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Para não esquecer quem são os renovadores – recordo a entrevista a RAP

«Temos sempre a ideia de que está ligado ao PCP e que foi membro da JCP…

Na verdade, é mais uma invenção. Nunca militei na JCP. Fiz-me militante do PCP aos 24 anos, após ter acabado a faculdade. Fui um militante muito pouco empenhado – mais uma característica adorável da minha personalidade –, e a minha militância resumiu-se a pagar as quotas durante algum tempo. O Mário Castrim tem um poema em que diz: «Realizo-me quando pago as quotas do partido.» Nunca me aconteceu, devo confessar. Mas paguei-as e, além disso, cheguei a servir sandes de panado e imperiais numa Festa do Avante! – que foi, creio, o ponto mais alto da minha militância. Fiquei colocado no café concerto, um sítio muito giro onde assisti a um espectáculo fabuloso do Manuel Freire. Ele cantou aquelas canções todas – as dele, as do Zeca Afonso, as do padre Fanhais, as do Adriano… Há pessoas que se comovem com histórias de amor, ou perante fotografias de gatinhos. Eu choro quando oiço o Portugal Ressuscitado. A sério. Aquela parte do «Agora, o povo unido nunca mais será vencido» dá sempre cabo de mim. Eu ainda sou do tempo em que o povo existia, sabe? Entretanto, foi extinto. Agora já o expulsaram da Constituição e tudo. Substituíram o povo pela expressão «pessoas». «As pessoas, unidas, jamais serão vencidas» não tem o mesmo encanto. E o Manuel Freire ainda fez aquilo a que poderíamos chamar um stand-up revolucionário. A meio da actuação disse: «O que eu gosto mais na Festa do Avante! é ver estes camaradas que daqui a dois anos vão ser secretários de Estado do PS. Assim, podemos despedir-nos deles já aqui.» Foi muito engraçado. Mas só eu é que achei graça.

Por isso, abandonou a vida partidária?

Já não sou militante do PCP e, na altura em que saí, comecei a escrever uma carta para me desfiliar, mas a carta foi ficando progressivamente mais pequena porque cada vez que voltava a escrevê-la tinha menos coisas para lhes dizer. Eles também devem ter cá um interesse em ouvir-me… Até que não escrevi carta nenhuma.

Não é filiado em algum partido?

Não. Não tenho nenhum interesse na política partidária. Inscrevi-me no PCP dez anos após a queda do Muro de Berlim. O partido vinha de uma derrota autárquica muito forte, e eu achei que era importante inscrever-me porque pensava – e penso ainda – que o Partido Comunista desempenha um papel importante na sociedade. Sou eu e o Melo Antunes. Acreditei mesmo que, naquela altura, o partido já tinha repudiado o regime soviético e o dos países do Leste. Houve dois ou três sinais de que essa crítica tinha sido feita. Mas, de repente, o líder da bancada parlamentar, que é um rapaz da minha idade, disse que não sabia bem se a Coreia do Norte era ou não uma democracia. E o Carlos Brito, o Luís Sá, o João Amaral e outros foram sendo empurrados para fora. E um senhor chamado Manoel de Lencastre escreveu no Avante! um artigo a dizer que o Estaline era um doce de ser humano. E… Portanto eu achei que, se calhar, ia andando. Sou um marxista não-leninista e o PCP nunca deixou de ser um partido marxista-leninista, o que dificulta a minha integração. Se eu pudesse, seria militante do PCP do Mário de Carvalho, do Luís Sá, do João Amaral. O problema é que esse PCP não existe. É uma pena.»

Na íntegra:

In DN

Andar atrás de um matulão que mede 1,93 metros, calça 47 e gosta de fazer rir os portugueses não deixa de ser uma aventura enquanto a crise económica e política abala Portugal. Era essa a tarefa e todos os esforços foram feitos para espremer o humorista Ricardo Araújo Pereira de modo a fazer-se, finalmente, um perfil seu mais aproximado da realidade. A dificuldade em retirar o sumo – poucas vezes com sabor a limão – do humorista foi um desafio, nem que para isso se ficasse a saber que as suas filhas pretendiam chamar Brincos de Princesa a uma das cadelas, que não comenta qual a beldade da Playboy que mais apreciou na edição em que foi capa da revista e que faz questão de confessar a ausência de talento para a representação. A situação que ficou mais clara é que a etnia viva com que menos quer conviver é a classe dos jornalistas, mesmo tendo sido um deles, há 15 anos.
A primeira certeza sobre Ricardo Araújo Pereira (a partir de agora referido como R.A.P.) é que é um ser virtual. R.A.P. não existe, não está, não atende, não comenta, não revela, não aparece e é sempre não numa quantidade de situações. Por isso quando se quer marcar um encontro, R.A.P. anuncia que se teletransportou para outros universos e não revela a data de materialização: «Estou em Cabo Verde… Estou em Londres… Estou em Israel… Estou em Roma…» Ou seja, o que ele quer realmente dizer é: Não estou! E, quando está, garante que do que gosta mesmo é de se fechar em casa.
É esta a ideia que a maioria dos portugueses têm de R.A.P.? Não, ninguém acreditará quando diz que não tira prazer de festas, feiras e romarias. Também se desconfiará quando revela que é dominado pelas três mulheres lá de casa ou que desconfia do poder de influência dos Gato Fedorento. Ou seja, para descodificar R.A.P. é preciso uma grande paciência, pois a primeira nega ao escrutínio que lhe queria fazer já veio por msg há mais de dois anos. Depois de várias tentativas, houve uma brecha e iniciaram-se as negociações para a conversa. Entretanto, meteram-se a fazer o programa Gato Fedorento Esmiúça os Sufrágios e o tempo escasseou. Depois, foi a vez de cumprir um exílio sabático enquanto dava mais umas negas. Finalmente, a brecha alargou-se e houve datas marcadas. Acenou com responder por escrito a umas perguntas iniciais enviadas a meio de Dezembro e, por fim, aceitou sentar-se à mesa para almoçar devido à justificação de que era preciso a sua presença física para tirar as fotografias que ilustram a entrevista.

O prato prometido era para ser lagosta mas acabou por ser substituído por um dim-sum num restaurante chinês. A razão era estratégica, encafuar R.A.P. num espaço que não lhe permitisse a fuga. O Mandarim, no rés do chão do Casino Estoril, era o ideal pois tem umas salas reservadas onde se pode ter uma conversa à vontade e evitar que os fãs deste Gato interrompessem a audição. R.A.P. aceitou a troca da ementa mas, quando viu que tinha sido atraído a uma armadilha, suspirou como se fosse um membro de uma triade apanhado num beco e à mercê dos seus carrascos. A sala só tinha uma porta, no meio uma mesa de interrogatório e, se tentasse fugir pela janela, teria que partir cinematograficamente o vidro. A reacção foi rápida, falar ao telemóvel durante 27 minutos e olhar para o relógio repetidamente até informar que tinha de ir buscar as filhas ao colégio às 15h30.
O drama que expôs, de que as filhas quase ficariam numa rua esconsa à sua espera, deu a entender que só teríamos uma hora e 44 minutos para estar no confessionário. Em desespero de causa, usou um último estratagema, o de falar pausadamente e responder a cada pergunta como se fossem as suas últimas palavras. Foram precisas duas cervejas chinesas para o distrair, enquanto o subchefe Ferreira ia trazendo os pratos a conta-gotas, como lhe tinha sido pedido, e explicar-lhe que só iria poder salvar as miúdas de um destino trágico se dissesse algo interessante na confissão que se segue.
Uma coisa ficou esclarecida enquanto a tortura chinesa ia avançando. Que quando se apanha finalmente R.A.P. para uma entrevista, vem-nos à mente aquela frase mítica dos primeiros tempos dos Gato Fedorento: «Quando vejo que há aí palhaços, pá, que falam falam falam falam, pá, e eu não os vejo a fazer nada, com certeza que fico chateado.» R.A.P. fala fala mas diz muito com substância, mesmo que a música lounge chinesa que acompanhou o almoço o pudesse perturbar. Cada resposta é como as crónicas que escreve – com princípio, meio e fim, faz um ar de surpresa (apesar de dizer que não é actor) de quando em vez se não se revê na pergunta, sabe aproveitar as deixas e gosta de controlar a situação. Ou seja, «há por aí palhaços» mas não me incluam no grupo; se não me vêem a «fazer nada» é porque me toparam e, por fim, «fico chateado» se me obrigam a ser o que não pretendo.
R.A.P. é virtual sim, apouca as suas virtudes sempre que pode e aprecia introduzir ironia no que diz. É a resposta para estes tempos de crise, porque, sendo um humorista que fez questão de ficar no desemprego após o último programa na televisão, a sua perfeita imitação de José Sócrates sempre lhe pode garantir uns cobres ao substituir o primeiro-ministro em situações com menos graça. O único embaraço que se pode atravessar à sua frente é Pinto da Costa continuar a fazer aparições públicas onde faz questão de exibir um talento comparável ao dos Gato Fedorento (a partir de agora referidos como os Gato). Entre uns crepes e umas coisas gelatinosas e esbranquiçadas com camarões no interior, pergunta-se-lhe se isso poderá acontecer.

Pinto da Costa ameaçou-o com um processo e fez uma rábula onde imitava os Gato. Pegou num dicionário e leu o significado das palavras fedorento, fétido e pútrido?

Embora ele diga putrido, com acento no i. De facto, a pedido de Miguel Sousa Tavares, Pinto da Costa processou o Zé Diogo Quintela. Já não é a primeira vez que nos processa e, apesar de ter perdido sempre, continua a fazê-lo. É um direito que lhe assiste, mas temo que esteja a gastar dinheiro que seria mais proveitosamente aplicado na compra de um dicionário que acentuasse correctamente as palavras esdrúxulas.

Porquê a pedido de M.S.T.?

Porque M.S.T. pediu, numa crónica, que o FC Porto abandonasse a sua postura pouco litigante e processasse o Zé Diogo. E Pinto da Costa assim fez. Essa declaração pública foi curiosa, porque Pinto da Costa quis inteirar-se do que significava ser um gato fedorento. Foi pesquisar a palavra fedorento, e daí foi para fétido. Viu o significado de fétido e foi para pútrido. E disse que, quando viu que um dos significados de pútrido era corrupto, parou e não pesquisou mais. Quem acompanha o futebol português não deve admirar-se com o facto de Pinto da Costa necessitar de ajuda para saber o que quer dizer a palavra fedorento, mas não precisar de ir ao dicionário para saber o significado da palavra corrupto.

Sentiram-se lesados com a apropriação de um estilo naquele sketch?

Nunca me sinto lesado quando Pinto da Costa afirma que não gosta de mim. Faz-me lembrar aquela tira de banda desenhada da Mafalda, que detesta sopa, e por isso anseia que o Fidel Castro diga que a sopa é óptima para que as pessoas passem a dizer que a sopa é má. É isso que me acontece com Pinto da Costa: quanto mais disser que sou mau, mais o país dirá «se calhar estes gajos até têm graça».

