadores como se elas tivessem começado nos anos 1970 e que o PT era o primeiro partido operário no Brasil. Em nome do novo, o Partido dos Trabalhadores procurava não só combater a era Vargas e a estrutura sindical atrelada ao Estado, com os sindicatos hegemonizados pelos chamados pelegos, mas procurava também combater os comunistas, que eram, naquela conjuntura, seus principais inimigos a serem combatidos, não só por setores católicos conservadores anticomunistas de onde veio o Lula, como também por elementos ex-PCB e por grupos trotskistas, que precisavam, naquele momento, combater a velha capacidade de influência e articulação do PCB no meio sindical.

In the trade union movement PT, when it emerged, presented itself as new, as the great n novelty in the labor and trade union movement of Brazil. PT was launched trying to forge the history of workers’ struggles as if they started in the 1970s and as if PT as the first working class party of Brazil. In the name of the novelty, the Workers Party tried not only to fight (overcome) the trade union structure of the Vargas era [translator note: Vargas was a sort of brazilian Perón between the 1930s and 1950s, he was a populist caudillo, fascist dictator and social-democrat opportunist, all in one] which were trailed to the state (these were the trade unions called “pelegos”, meaning scabs, sell outs, capitalist agents) but also tried to fight the communists. In that context the brazilian communists were fought – as the main enemies – not only by the conservative catholic layers (from where Lula came from) but also by the ex-members of PCB and by the trotskist groups that needed in that moment to weaken or defeat the old great influence and articulation of PCB in the trade union movement.

O cerco promovido pela ditadura empresarial-militar contra o PCB provocou perda de sua influência no movimento sindical, ajudando o Partido dos Trabalhadores, que se valeu também dos erros táticos do PCB entre o fim da década de 1970 e o início de 1980. O Partido dos Trabalhadores foi legalizado a tempo de concorrer às eleições de 1982, ainda durante a ditadura, enquanto o PCB só se tornou legal após o fim da ditadura.

The siege against PCB promoted by the military-capitalist dictatorship provoked its loss of influence in the trade union movement. That helped the Workers Party, that also took advantage of the tactical mistakes of PCB between the end of the 1970s and the beginnings of the 1980s. The Workers Party was legalized in time to run in the 1982 elections yet during the dictatorship while PCB only became legal after the end of the dictatorship.

“The the 7th congress of the PCB (brazilian communist party), made in november 1982, in the Publishing house Novos Rumos in the Praça (Square) Dom José Gaspar, was invaded by the federal police, the Party and its members and cadres were charged under the fascist National Security Law. Meanwhile, in 1982, the PT members walked freely, using their solidarnosc shirts and speaking nonsense against socialism and the communists.

The so-called «New Trade Unionism», that emerged on the strikes of São Paulo’s ABC (major industrial area), denied all the past that the Communist Party built. Its enemies were not only the Vargas era scabs but mainly the communists. Lula himself declared that the major obstacle for the creation of the Workers Party (PT) was the existance of the PCB, given that at the time PCB was the major political force in the trade unions. With rights and wrongs, since the decade of the 1920s, the communists were the ones presenting a clear program of rupture with the capitalist system. PT, since its birth, always presented a diffuse (abstract) program, it never assumed itself as social-democrat.”

(to be continued…)

Citações de Lula, um social-democrata oportunista

“Eu não vou fazer a reforma agrária que o MST pretende, trocando miseráveis urbanos por miseráveis rurais, apenas para apresentar número de assentados que nada produzem.”

Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República, no jantar após a sessão de cinema com convidados no Palácio da Alvorada

(Fonte: Veja, 29 de outubro de 2003 – ANO 36 – N° 43 – Edição 1826 – Veja Essa/ Por Julio Cesar de Barros – Pág: 40/41)
http://www.oexplorador.com.br/eu-nao-vou-fazer-a-reforma-agraria-que-o-mst-pretende-trocando-miseraveis-urbanos-por-miseraveis-rurais-apenas-para-apresentar-numero-de-assentados-que-nada-produzem-luiz-inacio-l/

NOVAS RELAÇÕES “As elites empresariais do Brasil evoluíram muito. Um Mário Amato é coisa do passado. Hoje, os empresários que dão as cartas têm 50 anos, são abertos e modernos.”
Luiz Inácio Lula da Silva, pré-candidato do PT à Presidência da República, ontem na Folha. (09 de dezembro de 2001)
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0912200107.htm

“No exercício do poder sou um cidadão (…) multinacional, multi-ideológico”
http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL1591255-5602,00-LULA+DEFENDE+VERSATILIDADE+COMO+CARACTERISTICA+IMPORTANTE+DE+UM+GOVERNANTE.html

Outras informações importantes:

PCB rompe com o governo Lula. (2005)
“Aliado histórico PCB rompe com o governo Lula.
Um dos partidos historicamente mais leais a Luiz Inácio Lula da Silva, o PCB (Partido Comunita Brasileiro) rompeu com o governo em seu 13o Congresso Nacional, no mês passado, por não acreditar que haverá mudanças prometidas na última companha.
O PCB esteve entre os poucos que formalmente compuseram com o PT a coligação que elegeu Lula em 2002 – os outros foram PL, PC do B e PMN.
A legenda tem só 3000 filiados, entre eles Oscar Niemeyer, e sua representação parlamentar se resume a 14 vereadores.”
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1604200503.htm
https://midiaindependente.org/pt/red/2005/05/315988.shtml

O Lula Secreto (2011)
«Dora Kramer fragmento de artigo publicado no Jornal do Brasil, 18 de agosto de 2004:

“O sindicalista Lula – ao contrário do que parece – não se absteve de estudar. Há relatos – nunca desmentidos – de sua preparação em cursos de AFL CIO, as centrais sindicais norte-americanas, quintessência do peleguismo e do anti-esquerdismo em geral e na John Hopkins University, em Baltimore, Estados Unidos (em 1972 ou 73), onde teria feito um curso de liderança sindical, desenhado sob medida para parecer de esquerda, apenas parecer, mas servir ao sistema dominante. Merece um doutorado honoris causa, ou seria horroris causa? E, além disso, já como diretor do sindicato dos Metalúrgicos, cursou o Instituto Interamericano para o Sindicalismo Livre, (Iadesil), sustentado pela CIA e passou a adotar sua própria “agenda”, livrando-se do próprio irmão, o Frei Chico, quadro do Partido Comunista.”»
https://pcb.org.br/portal2/1895/o-lula-secreto

Franck Gaudichaud, doutor em Ciência Política e mestre em Civilização Hispanoamericana na Universidade Grenoble 3 (ILCEA), membro do Comitê de Redação da revista Dissidences e da Associação França-América Latina. (2010)
“Em resumo, poderia dizer que a política de Lula conjuga uma política macroeconômica neoliberal e uma política social assistencialista centrada na luta contra a extrema pobreza, dando finalmente estabilidade ao sistema, razão pela qual o ex-sindicalista é considerado por Wall Street e por grande parte das elites como um dos melhores presidentes da história democrática do país. Poderia qualificar sua gestão de “social liberalismo à brasileira” ou talvez como fazem alguns autores de “liberal-desenvolvimentismo”, posto que o Estado brasileiro continua querendo regular uma parte da atividade econômica do país.”
https://pcb.org.br/portal2/925/o-brasil-de-lula

PT: A TRAGEDY LONG ANNOUNCED

José Renato André Rodrigues* (13/10/2016 article)
*Filosofy professor in Rio de Janeiro State Public Network
Political Secretary of _PCB in the city of Nova Iguaçu-RJ

English

“The the 7th congress of the PCB (brazilian communist party), made in november 1982, in the Publishing house Novos Rumos in the Praça (Square) Dom José Gaspar, was invaded by the federal police, the Party and its members and cadres were charged under the fascist National Security Law. Meanwhile, in 1982, the PT members walked freely, using their solidarnosc shirts and speaking nonsense against socialism and the communists.