Rapidamente a polémica Pinto da Costa sai de cena quando chega mais um prato chinês à mesa. Afinal, falar de futebol com R.A.P. só tem um sentido: Benfica. Antes de abandonar o tema, é-lhe perguntado se gosta de ouvir os comentários futebolísticos do dr. Rui Santos. R.A.P. não esperava por esta importante questão mas não se desmancha: «Sempre que vejo, divirto-me.» Ver televisão não é importante para ele, que segue o lema do actor Nicolau Breyner quando este diz: «Para fazer televisão é um preço, mas para a ver é mais caro.» Ambos os actores, refere, aplicam essa tese aos programas que fazem na televisão. Antes que o subchefe Ferreira interrompa o lote de perguntas sobre televisão com outra chinesice, tenta-se saber o porquê dos Gato circularem por vários canais.

A SIC não vos larga, mesmo cobrando cachets muito caros. Porquê?

Só pode ser pela mesma razão que a PT nos quer a fazer anúncios: por sermos muito lindos.

A RTP largou. Foi por cobrarem cachets muito caros?

Não. A RTP pagava o mesmo que a SIC. Simplesmente, na hora de escolher, a RTP não tinha director de programas, e a SIC tinha aquele com quem já tínhamos trabalhado na RTP.

A TVI ainda não vos caçou por cobrarem cachets muito caros?

Acho que a TVI nunca mostrou grande interesse em nós. O que só lhe fica bem, aliás.

Depois de uma entrada mais profissional para relaxar o entrevistado, avança-se para áreas de que menos gosta. A vida privada é uma delas, por isso apetitosa para os leitores mais curiosos mas que desagrada a R.A.P.. Garante que não gosta de dar entrevistas porque não é a sua actividade favorita e porque não tem muita coisa para dizer. Acrescenta logo: «Como, aliás, creio que se nota.» R.A.P. desmerece-se frequentemente. À primeira, passa, à segunda, o chá quente queima a língua e diminui a reacção, mas há sempre aquela vez em que não se escapa, como no caso da aversão a entrevistas: «Não faz sentido estar a responder a todos os pedidos.» Mas não é só essa a razão: «Não é muito importante que as minhas palavras apareçam vertidas nos jornais exactamente como foram proferidas, mas aborrece-me quando inventam.» E, face ao rol de queixas, o assunto fica por aqui mesmo ou para a ERC tratar.

Há muita pressão para dar entrevistas?

Não é bem pressão. As pessoas pedem e eu recuso.

Para manter um low profile?

Não, não é uma estratégia. É só uma maneira de ser.

Sabe-se onde a maior parte dos artistas moram, mas no seu caso não. Na Wikipédia ainda está que mora na Margem Sul; não se vêem fotos suas num evento público

Eu não sou muito dado a festas, feiras e romarias.

E revela também o nome das suas cadelas.

Não sei quem é o inventor desse verbete, mas está cheio de erros. Mas também, se os jornais estão sempre a imprimir informações erradas, porque é que a Wikipédia seria diferente?

São cadelas ou cães?

Cadelas. Chamam-se Lola e Flor, a propósito. Aproveito para fornecer essa interessantíssima informação. O nome da Flor já foi posto pelas minhas filhas. Elas propuseram duas hipóteses de nome: Flor ou Brincos de Princesa. Eu achei que teria alguma dificuldade em estar na rua a chamar Brincos de Princesa a um cão e por isso, apesar de ser um nome um pouco átono, optei por chamar Flor ao bicho.

Há quem não goste de ser fotografado a passear os cães. Isso incomoda-o?

Incomoda-me sempre que vêm emboscar-se para me fotografar quando estou em privado. Ninguém tem nada que ver com o que eu faço quando não estou a trabalhar.

E o que é que faz quando não está a fazer os Gato?

Tenho duas crónicas semanais para escrever – na Visão e n’A Bola –, o programa Governo Sombra, na TSF, e leio. Inscrevi-me num mestrado em Teoria da Literatura, na Faculdade de Letras. Repare que digo «inscrevi-me» e não «frequento», porque entretanto começou o programa e, com muita pena, deixei de conseguir lá ir. Antes, já me tinha inscrito no curso de Estudos Portugueses, na Universidade Nova, e fiz duas cadeiras. Fiz Introdução aos Estudos Literários, com o prof. Gustavo Rubim, e Literatura Portuguesa I, com o professor Fernando Cabral Martins. Tive 19 nas duas, o que significa que tenho média de 19 no curso. O facto de me faltarem umas 83 cadeiras para o acabar é, evidentemente, lateral.

Estudou em vários colégios de padres. Por castigo ou para lhe darem uma educação decente?

A razão deve ter sido a última, mas foi um plano que fracassou clamorosamente mesmo sendo os educadores freiras vicentinas e padres franciscanos e jesuítas. Eu não gosto nada de padrecas, pá. Mas gosto bastante de padres. E tive a sorte de, nesses colégios, ter encontrado sempre mais padres do que padrecas. Eu nem sou baptizado, mas nenhuma dessas pessoas alguma vez disse «o rapaz tem de ser baptizado». Nunca pretenderam converter-me. Claro que há uma perspectiva mais cínica sobre isso: a razão pela qual nunca tentaram converter-me não tem que ver com tolerância, mas com o facto de terem constatado que eu não tinha salvação possível.

Muda de vida quando se torna argumentista das Produções Fícticias. É amor ou humor à primeira vista?

Foi uma sucessão de acasos e de sorte, como quase tudo o que acontece na minha vida. A meio da faculdade fiz um curso de escrita criativa com o Rui Zink, que é amigo do Nuno Artur Silva, dono das Produções Fictícias (PF). Por sugestão do Rui, comecei a escrever, nas PF, textos para o Herman. Hoje, as Produções Fictícias são os nossos agentes e fazem a gestão do orçamento dos nossos programas, que são produzidos e escritos por nós. Mas na altura quis escrever textos humorísticos porque a capacidade de provocar o riso me interessava imenso. É quase absurdo que um ser humano se ria. O único animal que sabe que vai morrer é também o único que ri. Acho, aliás, que é disso que rimos: do facto de estarmos condenados à morte. Cada gargalhada que damos é uma manifestação de superioridade nossa em relação à morte. Provocar o riso é uma tarefa muito nobre. Ah, é verdade, e os textos humorísticos são mais bem pagos que os outros. Caso contrário, mandava a nobreza às malvas.
Se há que destacar um bom resultado nesta investida à vida mais privada de R.A.P., a resposta do nome não posto à cadela – Brincos de Princesa – é a grande revelação. Mas, para quem não desiste, lá se ouvirão mais meia dúzia delas. Nem mais uma, seis apenas: está casado há 12 anos; as filhas têm 4 e 6 anos e é do signo Touro. Esta não vale muito porque era fácil de saber, mas tem dois picantes: «Não acredito em signos, e seria mau se fosse uma influência, porque Salazar nasceu no mesmo dia e Hitler anda por perto.» As três importantes revelações em falta são: o pai era piloto e a mãe hospedeira – «Na altura era muito bom ser da TAP porque as estadas no estrangeiro duravam uma semana no Rio de Janeiro ou em Nova Iorque» – mas já estão reformados. E a última: «Sou ateu.» Há, no entanto, uma novidade a dar e que não é conhecida de todos os portugueses, que em privado existem poucas diferenças entre R.A.P. e Paul Newman. Já lá chegamos, depois de se saber porque é que usou tantas vezes como desculpa estar em viagem para adiar esta entrevista. A pergunta não é directa, para evitar ferir susceptibilidades…

Gosta de viajar. Portugal é um destino ou opta pelo estrangeiro, onde pode estar mais à vontade?

Gosto de estar à vontade, mas não fico embaraçado com o público que me aborda na rua a pedir autógrafos ou para tirar fotografias. É uma situação que não me causa qualquer espécie de engulho.

Por isso prefere o estrangeiro?

Não, eu gosto de viajar, mas o que gosto mesmo é de estar em casa.

Tem feito imensas viagens. Ninguém viaja tanto se não for por prazer

Sim. Gosto.

Quem prepara as viagens?

Eu não faço nada a esse respeito. O Paul Newman dizia uma coisa engraçada: «Em minha casa, eu decido sobre as grandes questões e a minha mulher sobre as pequenas. Ela decide se vivemos na costa leste ou oeste, que tipo de casa temos, em que colégio é que os filhos andam. E eu sou responsável pelas grandes questões: como é que se resolve o conflito israelo-árabe, qual deve ser a nossa posição sobre energia nuclear…» Comigo, é a mesma coisa. Não mando nada nem tenho responsabilidades práticas.

São as suas mulheres que decidem os destinos?

Escolhem tudo. Eu só mando no destino da viagem quando vou ver o Benfica ao estrangeiro. Pensando bem, quem decide isso é a UEFA. Confirma-se, eu nunca decido nada.

Tem medo de viajar de avião?

Tenho. No princípio dos Versículos Satânicos (de Salman Rushdie) o avião dos protagonistas explode e eles vêm em queda livre a rir à gargalhada. Pelo vistos é muito giro, mas mesmo assim não gostaria de experimentar.

Receia ataques terroristas?

Quando estou em Portugal não, porque os terroristas têm a inteligência de nos ignorar. No avião, também não. O meu terror é mesmo que aquilo caia.
Não há dúvida de que é um verdadeiro actor. R.A.P. adiou esta conversa justificando que estava em Cabo Verde, duas vezes em Londres, Egipto, Israel e Roma e evita falar de qualquer um destes destinos. A única abébia que dá aos leitores é ceder uma foto de uma destas terriolas, para fazer inveja. Castiguemo-lo, então, com questões sobre a profissão, para não o deixar provar os bolinhos de sésamo.

Já representou numa peça.

Não se pode chamar àquilo representar. O Pedro Mexia pensou em pegar nos textos do John Austin do livro Como Fazer Coisas com Palavras e fazer uma peça de teatro. Então, pensámos os dois nisso e achámos que era capaz de dar um espectáculo muito interessante, o que não veio a verificar-se. Foi divertido enquanto o preparámos, mas as actuações foram penosas.

Prefere fazer televisão ou teatro?

Não tenho especial interesse em representar em qualquer desses meios.

Nem pensa em fazer como a Rita Pereira e ir estudar para Nova Iorque ou ter sucesso nos EUA como a Daniela Ruah?

Não. Elas são actrizes e fico mesmo contente que a carreira da Daniela Ruah, por exemplo, esteja a correr bem. Foi muito corajosa, a decisão dela. Mas o meu interesse não é representar, não sou um actor. Recebo muitos convites para entrar em filmes, séries e peças, mas respondo sempre com a verdade: não sou actor. Às vezes dizem: «Mas é um trabalho tão giro!» E é, mas para actores. É a mesma coisa que dizerem que querem dar-me a oportunidade de arranjar a canalização do Taj Mahal. Para um canalizador deve ser óptimo, mas eu não percebo nada de canalização.

Vai continuar a recusar convites?

Sim. Não sou actor.

Mas nos Gato tem de compor personagens e representar!

Ali ninguém é actor, faz-se o melhor que se pode. Do ponto de vista da representação não temos nenhum talento criativo. Se houver alguma coisa é talento imitativo. Quando tenho de imitar uma personalidade pública, esforço-me para ver o que é que ela faz para sair igual, quando é uma personagem qualquer, escolho um tio ao calhas e imito-o.

Mas são imitações perfeitas. Treina muito?

Faço aquilo o maior número de vezes que consigo. Se for o Marcelo, passo a semana toda a falar como ele e a aborrecer toda a gente à minha volta. É uma questão de treino, de repetição. Não é talento.
Mesmo que não queiram, os Gato sucedem a uma linha de humoristas como Vasco Santana, António Silva, Raul Solnado e Herman José.

Gosto muito dos filmes deles, mas não me sinto herdeiro do Vasco Santana ou do António Silva. Nem continuador da sua tradição. Eles são de outro campeonato.
Não é o que os portugueses pensam.

É óbvio que todos vêem que há uma diferença clara entre mim e a Maria Rueff, por exemplo. Ela será a herdeira deles, eu não. Não sinto que esteja a continuar o que fizeram porque não estamos no mesmo ofício. Estarei mais perto de quem escrevia os seus guiões do que deles.

Quando foi a eleição dos grandes portugueses, ficou em 74.º lugar e António Lobo Antunes em 82.º?

A minha coroa de glória é Jorge Sampaio ter ficado atrás de mim.
Mas Eusébio ficou muito à frente.

Se dependesse de mim, o Eusébio teria ficado em primeiro. Mas essa lista era uma palhaçada. Havia dois lugares que eram claramente absurdos: o meu e o de um gajo chamado Oliveira qualquer coisa. Salazar, parece que era.

Temos sempre a ideia de que está ligado ao PCP e que foi membro da JCP…

Na verdade, é mais uma invenção. Nunca militei na JCP. Fiz-me militante do PCP aos 24 anos, após ter acabado a faculdade. Fui um militante muito pouco empenhado – mais uma característica adorável da minha personalidade –, e a minha militância resumiu-se a pagar as quotas durante algum tempo. O Mário Castrim tem um poema em que diz: «Realizo-me quando pago as quotas do partido.» Nunca me aconteceu, devo confessar. Mas paguei-as e, além disso, cheguei a servir sandes de panado e imperiais numa Festa do Avante! – que foi, creio, o ponto mais alto da minha militância. Fiquei colocado no café concerto, um sítio muito giro onde assisti a um espectáculo fabuloso do Manuel Freire. Ele cantou aquelas canções todas – as dele, as do Zeca Afonso, as do padre Fanhais, as do Adriano… Há pessoas que se comovem com histórias de amor, ou perante fotografias de gatinhos. Eu choro quando oiço o Portugal Ressuscitado. A sério. Aquela parte do «Agora, o povo unido nunca mais será vencido» dá sempre cabo de mim. Eu ainda sou do tempo em que o povo existia, sabe? Entretanto, foi extinto. Agora já o expulsaram da Constituição e tudo. Substituíram o povo pela expressão «pessoas». «As pessoas, unidas, jamais serão vencidas» não tem o mesmo encanto. E o Manuel Freire ainda fez aquilo a que poderíamos chamar um stand-up revolucionário. A meio da actuação disse: «O que eu gosto mais na Festa do Avante! é ver estes camaradas que daqui a dois anos vão ser secretários de Estado do PS. Assim, podemos despedir-nos deles já aqui.» Foi muito engraçado. Mas só eu é que achei graça.

Por isso, abandonou a vida partidária?

Já não sou militante do PCP e, na altura em que saí, comecei a escrever uma carta para me desfiliar, mas a carta foi ficando progressivamente mais pequena porque cada vez que voltava a escrevê-la tinha menos coisas para lhes dizer. Eles também devem ter cá um interesse em ouvir-me… Até que não escrevi carta nenhuma.

Não é filiado em algum partido?

Não. Não tenho nenhum interesse na política partidária. Inscrevi-me no PCP dez anos após a queda do Muro de Berlim. O partido vinha de uma derrota autárquica muito forte, e eu achei que era importante inscrever-me porque pensava – e penso ainda – que o Partido Comunista desempenha um papel importante na sociedade. Sou eu e o Melo Antunes. Acreditei mesmo que, naquela altura, o partido já tinha repudiado o regime soviético e o dos países do Leste. Houve dois ou três sinais de que essa crítica tinha sido feita. Mas, de repente, o líder da bancada parlamentar, que é um rapaz da minha idade, disse que não sabia bem se a Coreia do Norte era ou não uma democracia. E o Carlos Brito, o Luís Sá, o João Amaral e outros foram sendo empurrados para fora. E um senhor chamado Manoel de Lencastre escreveu no Avante! um artigo a dizer que o Estaline era um doce de ser humano. E… Portanto eu achei que, se calhar, ia andando. Sou um marxista não-leninista e o PCP nunca deixou de ser um partido marxista-leninista, o que dificulta a minha integração. Se eu pudesse, seria militante do PCP do Mário de Carvalho, do Luís Sá, do João Amaral. O problema é que esse PCP não existe. É uma pena.

Hoje revê-se em algum partido?

Não exactamente, mas isso não me causa transtornos de maior. Isso de uma pessoa ter de se rever inteiramente num partido para votar nele é uma mariquice. Voto em quem tenho de votar e acabou-se. Nunca votei à direita do PC. Ou voto no Bloco ou no PC. E nunca fiz segredo disso. Volta e meia dizem-me que é muito grave eu não ser imparcial. Eu quero que a imparcialidade se foda, sabe? A última foi uma jornalista que concorre a eleições – integrada num partido, obviamente. Acha que eu devia ser imparcial. Uma jornalista, note. Com actividade partidária activa. Nada contra, mas não me venha chatear. Eu não gosto de humoristas imparciais – aliás, tenho até dificuldade de me lembrar de algum. Prefiro pessoas que tenham… como é que se chama aquilo? Opiniões, é isso. O humor parte de um ponto de vista sobre a realidade, e cada humorista tem o seu. Não tem o seu e o dos outros. Quando vou ler o Woody Allen, o que me interessa é saber o que ele pensa sobre as coisas. Não quero que diga que é ateu e depois escreva que é muito religioso porque a ERC o obriga a dar uma no cravo e outra na ferradura.
O Bloco de Esquerda também não é uma opção fácil actualmente! Até Sócrates desmascarou Louçã…

Porque ele diz que os PPR não são vantajosos e tem um, não é? O mais surpreendente nisso é um deputado subscrever um Plano Poupança Reforma. As reformas deles são tão boas…

A nível ideológico, acha que estamos um pouco perdidos em Portugal?

Os partidos que ganham eleições não têm ideologia nenhuma. É por isso, aliás, que ganham as eleições. Os chamados catch-all party captam uma fatia de eleitorado muito larga justamente porque não se comprometem com coisa nenhuma. Curiosamente, nas europeias, o PS fez o contrário: em vez de não defender ideologia nenhuma, defendeu todas – menos a socialista, claro, que tradicionalmente é pouco popular entre os socialistas.

R.A.P. publicou, no fim de 2009, o seu segundo best seller: Novas Crónicas da Boca do Inferno. O índice onomástico revela os protagonistas preferenciais dos textos: José Sócrates e Manuela Ferreira Leite. A razão é simples, um exerce o poder e o outro é «a presidente do outro partido de poder. Em Portugal só há esses dois». Há um texto, A Importância de Ser Alegre, que nos liga às próximas eleições.

O que acha do candidato Manuel Alegre?

Acho que é um candidato que, sendo um socialista, como é óbvio, pode recolher o apoio dos partidos de esquerda. Se conseguir também o apoio do PS, pode ganhar as eleições. O Alexandre O’Neill tinha uma designação divertida para um certo tipo de poeta: o «baladeiro audaz». Confesso que Alegre me parece encaixar no perfil de baladeiro audaz. Mas creio que não terei outro remédio senão votar nele.

Não vai votar em Cavaco Silva porque não aceitou participar no Esmiúça os Sufrágios?

O Alegre também não aceitou…
Quando chega a sobremesa de maçã fá-si e bolinhos de leite, R.A.P. já está à beira de uma apoplexia porque, adverte, a estas horas as filhas já foram postas na rua. É possível acreditar num pai, mas num humorista dificilmente… Mesmo assim, abre-se-lhe a porta do reservado e deixa-se vestir o sobretudo da moda. Coloca os óculos escuros e parte a falar ao telemóvel. Uma funcionária diz para outra: «É muito mais alto do que parece na televisão.» Retém-se uma resposta sua: «Aquilo era televisão, não há nada de espontâneos. Foi surpreendente que aceitassem o convite para o Esmiúça, porque não era evidente que aquelas pessoas lá fossem e quisessem ser vistos na minha companhia.»
Retrato de um Gato
«Já era um arrogantezeco armado em bom antes de ser conhecido»

Ainda se lembra de quando não era um humorista famoso?

Sim. Não foi assim há tanto tempo. Mas posso garantir que a fama não me mudou. Eu já era um arrogantezeco armado em bom antes de ser conhecido.

Tem saudades desses tempos de ignorado?

Nem por isso. Saio pouco à rua, e em casa toda a gente me ignora. Não mudou assim tanto para provocar saudades.

Diz que inventam muito sobre a sua vida privada. Pensa nisso enquanto joga golfe?

Isso. Ponha-se com brincadeiras. A partir de agora, para todos os efeitos, passo a ser jogador de golfe. A imprensa censura a pouca sofisticação dos meus gostos, e por isso entretém-se a inventar outros, mais requintados. Só posso agradecer.

No outro dia, uma amiga viu-o no transiberiano.

Também nunca estive no transiberiano. Mas esse não é o único tipo de invenção. Há outros, também giros. Um que tem estado muito na moda tem que ver com os anúncios da PT. Já vi escrito nos jornais que os anúncios são escritos por nós. Pelos vistos, quem faz o anúncio é quem o escreve. Especialistas em publicidade parecem ignorar a existência de uma entidade chamada «agência de publicidade». Mas só funciona connosco. A Bárbara Guimarães não é responsável pelos diálogos daquele jantar sobre contas bancárias. Enfim, o que interessa é andarem entretidos. Tudo o que os afaste da droga…

E um amigo descobriu-o disfarçado a um canto do estádio do Sporting a ver o jogo com o FCP. Gosta de passar despercebido?

Essa, toda a gente vê que é mentira. O estádio de Alvalade tem estado tão vazio que ninguém consegue passar despercebido.

Depois de se ter visto naquele vídeo da RTP quando era novo cortou o cabelo quase à escovinha. Essa história é verdadeira ou foi uma invenção?

Foi invenção. Já rapo o cabelo há muito tempo. Três semanas sem cortar e fico com o penteado que o Pietra tinha nos anos oitenta.

Anda quase sempre de fato porque os Hugo Boss assentam-lhe bem?