The so-called «New Trade Unionism», that emerged on the strikes of São Paulo’s ABC (major industrial area), denied all the past that the Communist Party built. Its enemies were not only the Vargas era scabs but mainly the communists. Lula himself declared that the major obstacle for the creation of the Workers Party (PT) was the existance of the PCB, given that at the time PCB was the major political force in the trade unions. With rights and wrongs, since the decade of the 1920s, the communists were the ones presenting a clear program of rupture with the capitalist system. PT, since its birth, always presented a diffuse (abstract) program, it never assumed itself as social-democrat.”

Português

“O 7º Congresso do PCB, realizado em novembro de 1982, na sede da Editora Novos Rumos, na Praça Dom José Gaspar, centro de São Paulo, foi invadido pela Polícia Federal, que enquadrou o Partido e seus militantes e dirigentes na famigerada Lei de Segurança Nacional. Enquanto isso, em 1982, os militantes do PT podiam andar livremente, usando suas camisetas do Solidariedade e falar bobagens contra o socialismo e os comunistas.

O chamado “Novo Sindicalismo”, que despontava nas greves do ABC paulista, negava todo o passado de luta que o Partido Comunista construiu. Os seus inimigos não eram apenas os pelegos da era Vargas, mas principalmente os comunistas. O próprio Lula já declarava o grande empecilho que era a existência do PCB para a criação do Partido dos Trabalhadores, já que, até aquele período, o PCB era a principal força política no meio sindical. Com acertos e erros, desde a década de 1920, foram os comunistas que apresentaram um programa claro de ruptura com o sistema capitalista. O PT, desde o seu nascimento, sempre apresentou um programa difuso, nunca se assumiu como socialdemocrata.”

Pelo Anti-Imperialismo

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José Renato André Rodrigues*

Boa parte da militância de esquerda no Brasil hoje ataca o PT, sejam ex-petistas organizados em outros partidos de esquerda, militantes de movimentos sociais e ex-militantes do PT soltos e desiludidos com os rumos e o caminho traçado por esse partido para chegar ao governo e administrá-lo para o grande capital.

Para entender o fenômeno PT, é preciso entender a história recente do Brasil, a luta de classes e como as classes dominantes traçaram os rumos da ditadura empresarial-militar até a abertura e a consolidação da hegemonia burguesa no fim da ditadura, em 1985.

Entre o final de 1970 e o início de 1980, parte da sociedade brasileira lutava contra a ditadura empresarial-militar instalada em 1964. A burguesia brasileira tinha como objetivo o processo de abertura com uma lenta transição democrático-burguesa, que tentou tirar de cena os setores mais combativos ao regime, em especial o Partido…

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Sobre o conceito de “DEMOCRACIA AVANÇADA”

Sobre o conceito de “DEMOCRACIA AVANÇADA”

M.E.L. – Fonte: Pelo Socialismo ( Parte )

“Vulgarmente, o conceito de democracia é empregado para designar uma forma de regime político do sistema capitalista, em que existe o direito de voto, um determinado grau de liberdade de expressão, de organização, de manifestação, mas em que o poder do Estado ao serviço dos monopólios está previamente assegurado – esta é apenas a democracia burguesa, ou a ditadura da burguesia, uma minoria, sobre a maioria dos produtores.

A democracia proletária chama-se ditadura do proletariado, isto é, os trabalhadores e os seus aliados exercem o poder através do Estado proletário, governam para a imensa maioria e reprimem os exploradores e opressores da sua classe.