A mim tudo me assenta bem. Quando se tem este porte físico tão elegante e proporcionado, até um fato de treino parece um smoking.

Qual foi a modelo ? não vale a pena dizer que nem a leu ? com quem mais gostou de contracenar na revista Playboy?

Eu não contracenei com nenhuma, meu amigo. Fui colocado na capa da Playboy à revelia. Um dia, quando me fui deitar, era um cidadão normal, no dia seguinte, quando acordei, era a Miss Dezembro. Sou uma espécie de Gregor Samsa da pouca-vergonha.

Alguma lhe telefonou a dizer que o queria ver como ela?

Quando a Playboy saiu, fui abordado por senhoras que confessavam alguma frustração por eu não estar nu na revista. Garanti-lhes que, se eu estivesse nu, a sua frustração seria bem maior. Há um passo do Manifesto Anti-Dantas em que o Almada diz que o Dantas, nu, é horroroso. Eu coro sempre que leio essa parte.

As meninas que contracenam com os Gato são normais. Não conseguem miúdas de espantar porquê?

Tem de me mostrar o seu caixote do lixo. As nossas actrizes são sempre muito bonitas. Pois se as mulheres só entram nos nossos sketches para serem objectificadas!…

As suas cadelas devem ser as únicas que gostam de um Gato e, ainda por cima, Fedorento?

Os meus cães nutrem por mim uma admiração extraordinária. Não é por acaso que lhes chamam animais irracionais, sabe?
O Gato literato
«Nenhum farmacêutico é Tolstoi, com excepção do que escreveu a posologia do Ben-U-Ron»

É coordenador de uma colecção de livros. É verdade que gosta mesmo de um triste como Charles Dickens?

É. Uma vez, durante o período em que os Pickwick Papers estavam a ser publicados em fascículos, um padre foi consolar um moribundo e falou-lhe longamente do que o esperava na vida eterna. No fim, o moribundo suspirou e disse: «Bom, o que interessa é que amanhã já sai mais um número dos Pickwick Papers.» Um homem cujos textos são aguardados com mais expectativa do que o paraíso merece a nossa admiração.

Os livros não tinham lombada por originalidade ou porque faltou dinheiro para os encadernar completamente?

A ausência de lombada é, em si, um manifesto, um modo de transmitir a ideia de que a comédia é o género que capta mais profundamente o ser humano, que o apresenta despojado de máscaras, de adereços, de maquilhagens. Estou a gozar, claro. Os livros não têm lombada porque fica bonitinho.

Já apresentou um livro de António Lobo Antunes. Teve paciência para o ler?

Não preciso de paciência para ler o Lobo Antunes. É sempre um prazer. Mas, na apresentação, a professora Maria Alzira Seixo estava mesmo à minha frente, na plateia, claramente a olhar para mim e a pensar: «Quem será este gajo?» Por isso, para mim, aquilo acabou por não ser bem uma apresentação de um livro. Foi uma oral sobre a obra do Lobo Antunes.

Já publicou dois livros de crónicas e vendeu mais do que qualquer jovem esperança da nossa literatura. Tem explicação para esse facto?

Sim. Quando as jovens esperanças da nossa literatura aparecerem na televisão a fazer momices passamos a vender o mesmo.

Escreveu que em grande queria ser escritor e futebolista.

Escritor e futebolista do Benfica. Não tinha interesse em ser futebolista. Descobri isso quando a minha avó morreu e fomos a sua casa arrumar as coisas. Encontrei esse livro guardado, daqueles da escola onde se pergunta o que queres ser quando fores grande e eu escrevi isso. Um facto que revela o discernimento de uma criança porque, como sabe, são duas profissões que normalmente vão a par. Os futebolistas são donos de um domínio da língua muito assinalável. No entanto, falhei nos dois desejos.

Mesmo escrevendo crónicas que o próprio Saramago disse que o obrigavam a começar a ler a Visão pelo fim?

Isso é muito simpático da parte dele, mas não faz de mim um escritor. Todos lêem a bula dos medicamentos mas nenhum farmacêutico é o Tolstoi. Com excepção, talvez, do que escreveu a posologia do Ben-U-Ron. Magistral, aquilo.

Tem vontade de escrever algo com mais fôlego do que a crónica?

Não sinto necessidade nem tenho intenção.

O Gato no futebol
«Meninas, se não forem do Benfica, caem-vos os dentes e o cabelo»

Vale e Azevedo faz-lhe falta para as rábulas?

Não, não. Vale e Azevedo não me faz falta para nada. Há um livro que reúne as crónicas de uma personagem que o Miguel Góis e eu escrevíamos para A Bola e aquilo é quase tudo a fazer pouco do Vale e Azevedo. Deu-nos muito material, mas não lhe agradeço. O que acontece no Benfica é que, quando há um presidente que tem, digamos, uma má relação com a honestidade, boa parte dos benfiquistas critica-o. Quem dera a todos poderem dizer o mesmo, não é? Estive três horas numa fila para votar no Vilarinho, para ver se as rábulas acabavam. Quero lá saber das rábulas.

Escolheu o Benfica porquê?

Essa é que é a grande pergunta. Não posso reclamar os louros dessa decisão porque, apesar de gostar muito de a poder reivindicar – muito embora ela demonstre um discernimento superior às minhas capacidades –, foi o meu primo António que me deu a catequese. Eu era muito pequeno e ele ia buscar-me a casa para me levar ao estádio porque os meus pais não ligavam a futebol. Nos últimos tempos, ele moderou um pouco (coisa que não lhe perdoo, aliás), mas naquela altura o meu primo tinha uma postura admirável, porque via o jogo a fumar um cigarro atrás de outro, a tremer, e torturado por tiques muito estranhos desde o princípio ao fim – coçava a nuca no colarinho, fazia sons com a boca… E eu lembro-me de estar a ver os jogos, observar aquele farrapo humano que era o meu primo durante noventa minutos e pensar: é isto que eu quero ser quando for grande.

Leva as suas filhas ao futebol?

Sim.

Gostam?

Claro. Como são pequeninas, é evidente que não exerço sobre elas uma pressão inadequada e adapto o discurso proselitista. Não me passa pela cabeça oprimi-las com a ideia de que têm de ser benfiquistas. O que lhes digo é: «Meninas, se não forem do Benfica, caem-vos os dentes todos e o cabelo também. E podem mesmo falecer.» Sem pressões.

Vê-se que confiam no pai?

Sim. Porque faço tudo com a maior consideração pela liberdade de escolha delas. Eu só as fiz sócias desde que nasceram e comprei-lhes as camisolas do Benfica para elas vestirem. Mas o número que se estampa nas costas é escolhido por elas. Acima de tudo, a democracia.

E a sua mulher é do Benfica?

Quando nos conhecemos tinha uma simpatia pelo Belenenses. Hoje, o meu sofrimento e o das filhas fazem que deseje ardentemente que o Benfica ganhe sempre.

Esmiuçar os Gato

«Daquela vez não falaram do Mário Crespo»

Os nomes que inventam para os vossos programas são um pouco estúpidos mas pegam. Os portugueses são assim tão fáceis de enganar?

Fico um pouco magoado com a observação de que os nomes são um pouco estúpidos. Tentamos que sejam muito estúpidos. O momento em que comunicamos ao director de programas o nome que escolhemos é sempre divertido. Desta vez, havia duas ou três pessoas da estrutura da SIC (do marketing, ou assim) que diziam que esmiúça era uma escolha trágica porque ninguém sabia o que era esmiuçar. Pumba, hoje esmiúça-se por tudo e por nada. O segredo é nunca supor que o público sabe menos do que nós.

Entrevistar muitos políticos foi fácil?

Foi. Na altura, os jornais disseram que as perguntas eram combinadas com os convidados, o que não faz sentido. Para quê? Seria tempo perdido. Toda a gente sabe que uma pessoa pode perguntar o que quiser a um político, que ele arranja sempre maneira de responder o que lhe apetece.

Qual o que deu mais trabalho?

O professor Marcelo. Senti que devia ter bebido trinta cafés antes do programa para poder rivalizar com a energia do professor.

Quando foi a vez de Mário Soares não lhe conseguiu cortar o pio. Respeitinho?

Nunca cortei a palavra a ninguém. Se eu apressasse as entrevistas, o programa ficaria com menos tempo e nós teríamos de escrever mais texto.

Acha que deixou a Joana Amaral Dias nervosa?

Se há facto da vida de que tenho conhecimento há muito é que um rapaz como eu não deixa nervosa uma rapariga como Joana Amaral Dias.

Foi fácil entrevistar Sócrates no Esmiúça?

A dificuldade principal foi convencê-lo a ir lá. O programa exigiu um esforço criativo maior do que é costume, por ser um programa diário, escrito por quatro gajos entre as 9h00 da manhã e a hora de o apresentar, e que tratava dos assuntos de que se tinha falado no próprio dia. Mas também exigiu um esforço, digamos, diplomático
.
Para não espantar a caça?

Isso também. Se tivéssemos sido muito acintosos com o primeiro convidado já não teríamos ninguém a seguir. Mas o esforço diplomático principal foi conseguir convencer o primeiro-ministro e a líder da oposição a irem ao programa, o que ocupou muito tempo em reuniões com assessores para lhes explicar o que não ia acontecer. Foi um processo muito demorado, até porque houve um duelo táctico exasperante entre o primeiro-ministro e a líder da oposição: um só iria se o outro fosse. Esse jogo era muito perigoso para nós porque podia prolongar-se eternamente. Só na véspera da estreia do programa é que o PM confirmou que estaria presente no dia seguinte. E, mesmo assim, não deixava de ser uma promessa do primeiro-ministro, não é? Continuei a não dormir descansado nessa noite.

Como é que o convenceram?

Estávamos os quatro a almoçar com o Nuno Santos e a discutir o que seria o programa, e nisto entram no restaurante José Sócrates, Pedro Silva Pereira e o ministro da Justiça. Era uma boa oportunidade para o abordar e o Nuno Santos tomou a iniciativa de falar com o primeiro-ministro, logo ali. Excepcionalmente, daquela vez não falaram do Mário Crespo.

Fonte: A águia voa alto

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Crítica a certas visões oportunistas contemporâneas sobre o estado

por KKE [*]

A importância e actualidade do trabalho de Lenine sobre o estado

Cem anos atrás, poucos meses antes da Grande Revolução Socialista de Outubro e em condições políticas particularmente difíceis e complexas, V.I. Lenine escreveu um trabalho de importância fundamental, “O Estado e a Revolução”, o qual foi publicado pela primeira após a Revolução de Outubro, em 1918.

Neste trabalho, Lenine destacou a natureza de classe do estado e a sua essência. “O estado é um produto e uma manifestação da irreconciabilidade dos antagonismos de classe. O estado ascende onde, quando e na medida em que antagonismos de classe objectivamente não podem ser reconciliados. E, inversamente, a existência do estado prova que os antagonismos de classe são irreconciliáveis”. [1]

Lenine também estabelece neste trabalho a necessidade e actualidade da revolução socialista e do estado dos trabalhadores.

Foi baseado nas visões de Marx e Engels quanto à questão do estado, as quais foram formuladas em vários trabalhos, tais como “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte”, “A guerra civil em França”, a “Crítica do Programa de Gotha”, carta de Engels a Bebel sobre o 18 de Março de 1875, a introdução de Engels às terceiras edições de “A guerra civil em França” de Marx em relação à ditadura do proletariado. As conclusões que Marx e Engels extraem do estudo e generalização da experiência e das lições da revoluções era que a classe trabalhadora só pode adquirir poder político e estabelecer a ditadura do proletariado através da revolução socialista, a qual destrói o aparelho de estado burguês e cria um novo aparelho de estado. Assim, podemos caracteristicamente referirmo-nos ao facto de que Marx no seu trabalho “Crítica do Programa de Gotha” enfatizou que: “Entre a sociedade capitalista e a comunista está o período da transformação revolucionária de uma para a outra. Correspondendo a isto está também um período de transição política no qual o estado não pode ser senão a ditadura revolucionária do proletariado”. [2]

Lenine destacou a importância fundamental desta questão para aqueles que compreendem a existência e o papel determinante da luta de classe no progresso social, notando que “deveria ser dada atenção particular à observação extremamente profunda de Marx de que a destruição da máquina de estado burocrática-militar é “a condição prévia para toda revolução popular real” [3] e enfatizou que “Só é marxista quem estende o reconhecimento da luta de classe ao reconhecimento da ditadura do proletariado”. [4]

Além disso, Lenine procurou descrever as características da formação social-política comunista, aspectos básicos do estado socialista, enquanto criticou severamente visões da direita oportunista e anarquista em relação ao estado.

Naturalmente, este trabalho específico de Lenine, e isto é verdadeiro para o resto de toda a titânica colecção das suas obras, não pode ser apartado dos seus outros trabalhos, tais como por exemplo “A Revolução Proletária e o renegado Kautsky” e deve sempre ser abordado num relacionamento dialéctico com os desenvolvimentos históricos. Seja como for, contudo, a abordagem leninista do estado é um enorme legado para movimento comunista internacional, o qual deve ser utilizado de um modo adequado a fim de repelir visões social-democratas e oportunistas acerca do estado, as quais têm penetrado e continuam a penetrar o movimento comunista internacional. Consequentemente, o objectivo desta intervenção não é apresentar as posições leninistas ou citações apropriadas de Lenine, mas fornecer uma resposta baseada no entendimento marxista-leninista do estado às visões oportunistas contemporâneas. Isto é ainda mais relevante hoje, quando muitas visões que Lenine combateu no seu tempo estão a reemergir em formas velhas e novas.

O entendimento “neutral” não classista do estado

As forças do oportunismo europeu constituíram a ferramenta básica para a nova diluição das características comunistas dos partidos comunistas e de trabalhadores. Trata-se de forças que são veículos para a ideologia burguesa no interior do movimento dos trabalhadores. Na Europa, elas estabeleceram o seu próprio centro ideológico-político e organizacional: o Partido de Esquerda Europeu (PEE), ao qual aderiram alguns PCs que no passado foram profundamente influenciados pelo eurocomunismo, tais como os PCs da França e da Espanha. O SYRIZA nele participa por parte da Grécia. Trata-se de um partido que contém forças influenciadas pela corrente eurocomunista que se separou do KKE em 1968, assim como forças que se separaram do KKE em 1991, sob a influência do “Novo pensamento” de Gorbachev. Este partido posteriormente fundiu-se com forças que vieram do PASOK social-democrata.

Tal partido argumenta que: “O estado, contudo, não é uma fortaleza mas sim uma rede, arena de relacionamento estratégico para a luta política. Ele não muda de um dia para o outro, mas ao contrário sua necessária transformação pressupõe batalhas constantes e contínuas, o envolvimento do povo, democratização contínua”. [5]

Como se verifica acima, eles não consideram que o estado burguês constitua por sua própria natureza um órgão para a dominação da classe burguesa, mas sim uma colecção de instituições que podem ser transformadas numa direcção a favor do povo. Com base nesta visão, argumenta-se que o carácter das instituições do estado burguês, o estado burguês como um todo, pode ser adequadamente modelado desde que existam “governos de esquerda”.

Isto é claramente uma visão enganosa, porque na prática destaca o estado da sua base económica, das relações económicas dominantes. Cria ilusões entre os trabalhadores de que o papel do estado burguês e suas instituições (ex. parlamento, governo, exército, polícia) depende das forças políticas (“esquerda” ou “direita”) que os dominam.

Analogamente, visões perigosas estão a ser hoje cultivadas num certo número de países latino-americanos, através do conceito de “progressismo”, por meio de vários governos “progressistas” e “de esquerda”, os quais após as suas vitórias eleitorais tentam semear ilusões entre o povo de que o sistema pode mudar através de eleições burguesas e referendos.

Contudo, na realidade não há “neutralidade” de classe por parte do estado burguês e suas instituições. O estado, como o marxismo-leninismo tem demonstrado, tem um claro conteúdo de classe, o qual não pode ser usado através de processos eleitorais e soluções governamentais burguesas em favor da classe trabalhadora e da mudança social.

Acerca da visão respeitante ao “Estado Profundo”

A emergência do SYRIZA como partido governante na Grécia levou a celebrações de muitas forças oportunistas por todo o mundo. Na verdade, sua cooperação no governo com o partido nacionalista ANEL foi interpretada por alguns como uma tentativa de controlar o estado profundo da Grécia através desta aliança política governamental. [6] Analogamente, alguns apresentaram as declarações feitas por A. Tsipras ainda antes das eleições, quando afirmou directamente que a Grécia “pertence ao ocidente” e que a retirada da Grécia da NATO não estava na agenda, como sendo um movimento inteligente. [7]

Qual é o objectivo desta visão que separa as funções do estado burguês umas das outras como “fatias de salame”? Naturalmente, no interior do aparelho de estado do estado burguês há estruturas com diferentes funções e tarefas. Contudo, isto confirma a visão que separa o estado em secções “duras” e “moles”. Assim, por exemplo, as municipalidades, os serviços locais são uma parte integral da administração burguesa, pois os governos locais também são encarregados de implementar a estrutura legal reaccionária e anti-povo que é aprovada por cada governo burguês e a sua maioria parlamentar. Os comunistas no nosso país são activos nos governos locais, procuram ganhar a maioria nas municipalidades e hoje alcançaram isto em cinco municipalidades do país, as quais incluem a 3ª maior cidade na Grécia, Patras. Contudo, eles não promovem ilusões entre os trabalhadores acerca do carácter desta secção do estado burguês. Procuram, como oposição ou como maioria na administração das municipalidades, utilizar sua posição para desenvolver a luta de classe e não para “limpar” o capitalismo, o que é aquilo que defendem o SYRIZA e outras forças oportunistas.

Estas forças oportunistas acham conveniente a separação do estado burguês em secções. Acima de tudo, porque isto pode ocultar que todo o aparelho de estado, apesar das diferentes funções das suas secções, está ao serviço da classe burguesa. Em segundo lugar, porque deste modo semeiam a ilusão entre os trabalhadores de que gradualmente, começando da “periferia” do estado burguês e marchando para o “centro”, para as suas “profundidades”, eles podem limpá-lo, transformando-o num estado que será a favor do povo.

Forças oportunistas promovem visões utópicas semelhantes igualmente acerca das uniões capitalistas inter-estatais, tais como a imperialista UE. Na verdade, elas apregoam que através de referendos ou da emergência da esquerda, governos social-democratas, alegadamente uma “estrutura democrática para o continente” pode ser criada com “respeito pelos direitos democráticos e soberanos dos povos” [8] . Na realidade, tais afirmações contornam o carácter de classe desta união inter-estatal, a qual decorre do carácter de classe dos estados burgueses que a constituem e que, desde o seu nascimento em 1952, como “Comunidade Europeia do Carvão e do Aço”, foi criada para servir os interesses do capital.

A expansão da democracia no estado burguês como um “passo” para o socialismo

Lenine entrou em conflito agudo com aqueles, como Bernstein, que argumentavam ser possível a reforma do capitalismo e a gradual transformação reformista da sociedade.

Posteriormente, as visões do eurocomunismo ganharam um bocado de terreno, visões a argumentarem que comunistas podem transformar o estado numa direcção a favor do povo através da via parlamentar e da expansão da democracia.

O KKE, o qual combateu e continua hoje a combater tais visões, considerou que avaliações semelhantes feitas pelo PCUS fizeram um grande dano ao movimento comunista internacional. Estas visões chegaram a dominar o movimento comunista internacional principalmente após o 20º Congresso do PCUS e falavam de uma “transição parlamentar” [9] . Consequentemente, consideramos serem problemáticas visões desenvolvidas nesta base e que argumentam em favor da violação de princípios básicos da revolução e da construção socialista, como por exemplo conversas acerca de “uma variedade de formas de transição para o socialismo” ou o assim chamado “caminho de desenvolvimento não capitalista”.

O KKE extraiu conclusões e rejeitou as “etapas para o socialismo”, as quais atormentaram e continuam hoje a atormentar o movimento comunista, pois devido a estas “etapas” eles por um lado negam o papel dos PC como força para o derrube do capitalismo em nome de tarefas “actuais” no quadro do sistema (ex. o objectivo de restaurar a democracia burguesa nas condições de ditadura) e por outro lado semeiam ilusões acerca da “transição parlamentar” para o socialismo.

O KKE estuda sua história, extrai conclusões valiosas das lutas heróicas dos comunistas nas décadas passadas. O CC do KKE notou entre outras coisas na sua declaração recente sobre o 50º aniversário da Junta na Grécia: “O KKE e o movimento dos trabalhadores e do povo procuram e lutam por funcionar nas melhores condições possíveis, as quais facilitarão sua luta e mais geralmente expandem suas intervenções contra o capital e o seu poder. Eles lutam por liberdades e direitos, a fim de remover obstáculos à sua actividade, a fim de restringir – tanto quanto possível – a repressão estatal”. [10] No entanto, nosso partido, ao estudar a sua história, avalia que: “A ditadura forneceu nova experiência que demonstra o carácter sem fundamento da avaliação que existia no Movimento Comunista Internacional e no KKE, de que o caminho da luta por uma democracia burguesa avançada é terreno fértil para a concentração de forças e que aproxima o processo revolucionário, que a luta pela democracia está dialecticamente conectada à luta pelo socialismo. Esta avaliação impediu o partido de pôr em relevo a ditadura militar como uma forma de ditadura do capital, impediu a orientação da luta popular como um todo contra o inimigo – a ditadura da classe burguesa e suas alianças imperialistas, como a NATO”. [11]

Hoje, visões erradas semelhantes estão a ser promovidas dentro das fileiras do movimento comunista. Trata-se de visões que ou falam de “etapas” na estrada para o socialismo ou de comunistas a “penetrarem” o poder, com o objectivo em ambos os casos de expandir a democracia, como uma primeira etapa para o socialismo.