Não é no quadro da legalidade determinada pela burguesia que se pode passar de uma para a outra – é necessário o emprego da força organizada da classe operária e dos seus aliados. Por isso, a importância da clarificação do conceito de “democracia avançada”. Se não implica uma mudança da classe no poder, se não implica a modificação das relações de produção na sociedade, só pode ser considerada como reforma do sistema capitalista e não a sua superação.
Lenine refere esta questão do seguinte modo: «A não ser para troçar do senso comum e da história, é claro que não se pode falar de “democracia pura” enquanto existirem classes diferentes, pode-se falar apenas de democracia de classe. […] A “democracia pura” é uma frase mentirosa de liberal que procura enganar os operários. A história conhece a democracia burguesa, que vem substituir o feudalismo, e a democracia proletária, que vem substituir a burguesa»”
1
Antecedentes

A “Democracia Avançada”, como “programa” de um partido comunista, havia sido adotada pelo Partido Comunista Francês, numa Conferência realizada em 5 e 6 de dezembro de 1968 (recorde-se a agitação do maio desse ano, em Paris). Foi o “Manifesto do PCF – Por uma democracia avançada para uma França socialista” 1 , também conhecido por Manifesto de Champigny, local onde se realizou a Conferência. Este documento tem 10 capítulos, com uma introdução inicial:

Introdução;

I – Por uma vasta aliança de todas as camadas sociais vítimas dos monopólios e do seu poder;

II – O que é uma democracia avançada?;

III – O socialismo também para a França:

IV – A passagem ao socialismo;

V – O que é o socialismo?;

VI – O papel dirigente da classe operária;

VII – O Partido Comunista e o seu papel de vanguarda;

VIII – A cooperação dos partidos e formações democráticos na construção do socialismo;

IX – Democracia socialista e defesa do socialismo;

X – O Partido Comunista é o grande partido revolucionário do nosso tempo.

Refere-se na “Nota dos Editores” do sítio pelosocialismo.net, na publicação do Manifesto de Champigny 2:

«A democracia avançada era concebida como uma formação política e econômica entre o socialismo e o capitalismo em que a progressiva transformação das estruturas econômicas pela nacionalização dos setores monopolistas abriria o caminho ao socialismo sem um confronto revolucionário mais ou menos intenso entre as principais classes antagônicas. Essa tese correspondia a uma espécie de ressurgimento da teoria da “transformação pacífica do capitalismo em socialismo” e da “democracia, criação contínua”, defendida anteriormente por Jean Jaurès e comum a Bernstein, que Lenine refutou implacavelmente. O Manifesto de Champigny passa ao lado da teoria marxista-leninista do Estado, não define a sua natureza na “democracia avançada” – se é burguês ou proletário com os seus aliados – nem clarifica qual o modo de passagem e qual a natureza das estruturas políticas que asseguram o domínio das classes exploradoras para as estruturas politicas que servem a defesa dos interesses das classes e camadas exploradas».

O Manifesto surge na sequência de 2 acordos com o PS francês, concluídos em dezembro de 1966 e em fevereiro de 1968.

O Manifesto entende que a luta por uma democracia avançada reduziria a força do capitalismo/monopólios, que seriam obrigados – de forma pacífica, sem reagir – a ceder/em as suas posições. Isto porque deixariam de poder recorrer (!!?!!) à força 3. Embora antes tenham admitido que, havendo violência contra o povo se possa encarar “a passagem ao socialismo por métodos não pacíficos”4, logo acrescentam que os comunistas franceses orientam a sua atividade para a passagem pacífica ao socialismo 5. E invocavam as Declarações dos Partidos Comunistas de 1957 e 1960, posteriores ao XX Congresso do PCUS e à viragem reformista (teórica e prática) que introduziu no Movimento Comunista Internacional (MCI) 6.

Note-se que, apesar de tudo, o Manifesto exigia o desaparecimento simultâneo da NATO e do Pacto de Varsóvia e que a França não renovasse os seus compromissos com a NATO “no prazo posterior a 1969” 7.