Na prática, tais visões adiam a luta para o derrube da exploração capitalista para um futuro distante, armadilha e restringe o movimento dos trabalhadores dentro do quadro de apenas lutar por melhores condições para a venda da força de trabalho, negando a orientação da luta para radicalizar o movimento dos trabalhadores, reagrupá-lo, concentrar forças sociais, as quais têm um interesse em confrontar os monopólios e podem lutar pelo derrube do capitalismo e a construção da nova sociedade socialista-comunista.

A nacionalização de negócios capitalistas como um passo para mudar a natureza do estado

Existe confusão semelhante quanto a questões relativas à economia. Durante muitos anos o movimento comunista internacional, o qual esteve e em grande medida continua a estar preso na lógica de etapas para o socialismo, viu o reforço do sector estatal do estado burguês como um passo para o socialismo.

Na verdade, hoje alguns compreendem mal a posição leninista de que “o capitalismo monopolista de estado é uma preparação material completa para o socialismo, o patamar do socialismo, uma fase na escada da história entre a qual e a fase chamada socialismo não há fases intermediárias” [12] a fim de justificar o apoio activo e a participação de comunistas na gestão burguesa com um sector estatal ampliado da economia. Mas deste modo eles entendem erradamente capitalismo monopolista de estado como sendo a existência de um sector estatal forte na economia e não como imperialismo, a etapa superior de capitalismo, tal como descrita por Lenine.

A vida tem demonstrado que o capitalismo, de acordo com as suas necessidades, pode admitir que uma grande secção da economia do país seja administrada pelo estado. Assim, por exemplo, nas décadas de 1970 e 1980 a maior parte da economia grega estava nas mãos do estado, contudo isto não mudou de todo o carácter do estado burguês. Nem, naturalmente, significou que uma política de nacionalizar gradualmente negócios privados, que habitualmente significa simplesmente capitalistas a passarem suas dívidas para o estado, pudesse levar a uma mudança do seu carácter. Desde que o poder esteja nas mãos da classe burguesa, o estado (com um sector estatal mais forte ou mais fraco) será burguês e a classe dominante actuará como o “capitalista colectivo” da propriedade estatal.

O nome do estado como reflexo de como é encarada sua natureza

Lenine descreveu aspectos básicos do estado dos trabalhadores. Não podemos fechar os olhos à análise de Lenine e simplesmente orientar-nos para os adjectivos que acompanham o nome do estado. Hoje, por exemplo, emergiram a “República Popular de Lugansk” e a “República Popular de Donetsk”. Qual é o carácter destas auto-proclamadas “Repúblicas Populares”? E como um aparte a esta discussão, podíamos ter em mente a existência, por exemplo, da chamada “República Democrática do Congo”, onde crianças pequenas trabalham nas minas em condições terríveis de modo a que monopólios estrangeiros possam adquirir minérios valiosos como o cobalto e o cobre.

Consideramos que não podemos julgar um estado e a nossa posição em relação a ele exclusivamente com base em como ele se auto-define e nas suas proclamações. Um critério básico deve ser qual classe possui os meios de produção e mantém o poder no estado específico, que espécies de relações de produção são predominantes no país específico. E isto é assim porque o estado, para marxistas-leninistas, é uma “máquina repressiva”, o qual objectivamente na nossa era, no século XXI, na era da passagem do capitalismo para o socialismo, anunciada pela Revolução de Outubro, ou estará nas mãos da classe burguesa ou da classe trabalhadora. Não há caminho intermédio!

Não devemos esquecer que como sempre, e os dias de hoje não são excepção, as classes burguesas procuram ocultar seus objectivos, ocultar o carácter de classe do seu estado. Assim, por exemplo, um método clássico que a classe burguesa utiliza para camuflar o estado é a projecção do seu carácter “nacional”, apresentando seu estado como um “arma” para defender todo o país. O burguês hoje não hesita em utilizar também outras “armas” de propaganda a fim de subordinar o movimento dos trabalhadores “sob as suas bandeiras”. Os comunistas, o movimento dos trabalhadores como um todo, devem demonstrar alto nível de vigilância quando políticos burgueses, que contribuíram para a restauração capitalista na antiga URSS, hoje utilizam o “cartão” anti-fascista.

Hoje, quando a classe burguesa também está a reforçar forças fascistas, algumas da quais procuram mesmo desempenhar um papel no governo, tais como por exemplo na Ucrânia, os apelos a novas “frentes anti-fascistas” e por alianças mesmo com forças políticas burguesas, e mesmo estados burgueses que aparecem sob um manto anti-fascista, estão a intensificar-se. Contudo, como o KKE avaliou na Declaração do CC do KKE sobre os 70 anos desde o fim da 2ª Guerra Imperialista Mundial e da grande vitória anti-fascista dos povos: “O estado reaccionário burguês não está nem desejoso nem é capaz de enfrentar a raiz e os ramos do nazismo; nem tão pouco o podem as chamadas “frentes anti-fascistas”, alianças de movimentos populares e dos trabalhadores em cooperação com forças políticas burguesas. Só a aliança do povo, o desenvolvimento da luta de classe com o objectivo de derrubar o poder dos monopólios, o sistema capitalista, pode enfrentar o nazismo”. [13]

Além disso, o KKE considera que hoje o objectivo de poder dos trabalhadores não deve ser posto de lado por algum outro objectivo governamental no terreno do capitalismo, em nome da deterioração da situação da classe trabalhadora e dos extractos populares, devido à profunda e prolongada crise económica, à guerra imperialista, ao terror aberto contra o PC e o movimento dos trabalhadores por organizações nazi-fascistas, provocações, a intensificação da violência do estado. [14]

A construção socialista e o estado sob o socialismo

Durante décadas sociais-democratas e oportunistas têm estado a executar, dentre outras coisas, um esforços sistemático para negar toda abordagem científica do socialismo e seu estado. Lemos, por exemplo, no material do centro oportunista da Europa, o PEE, que ele defende as “perspectiva de um socialismo democrático”. E esta “perspectiva socialista” é definida pelo PEE como “uma sociedade de justiça fundada na combinação (pooling) da riqueza e dos meios de produção, e na soberania da escolha democrática, em harmonia com os recursos limitados do planeta”. Confusões semelhantes e abordagens anti-marxistas da sociedade socialista têm-se multiplicado em anos recentes com os vários “socialismos” da América Latina. Desde o “Socialismo para o Século XXI” de Chavez aos “socialismo do buen vivir ” no Equador, onde o dólar estado-unidense é utilizado como a divisa nacional.

Para nós, eles têm como objectivo ignorar o facto de que na base de toda formação sócio-económica está um modo específico de produção, a qual é a unidade dialéctica das forças de produção e das relações de produção. As relações de produção como um todo em toda fase do processo de reprodução-produção, distribuição, intercâmbio, consumo constituem a base económica da sociedade. Abordando a questão cientificamente, Lenine sublinhou que: “Na produção social da sua vida, os homens entram em relações definidas que são indispensáveis e independentes da sua vontade, relações de produção as quais correspondem a uma etapa definida do desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. A soma total destas relações de produção constitui a estrutura da sociedade, a fundação real, sobre a qual ascende uma superestrutura legal e política e à qual correspondem forma definidas de consciência social”. [15]

J.V. Staline notou: “Há dois tipos de produção: a capitalista, incluindo o estado-capitalista, em que há duas classes, em que a produção é executada para o lucro do capitalista; e há o outro tipo, o tipo socialista de produção, em que não há exploração, em que os meios de produção pertencem à classe trabalhadora e em que as empresas são dirigidas não para o lucro de uma classe alheia, mas para a expansão da indústria no interesse dos trabalhadores como um todo”. [16]

Eis porque o KKE rejeita várias interpretações de socialismo que nada têm a ver com a visão marxista-leninista. E como tem sido sublinhado em relação às visões do PEE, ou aos vários “socialismos” da América Latina, o que temos em essência é a promoção de posições oportunistas acerca da “humanização” do capitalismo, “a utopia acerca da democratização do estado burguês, enquanto a economia capitalista “mista” está a ser apresentada como um novo modelo de socialismo. “A lógica de especificidades nacionais constitui um instrumento do “eurocomunismo” a fim de negar as leis científicas da revolução e da construção socialista e hoje o problema manifesta-se com os mesmos argumentos ou semelhantes. (…) a fim de [tentar] confirmar a substituição do caminho revolucionário pelo parlamentarismo, o abandono do socialismo por mudanças governamentais que administrarão a sociedade burguesa, como por exemplo fazem o Fórum São Paulo e outras forças. A construção do socialismo é um processo unificado, o qual começa com a conquista do poder pela classe trabalhadora a fim de formar o novo modo de produção, o qual prevalecerá com a completa abolição de relações capitalistas, relações capital – trabalho assalariado. A socialização dos meios de produção e a planificação central são leis da construção socialista, condições necessárias para a satisfação da necessidades do povo”. [17]

O KKE, estudando a experiência da construção socialista avaliou as reformas económicas de 1965 na URSS como erradas. Trata-se de reformas que deram prioridade a “reformas de mercado” e trouxeram de volta para a economia socialista o papel do lucro. Em consequência emergiram nas empresas interesses especiais (vested interests). As reformas erradas na economia foram combinadas com direcções erradas semelhantes na superestrutura política (ex.: o estado de todo o povo) e na estratégia do movimento comunista internacional (ex.: política de “coexistência pacífica”). Naturalmente, nosso partido discorda das avaliações de PCs que foram arrastados para a corrente danosa do “maoismo” e consideraram que de um momento para outro, imediatamente após o 20º Congresso, o estado dos trabalhadores deixou de existir ou na verdade que estava alegadamente transformado em “social-imperialismo” e assim participaram na propaganda anti-soviética. Em contraste, nosso partido, o qual defende a contribuição da URSS como o fez o movimento internacional comunista e dos trabalhadores, considera que o socialismo foi construído na URSS. Contudo, também considera que o 20º Congresso do PCUS foi um ponto de viragem, devido a um certo número de posições oportunistas que foram adoptadas sobre questões relativas à economia, à estratégia do movimento comunista e a relações internacionais.

Hoje, avaliamos que 30 anos após a contra-revolução na URSS, Europa Central e do Leste, a capitalização da China avançou. Ali existem relações de produção capitalistas. Ao mesmo tempo observamos o contínuo reforço de relações capitalista em países que procuraram a construção socialista, tais como Vietname e Cuba. [18]

Alguns camaradas de outros PCs argumentam que os desenvolvimentos nestes países são resquícios da NEP na era de Lenine. Em outros textos [19] , destacámos as diferenças entre a NEP e as mudanças que se verificam nestes países e com cujos resultados nosso partido está preocupado, baseado no seu longo estudo da experiência da URSS. E isto é assim porque a socialização dos meios produção concentrados, a planificação central na distribuição da força de trabalho e dos meios de produção, a erradicação da exploração do homem pelo homem para a maioria dos trabalhadores são condições básicas e necessárias, não só para o começo da construção socialista como também para a sua continuação.

Além disso, com observou Lenine, “a ditadura do proletariado não é apenas a utilização da força contra os exploradores e nem mesmo principalmente a utilização da força. O fundamento económico desta utilização de força revolucionária, a garantia da sua eficácia e êxito está no facto de que o proletariado representa e cria uma organização social do trabalho de tipo superior em comparação com o capitalismo. Isto é que é importante, isto é a fonte do fortalecimento e a garantia de que o triunfo final do comunismo é inevitável”. [20] Está claro que esta “organização social de tipo superior” nada pode ter a haver com o nepotismo. Como foi observado no Relatório do CC do KKE ao 20º Congresso do partido, “a Coreia do Norte tem prosseguido o reforço das chamadas “zonas económicas livres”, o “mercado”. O Partido dos Trabalhadores da Coreia abandonou por alguns anos o marxismo-leninismo e promove a idealista teoria “Juche”, fala de “kimilsunguismo-kimjongunismo”, violando todo conceito de democracia socialista, do controle dos trabalhadores e do povo, num regime de nepotismo”. [21]

Ao invés de um epílogo: Devemos acabar com as “evasivas” da 2ª Internacional

O KKE efectuou um estudo profundo das causas que levaram ao derrube do socialismo na URSS, seguindo o caminho de muitos anos de estudo e discussão no interior do partido e dedicando o 18º Congresso (em 2009) a apresentação de respostas abrangentes sobre esta questão, extraindo conclusões valiosas para o futuro. Com base neste esforço, baseado no marxismo-leninismo, nosso partido enriqueceu o seu entendimento programático do socialismo, algo que está reflectido no novo Programa adoptado no 19º Congresso (2013).

O Programa do KKE nota entre outras coisas: “O poder socialista é o poder revolucionário da classe trabalhadora, a ditadura do proletariado. O poder da classe trabalhadora substituirá todas as instituições burguesas, as quais serão esmagadas pela actividade revolucionária, com novas instituições que serão criadas pelo povo”. [22]

Além disso, o Programa do KKE descreve em pormenor:

A base material da necessidade do socialismo na Grécia
Os deveres do KKE para a revolução socialista
Seus deveres mais especificamente sobre a situação revolucionária
O papel principal do Partido na revolução
Socialismo como a fase primeira e mais baixa do comunismo
A questão da satisfação das necessidades sociais
Princípios fundamentais da formação do poder socialista
O 20º Congresso do KKE, efectuado este ano, de 30 de Março a 2 de Abril de 2017, colocou a tarefa abrangente do endurecimento (steeling) ideológico-político-organizacinal do partido e da sua juventude como um partido para o derrube revolucionário.

Cem anos atrás, no fim da sua obra “O estado e a revolução”, Lenine notou que a 2ª Internacional havia caído em espiral dentro do oportunismo, que a experiência da Comuna fora esquecida e distorcida e acrescentou que: “Longe de inculcar nas mentes dos trabalhadores a ideia de que se aproxima o tempo em que devem actuar para esmagar a velha máquina estado, substituí-la por uma nova e deste modo fazer do seu domínio político o fundamento para a reorganização da sociedade, eles realmente pregaram às massas exactamente o oposto e retrataram a “conquista do poder” de um modo que deixava milhares de evasivas para o oportunismo”. [23]

Hoje, 100 anos após a Grande Revolução de Outubro e um ano antes do 100 aniversário da fundação do nosso partido, o KKE procura com suas posições e actividade barrar as “portas e janelas” ao oportunismo. Isto é uma condição prévia para a realização dos ideais de uma sociedade sem a exploração do homem pelo homem.

[1] “State and Revolution”, V.I. Lenin, Collected Works, V. 25
[2] “Critique of the Gotha Programme”, K. Marx
[3] “State and Revolution”, V.I. Lenin, Collected Works, V.25
[4] “State and Revolution”, V.I. Lenin, Collected Works, V.25
[5] From SYRIZA’s governmental programme.
[6] The Real News Network, Interview (28/1/2015) with Leo Panitch, Professor of Political Science at York University, Toronto, Canada. therealnews.com/…
[7] Article of Paul Mason (1/9/2015), former BBC journalist and former economics editor for Channel 4 http://www.irishtimes.com/…
[8] 5th Congress of the PEL. Political Document: “Refound Europe, create new progressive convergence”
[9] 18th Congress of the KKE, Resolution on Socialism. February 2009
[10] “Statement of the CC of the KKE on the Military Coup of the 21st of April 1967. Rizospastis, 5 March 2017.
[11] Ibid
[12] “The impending catastrophe and how to combat it”, V.I. Lenin, Collected Works, V.25
[13] Declaration of the CC of the KKE on the 70 years since the end of the 2nd World Imperialist War and the great anti-fascist victory of the peoples. April 2015
[14] ibid
[15] “Karl Marx”, V. I. Lenin, Collected Works, V.21
[16] J.V. Stalin, Works, V. 7
[17] Speech of the KKE at the 16th International Meeting of the Communist and Workers’ Parties in Ecuador.
[18] Theses of the CC of the KKE for the 20th Congress.
[19] “The international Role of China”, Komep 6/2010
[20] “A great beginning”, V.I. Lenin, Collected Works, V. 29
[21] Report of the CC of the KKE to the 20th Congress of the party, March 2017.
[22] Programme of the KKE, 2013
[23] “State and Revolution”, V.I. Lenin, Collected Works, V. 25

[*] Posição da secção de relações internacionais do CC do KKE na 11ª Conferência anual “V.I. Lenine, a Revolução de Outubro e o mundo contemporâneo”.

A versão em inglês encontra-se em inter.kke.gr/

Este documento encontra-se em http://resistir.info/ .
23/Abr/17

«Política do pau e da cenoura» – a complementaridade entre as migalhas da social-democracia e a repressão do fascismo

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A expressão «política do pau e da cenoura» contém os elementos da expressão inglesa carrot and stick.

Com estas palavras pretendemos dizer que qualquer cavalo (ou burro) pode correr se o cavaleiro pendurar uma cenoura à frente do focinho. Se este processo não for suficiente, então ele usará o pau (ou o chicote).

Em sentido figurado, queremos dizer que há métodos políticos que recorrem também ao “pau” (métodos mais violentos) e à “cenoura” (compensações aliciantes) na persecução dos seus objectivos.

Fonte: Ciberdúvidas

O Syriza e a Aurora Dourada – quando a social-democracia se encontra com os nazis

SYRIZA and Golden Dawn- When Social Democracy met with the Nazis

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From the left to right: Ilias Kasidiaris (Golden Dawn), Nina Kasimati (SYRIZA), Dimitris Vitsas (Alternate Defense Minister, SYRIZA), Panos Kammenos (Defense Minister, ANEL), Eleni Avlonitou (SYRIZA).

The islands of Kastelorizo, Ro and Stroggyli in south-eastern Aegean was the destination of a short visit by Greece’s Minister of Defense Panos Kammenos, the Chief of the General Staff Admiral V.Apostolakis and 9 members of the Parliament’s Committee on Foreign Affairs and Defense. Among the members who accompanied Kamenos were 5 MPs from SYRIZA, 1 MP from the right-wing ANEL (Independent Greeks) party, 1 MP from the Center Union party and 2 members from the Nazi-fascist Golden Dawn!

The MPs of the Nazi-criminal Golden Dawn who appear in the photos, along with Minister Kamenos and SYRIZA MPs, are Ilias Kasidiaris and Christos Pappas. Neo-Nazis, admirers of Hitler and the Third Reich, both Kasidiaris and Pappas belong to the leading circles of Golden Dawn.

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These are the two Nazis- Golden Dawn members- who appear in the photos with governmental officials and SYRIZA MPs:
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Kasidiaris (on the left) with his swastika tattoo and Pappas giving a Nazi salute.

Not enough? Lets see another one:
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Golden Dawn’s Christos Pappas showing his “ideology”. On the right photo, he teaches a child how to salute like a proper Nazi.

* * *
No MP from the KKE participated in this farce. The Press Office of the CC of the Communist Party of Greece issued a comment in which denounces the presence of Golden Dawn-Nazi thugs in Defense Minister’s mission in Kastelorizo. “The setting of the mission, with the governmental SYRIZA-ANEL MPs, alongside the fascists of Golden Dawn, shows that such actions pave dangerous roads” states the KKE comment among other things.

It should be also noted that members of the Golden Dawn Nazi-fascist organisation have been prosecuted for establishing a criminal gang. The trial of Golden Dawn, which faces numerous charges for murders, violent attacks and other illegal activities, is still under way.

Read more about the Nazi Golden Dawn:

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– Golden Dawn Trial: The murderous attack against the members of KKE and PAME was planned and organized.

– Golden Dawn’s neo-Nazis: Puppets of EU’s Monopoly Capitalism.

– €600,000 for Hitler’s political descendants: How the EU funds Neo-Nazi Parties.

– VIDEO: Golden Dawn’s Neo-Nazi thugs attack TV crew in Piraeus.

Fonte: In Defence of Communism

Lidar com o oportunismo (do livro: Assuntos teóricos a respeito do programa do KKE)

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Excerto do livro: THEORETICAL ISSUES REGARDING THE PROGRAMME OF THE COMMUNIST PARTY OF GREECE (KKE)

«(…)A experiência do KKE a confrontar o oportunismo
Lenine definiu o dever de confrontar o oportunismo como uma precondição essencial de forma que o Partido possa concretizar os seus objectivos revolucionários: “A não ser que a secção revolucionária do proletariado esteja exaustivamente preparada para a expulsão e supressão do oportunismo é inútil sequer pensar em ditadura do proletariado. Essa é a lição da revolução Russa” que devia ser levada a peito pelos líderes do Sociais-Democratas Alemães “independentes”, pelos socialistas Franceses e por aí fora, que agora querem evitar o assunto pela via do reconhecimento verbal da ditadura do proletariado” [32]

Inicialmente, o oportunismo não aparece como uma corrente política ideológica organizada. A experiência histórica provou que o oportunismo inicialmente aparece debaixo da superfície de várias maneiras e que utiliza problemas objectivos que aparecem no desenvolvimento da luta do movimento operário.

O suavizar de princípios operacionais do partido constitui a base para o gradual deslizar para teses oportunistas.

Ele (o oportunismo) aparece quando os desenvolvimentos e as necessidades requerem o ajustamento das tácticas do movimento para novas condições.

A tendência a subestimar as dificuldades, sobrestimar os sucessos, subestimar a complexidade e a natureza de longo-prazo da luta e vice versa, a tendência para a desilusão e compromisso com as dificuldades, a absolutização dos fracassos e a retirada da luta de classe são expressões do oportunismo.

O oportunismo desenvolve-se e amadurece de tal maneira. A princípio um erro táctico ou até um erro mais sério relativo aos princípios do Partido pode ocorrer que pode ser transformado com o tempo num desvio e finalmente ele pode tornar-se numa corrente política e numa direcção geral. Este assunto não significa que todos os erros cometidos pelo PC são devidos a uma atitude oportunista ou devido a um desejo de compromisso. Contudo o Partido é julgado pela sua capacidade de corrigir os seus erros. Caso contrário, os erros serão consolidados e isso objectivamente leva ao desvio.