2

Adoção da DA como Programa do PCP

O conceito de DA defendido no Programa do PCP não sofreu qualquer alteração essencial nas alterações de 1992 e 2012: contém cinco componentes ou objetivos fundamentais (eram 6 em 1988, mas 2 foram fundidos, em 1992); e refere que a luta pela concretização dessas cinco componentes e a luta com objetivos imediatos “são parte constitutiva da luta pelo socialismo” 8.

Sendo parte constitutiva da luta pelo socialismo – no P. é organicamente apresentada como uma “etapa” para o socialismo –, poderá concluir-se que a DA não é o socialismo, a ditadura do proletariado, uma vez que está ausente a necessária mudança da classe no poder.

De facto, não é possível encontrar em todo o programa da DA uma posição clara sobre a natureza do Estado onde ele seria realizável: Estado burguês/capitalismo ou Estado proletário/socialismo.

Na concepção marxista-leninista, não se tratando de socialismo, será, forçosamente, ou capitalismo/ditadura da burguesia, ou a revolução. Com efeito, escreveu Lenine: “O grau transitório entre o Estado, órgão de dominação da classe dos capitalistas, e o Estado, órgão de dominação do proletariado, é precisamente a revolução, que consiste em derrubar a burguesia e quebrar, destruir a sua máquina de Estado (…). Que a ditadura da burguesia deve ser substituída pela ditadura de uma classe, do proletariado, que aos «graus transitórios» da revolução se seguirão os «graus transitórios» da extinção gradual do Estado proletário…” (realce nosso) 9.

De outra forma, está a conceber-se um sistema socioeconômico entre o capitalismo e o socialismo, que não tem nada de a ver com aquela concepção científica. Neste caso, tratar-se-ia de uma tática de passar para segundo plano a luta pelo socialismo, tentando alcançar a adesão de massas despolitizadas e/ou anticomunistas com “perspetivas políticas atraentes”, mas que se sabe serem impossíveis – dito de forma crua, está a enganar-se os trabalhadores e o povo.

Mas que não é socialismo parece resultar da afirmação de que a DA é uma parte constitutiva da luta pelo socialismo. Assim, não se defendendo no Programa que a DA é a revolução, e partindo do princípio de que não se estão a enganar os trabalhadores e o povo, a DA será para concretizar em capitalismo. Se assim é, algumas questões se colocam de imediato:

1. É possível em capitalismo – hoje, na sua fase superior, o imperialismo – alcançar os cinco componentes ou objetivos fundamentais enunciados?

2. Não haverá uma contradição entre uma sociedade capitalista, na sua fase imperialista, ser “liberta do domínio dos monopólios”, como se propugna no segundo objetivo fundamental, sem se libertar do capitalismo como sistema de produção? – e mesmo que fosse possível regredir à época pré-monopolista (uma posição reacionária), a evolução do capitalismo não levaria de novo ao imperialismo?

3. E libertar o país do domínio dos monopólios não imporia, pelo menos, defender a saída de Portugal das associações imperialistas e militaristas, designadamente da UE e da NATO? – no programa da DA não consta nenhuma destas exigências, apesar da retórica usada em relação a estas duas organizações imperialistas devesse levar a essa conclusão.

Note-se também que o conceito de democracia não é usado numa perspetiva marxista-leninista, como uma democracia de classe, antes a referenciando como tendo um valor intrínseco.

De facto, sublinhemo-lo de novo, o determinante em relação à democracia é saber a quem essa democracia beneficia – qual é a classe cujo domínio é assegurado pelo Estado. Esse Estado assegura a manutenção das relações de produção dominantes e é definido por elas. As expressões, e os respetivos conteúdos, “democracia” e “regime democrático” não podem, de um ponto de vista marxista-leninista, ser utilizadas de forma abstrata, sem o seu conteúdo de classe, porque na ideologia burguesa a “democracia”, que parece ser uma igualdade para todos, é objetivamente o domínio da maioria explorada por uma minoria exploradora.