No seu processo de formação e amadurecimento dentro do PC ou dentro do movimento, o oportunismo utiliza declarações revolucionárias e esconde as suas divergências a respeito dos princípios do PC com várias discordâncias tácticas em nome da revolução. Ele pode ser expresso como: a Submissão a uma correlação de forças negativa em nome da acção táctica, a abstracção ou a equivalência da estratégia com as tácticas e o desprendimento de objectivos individuais da estratégia.

Existem vários momentos em que a responsabilidade pelo desenvolvimento e pela imposição do oportunismo é das tendências que se comprometem e procuram a reconciliação com ele.

A luta incansável e sem vacilações contra o oportunismo é uma obrigação para um PC promover a sua estratégia e para consolidar o seu papel como vanguarda política e ideológica da classe operária.

Para lidar com o oportunismo o partido tem de ter a capacidade de:

-Subordinar a sua actividade inteira à sua definida estratégia revolucionária.

-Estar preparado para interpretar teoricamente os desenvolvimentos, os novos elementos do ponto de vista da defesa ideológica dos princípios teóricos e a capacidade de explicar os novos fenómenos na perspectiva de classe.

-Conduzir elaborações teóricas a respeito das conclusões sobre a acção política e a operação do partido.

-Assegurar o constante alargamento do nível político-ideológico geral do Partido e da relação das forças do partido com a teoria Marxista-Leninista.

-Salvaguardar a relação do partido com a classe operária e a correspondente composição de classe operária do partido.

-Assegurar a independência ideológica, política e organizacional do Partido a respeito de qualquer política de alianças e para perceber que a luta é conduzida dentro da estrutura da aliança.

-Ter a relação certa entre a vanguarda e as massas operárias e populares: Nem submissão ao nível de consciência das massas nem ficar separado delas.

-Assegurar que os princípios operacionais do partido são o centralismo democrático, a crítica e auto-crítica e o colectivo.

O KKE conseguiu persistir e dar passos para o seu reagrupamento político-ideológico e organizacional devido ao facto que uma grande parte dos seus quadros e membros não se vergaram aos apelos à contra-revolução em finais dos anos 1980.

O KKE possuía como legado a tradição de conflicto com o poder burguês através da luta do Exército Democrático da Grécia (DSE) em 1946-1949. Ele confrontou o revisionismo e o oportunismo euro-comunista em 1968 apesar do facto de ter ocorrido uma guinada oportunista direitista dentro do Partido depois do 6º plenário de 1956 – também devido à interferência do PCUS e de outros 5 partidos-irmãos, num contexto de sérios erros estratégicos e fraquezas.

A experiência histórica demonstrou que quando existem inconsistências entre as declarações e objectivos programáticos por um lado e a linha política directa para a sua realização por outro lado, quando não existe consistência entre palavras e acções, então as inconsistências que ocorrem serão resolvidas sacrificando as “declarações revolucionárias”.

A experiência histórica do KKE demonstrou que todas as expressões da luta do oportunismo por dominar dentro do Partido adquirem as características de trabalho de facções. Este faccionalismo foi óbvio nos desenvolvimentos que prepararam o 6º plenário de 1956 (faccionalismo apoiado pela liderança do PCUS) e durante o caso do 12º plenário de 1968 assim como durante a crise que o partido experimentou ao longo do período 1989-1991.

O oportunismo não deve ser identificado apenas com certos indivíduos que que lideraram e expressaram um desvio oportunista. A confrontação (do oportunismo) não diz respeito apenas à acção do Partido contra estes indivíduos, que evidentemente tem de ser decisiva.

Tem de haver sempre a identificação de uma causa mais profunda e das razões que levaram o desenvolvimento deste desvio. Isto é, as forças principais que lideraram a tentativa de dissolução do KKE ou a sua transformação num partido euro-comunista não têm a responsabilidade exclusiva pela série de escolhas oportunistas como a condenação da luta do DSE como sectarismo, como a dissolução das organizações ilegais do partido ou até na participação do KKE na formação da EDA* (NT: União Democrática de Esquerda, partido substituto legal do KKE quando este esteve ilegalizado durante décadas em plena democracia burguesa).

Consequentemente, a confrontação decisiva contra estas forças expulsando-as do Partido é um imperativo, uma necessidade imediata, mas (quando isso foi feito) não confrontou a raiz do problema. Adicionalmente, a experiência demonstra que a existência de reflexos (reacções) a respeito da confrontação aberta contra o oportunismo direitista, contra a tentativa de mutação ou de dissolução do Partido é um elemento importante que não foi perdido ao longo da história inteira do Partido, mesmo no período em que a guinada oportunista de direita foi dominante como foi expresso pelo 6º Plenário de 1956.

Porém, já se provou que estes reflexos por si só não são suficientes. Enquanto o principal problema não for confrontado, nomeadamente a questão de elaborar uma estratégia revolucionária e linha política revolucionária, então as lacunas estratégicas que são formadas no futuro irão consolidar o potencial do oportunismo e tentar alcançar a dominação dentro do Partido.

Como foi apontado no Ensaio da História do KKE, volume 2, 1949-1968: “Já se confirmou que o oportunismo e o faccionalismo consideram a crítica aberta, a auto-crítica, a colectividade, a revelação de problemas aos membros do Partido, a confiança no juízo deles, o controlo sobre a implementação das decisões e o centralismo democrático em geral como seus inimigos.” [33]

O conflicto contra o oportunismo não cessa enquanto as causas sociais da sua génese ainda existem e exercem pressão para a adaptação ao sistema. “A posição contra o oportunismo equivale à posição contra a classe burguesa do nosso próprio país” como disse Lenine.

A pressão para a perda de independência política e ideológica do Partido não é sempre expressa directamente pela classe burguesa e pelos seus aparatos (Comunicação Social, supressão pelo Estado, etc.) mas também é trazida para dentro das suas fileiras pelas suas próprias forças ou é reproduzida como pressão oportunista por forças que se separam do movimento comunista e continuam a pressionar as suas forças organizadas ou de facto de dentro do círculo de influência política do partido.

Frequentemente no passado, a aliança com o oportunismo (com a social-democracia durante um período histórico) foi realizada em nome da unidade da classe operária ou em nome da aliança entre a classe operária e as camadas populares pobres. A unidade política da classe operária apenas pode ser alcançada através da mobilização da classe operária à volta do seu Partido. Numerosos partidos expressando os interesses gerais da classe operária, independentemente de como eles se auto-intitulem, não podem existir.

Baseado nestes factos a Resolução Política do 19º Congresso do KKE fez referência a que: “Nas condições de capitalismo monopolista emergem partidos políticos e grupos oportunistas com várias formas que se separaram do KKE e têm posições diferentes (do KKE) em inúmeros assuntos mas acima de tudo na principal questão política, a questão “reforma ou revolução”. O KKE não pode levar a cabo nenhuma cooperação com estas forças políticas. Isto mantém-se verdade independentemente das manobras que as forças políticas oportunistas levem a cabo nas condições da ascenção do movimento adoptando palavras de ordem que parecem ser a favor do povo.

A sua proposta política (dos oportunistas) para o problema do poder está integrada nos parâmetros da gestão do sistema capitalista.” [34]

Hoje o KKE projecta a necessidade da vitória contra o oportunismo e da confrontação contra o oportunismo independentemente da sua força eleitoral e das suas expressões políticas. A linha política oportunista hoje impede a classe operária e as suas forças aliadas de romper o seu apoio à linha política burguesa. A linha da “unidade da esquerda”, da aliança com o objectivo de um “governo de esquerda” é a linha da assimilação (capitulação). A derrota desta linha facilitará às mais amplas massas operárias a avaliação com critérios com orientação de classe dos partidos políticos, a compreensão que os seus problemas estão baseados num carácter de classe e a ganhar consciência da necessidade da luta para mudar o carácter do poder.

A luta contra o oportunismo também diz respeito às condições em que novas parcelas das massas surgem na disputa e na luta contra qualquer política governamental, nas condições de crise económica e ainda mais nas condições de instabilidade política burguesa e ascenso revolucionário. É necessária a preparação política e ideológica adequada de forma a neutralizar as armadilhas da classe burguesa que utiliza o oportunismo também. Hoje, nestas condições, na Grécia ficou demonstrado que o surgimento do Syriza como um principais pilares para a reformulação do pólo social-democrata, tendo como sua perspectiva o governo burguês, fortalece as tendências de reagrupamento das forças políticas oportunistas com o objectivo de “criar um terceiro pólo na esquerda”, enquanto estas forças têm como principal característica a tolerância ou mesmo o apoio a um “governo de esquerda” no terreno do capitalismo.

O PC tem de consistentemente e de forma constante expor as inconsistências, as vacilações e o aventureirismo do oportunismo, mesmo quando as forças oportunistas declaram a sua fidelidade ao derrube do capitalismo.»

*The party was founded the July 1951 by prominent center-left and leftist politicians, some of which were former members of ELAS. While initially EDA was meant to act as a substitute and political front of the banned Communist Party of Greece, it eventually acquired a voice of its own, rather pluralistic and moderate. This development was more clearly shown at the time of the 1968 split in the ranks of Communist Party of Greece, with almost all former members of EDA joining the faction with Euro-communist, moderate tendencies.
https://en.m.wikipedia.org/wiki/United_Democratic_Left

Fonte: Blog In Defence of Communism

A PAME bloqueou o “Festival” dos Capitalistas-GSEE-CES-Governo Syriza

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16 de Setembro de 2016

Centenas de Sindicalistas da PAME, de desempregados e de pensionistas fizerm um protesto militante, desde manhã cedo, na Mansão Zappeio em Atenas, onde estava agendado para ter lugar o “Festival do Diálogo Social” do Governo do Syriza, dos Capitalistas Gregos, da Confederação Geral amarela dos Trabalhadores Gregos (GSEE) e da CES fantoche das multinacionais (Confederação Europeia de Sindicatos) e suas organizações-membros com o objectivo de enganar os trabalhadores.

Os trabalhadores responderam ao chamado da PAME bloqueando as entradas para a mansão e, dessa forma, bloqueando este Cartel do “Diálogo Social” de ter a sua “fiesta”. Os trabalhadores bloquearam os seus planos.

Este cartel veio à Grécia para discutir a abolição dos Contractos Colectivos, o ataque contra a Segurança Social e a destruição dos vínculos laborais.

Para conrectizar este plano o Governo do Syriza e os Capitalistas Gregos lado a lado com a GSEE vieram a Atenas para apoiar os burocratas vendidos amarelos da CGIL da Itália, DGB da Alemanha, CCOO da Espanha, TUC das Ilhas Britânicas e outros. Todos eles, executivos da CES, que durante anos apoiaram os planos dos imperialistas e aceitaram a abolição dos direitos dos trabalhadores.

A todos eles, a PAME deu lhes uma grande lição hoje!

Eles não são bem-vindos à Grécia!

Fonte: PAME