A exigência da democracia no fascismo era uma palavra de ordem que apontava para o derrubamento da ditadura mais feroz do capital, para a conquista das liberdades burguesas (de expressão, organização, manifestação etc.), que também eram imprescindíveis para o proletariado desenvolver a sua luta. O fascismo foi derrotado, e hoje, num quadro mundial extremamente complexo, em que a luta de classes se encontra agudizada de forma inaudita, a luta do proletariado exige uma definição de classe do conceito de democracia.

Vulgarmente, o conceito de democracia é empregado para designar uma forma de regime político do sistema capitalista, em que existe o direito de voto, um determinado grau de liberdade de expressão, de organização, de manifestação, mas em que o poder do Estado ao serviço dos monopólios está previamente assegurado – esta é apenas a democracia burguesa, ou a ditadura da burguesia, uma minoria, sobre a maioria dos produtores.

A democracia proletária chama-se ditadura do proletariado, isto é, os trabalhadores e os seus aliados exercem o poder através do Estado proletário, governam para a imensa maioria e reprimem os exploradores e opressores da sua classe.

Não é no quadro da legalidade determinada pela burguesia que se pode passar de uma para a outra – é necessário o emprego da força organizada da classe operária e dos seus aliados. Por isso, a importância da clarificação do conceito de “democracia avançada”. Se não implica uma mudança da classe no poder, se não implica a modificação das relações de produção na sociedade, só pode ser considerada como reforma do sistema capitalista e não a sua superação.

Lenine refere esta questão do seguinte modo: «A não ser para troçar do senso comum e da história, é claro que não se pode falar de “democracia pura” enquanto existirem classes diferentes, pode-se falar apenas de democracia de classe. […] A “democracia pura” é uma frase mentirosa de liberal que procura enganar os operários. A história conhece a democracia burguesa, que vem substituir o feudalismo, e a democracia proletária, que vem substituir a burguesa»10.

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A natureza do Estado

O que se disse antes relativamente à natureza de classe da “democracia”, também se pode dizer acerca da natureza do Estado. Um dos pontos-chave da caracterização da “democracia avançada” é precisamente o já referido 2.º ponto: “Um Estado democrático, representativo, baseado na participação popular, moderno e eficiente”. O Estado que assim se apresenta fora da existência das classes, fora da sociedade e acima dela é precisamente a representação burguesa do Estado. O conceito marxista-leninista de Estado é outro: “O Estado é a organização especial da força, é a organização da violência para a repressão de uma classe qualquer” 11 .

Esse “Estado” da DA é o Estado burguês, (mais ou menos) democrático, legitimado pelo sufrágio eleitoral universal, “representativo” – de todas as classes, burguesia e proletariado, trabalho e capital reunidos no parlamento – que assegura um “regime de liberdade”, isto é, também a liberdade de explorar o trabalho alheio, “no qual o povo decida do seu futuro”, tal como tem vindo a acontecer nos regimes parlamentares burgueses desde que foram instituídos. Deste mesmo “Estado” se diz ainda que está baseado na “participação popular”, afirmação redundante, já que o povo tem vindo sempre a participar na “decisão do seu futuro” através do voto. A “participação popular” não é o poder popular, não é o exercício do poder pelo povo, em primeiro lugar pela classe operária e seus aliados, com as suas próprias estruturas.

Logo, este Estado é igualzinho ao Estado burguês que se conhece.

O “Estado democrático, representativo” da “democracia avançada” é um embuste para os trabalhadores e o povo, porque:

1. Apaga a natureza de classe do Estado e, ao fazê-lo, assume o entendimento burguês do Estado, aquele que interessa à burguesia para esconder a natureza exploradora do capitalismo, a luta de classes e a natureza do Estado como instrumento de repressão das classes dominadas, do “apaziguamento” social;

2. Com este apagamento, esconde que defende o Estado burguês – democrático, é certo –, mas que inclui a liberdade burguesa da exploração do trabalho pelo capital;

3. Exclui o Estado proletário, a democracia proletária, do horizonte da luta dos trabalhadores portugueses, a troco de uma utopia;

4. Apontando o caminho das reformas e do parlamentarismo burguês, não coloca à classe operária e aos trabalhadores a necessidade de realizar a revolução que derrubará o Estado burguês e instaurará o Estado proletário, última forma histórica de Estado, afastando, desta forma, a possibilidade da luta pelo socialismo.

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Observações finais

Um dos argumentos utilizados no P. contra quem apresenta críticas ao conceito de DA é o de que se pretende “queimar etapas”, “querer o socialismo já”, sem ter em conta as condições objetivas e subjetivas existentes, o que “afasta do Partido camadas antimonopolistas”. E aparece então o rótulo de “sectário”.

1. Porém, a questão não é a de colocar o socialismo como “objetivo imediato– socialismo já”, mas sim a de colocar tão simplesmente o socialismo “como objetivo” – claro que pode sempre haver (e haverá), o afastamento de camadas antimonopolistas que não entendem que, hoje, os monopólios só serão vencidos com o derrube do capitalismo e a substituição deste sistema pelo socialismo. Mas, se não colocarmos o socialismo como objetivo nunca ganharemos as massas para lutarem por ele.

2. O sectarismo manifesta-se, pelo contrário, na consideração de que as posições do marxismo-leninismo só podem vingar através de mistificações teóricas que escondam os verdadeiros objetivos (designadamente, o objetivo último de pôr fim à exploração do homem pelo homem) ou os atirem para as calendas, banindo-os do horizonte da luta. Lenine afirma: «É precisamente reformismo quando o “objetivo final” (ainda que seja relativamente à democracia) é afastado da agitação»12.

3. Por outro lado, a DA tem quase tantas interpretações ou maneiras de a ver e entender, como quantas as pessoas com quem se fala sobre ela; mas o mais importante é esclarecer se é para levar a cabo no sistema capitalista ou no socialista; se é no primeiro, pode questionar-se tal possibilidade – e tratar-se-ia sempre de meras reformas do sistema capitalista; se é no segundo, trata-se de uma utopia ou impossibilidade, porque não há qualquer referência à mudança do sistema de produção, ao fim das relações de produção capitalistas.

Notas:

1 http://www.aaweb.org/pelosocialismo/index.php?option=com_booklibrary&task=mdownload&id=584&Itemid=17

2 Id., p. 5.

3 “Organizar o combate das massas contra o poder pessoal, por um regime de democracia avançada, enfraquecer as forças do grande capital na vida nacional, promover um movimento da maioria do povo a favor do socialismo de maneira que os monopólios sejam obrigados a ceder as suas posições sem poder recorrer à guerra civil para contrariar a vontade popular é a melhor forma para abrir a via do socialismo no nosso país.” – Id., p. 19

4 Id., p.18.

5 Id., Ibid.

6 Id., Ibid.

7 Id., p. 13.

8 Livro do XIX Congresso do PCP, ed. Avante!, 2013, p. 283.

9 V. I. Lénine, A Revolução proletária e o Renegado Kautsky, em Obras Escolhidas de V. I. Lénine (OEL), ed. Avante!, em 3 tomos, tomo 3 (1979), p. 74

10 Id., pp. 14 e 15.

11 V. I. Lénine, O Estado e a Revolução, em Obras Escolhidas de V. I. Lénine, em três tomos, Edições “Avante!”, 1982, tomo 2, p. 238

12 V. I. Lénine, O Marxismo e o Reformismo, em Obras Escolhidas de V. I. Lénine, em três tomos, Edições “Avante!”, 1982, tomo 2, p. 116.

Fonte: Desenvolturas e desacatos